A Cidade de Deus - Livro VIII 10

Livro VIII: a teologia natural e os platônicos, e a refutação dos demônios mediadores de Apuleio

Que a excelência da religião cristã está acima de toda a ciência dos filósofos

Pois, ainda que um cristão instruído apenas na literatura eclesiástica talvez ignore o próprio nome dos platônicos, e não saiba sequer que existiram duas escolas de filósofos que falavam a língua grega, a saber, a jônica e a itálica, nem por isso ele é tão surdo no tocante às coisas humanas, a ponto de não saber que os filósofos professam o estudo, e até a posse, da sabedoria.
Ele está, contudo, em guarda no tocante àqueles que filosofam segundo os elementos deste mundo, e não segundo Deus, por quem o próprio mundo foi feito; pois é advertido pelo preceito do apóstolo, e fielmente ouve o que foi dito: "Cuidai que ninguém vos engane por meio da filosofia e de vão engano, segundo os elementos do mundo." Então, para que não suponha que todos os filósofos são tais que fazem isto, ele ouve o mesmo apóstolo dizer a respeito de alguns deles: "Porque o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, pois Deus lho manifestou.
Pois as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, claramente se vêem, sendo compreendidas pelas coisas que foram feitas, isto é, o seu eterno poder e divindade." E, falando aos atenienses, depois de ter dito algo grandioso a respeito de Deus, que poucos são capazes de compreender, "Nele vivemos, e nos movemos, e existimos", ele prossegue dizendo: "Como também alguns dos vossos disseram." Bem sabe ele, também, estar em guarda até mesmo contra esses filósofos em seus erros.
Pois onde foi dito por ele que "Deus lhes manifestou, por aquelas coisas que foram feitas, as suas coisas invisíveis, para que fossem vistas pelo entendimento", ali também foi dito que eles não adoraram retamente o próprio Deus, porque prestaram honras divinas, que somente a Ele são devidas, também a outras coisas às quais não deveriam tê-las prestado: "porque, conhecendo a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, mas se tornaram vãos em seus raciocínios, e o seu coração insensato se obscureceu.
Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos, e mudaram a glória do Deus incorruptível na semelhança da imagem do homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis"; e aqui o apóstolo quer que o entendamos como referindo-se aos romanos, e gregos, e egípcios, que se gloriavam no nome da sabedoria; mas a respeito disto disputaremos com eles mais adiante.
No tocante, porém, àquilo em que concordam conosco, nós os preferimos a todos os outros, a saber, a respeito do único Deus, o autor deste universo, que não está acima de todo corpo, sendo incorpóreo, mas também acima de todas as almas, sendo incorruptível: nosso princípio, nossa luz, nosso bem.
E ainda que o cristão, sendo ignorante de seus escritos, não use na disputa palavras que não aprendeu (não chamando aquela parte da filosofia de natural, que é o termo latino, ou física, que é o grego, a qual trata da investigação da natureza; nem aquela parte de racional, ou lógica, que lida com a questão de como se pode descobrir a verdade; nem aquela parte de moral, ou ética, que diz respeito aos costumes, e mostra como se de buscar o bem e evitar o mal), nem por isso ele ignora que é do único Deus verdadeiro e sumamente bom que temos aquela natureza pela qual somos feitos à imagem de Deus, e aquela doutrina pela qual o conhecemos a Ele e a nós mesmos, e aquela graça pela qual, unindo-nos a Ele, somos bem-aventurados.
Esta, portanto, é a razão por que preferimos estes a todos os outros: porque, enquanto outros filósofos desgastaram suas mentes e forças buscando as causas das coisas, e esforçando-se por descobrir o modo reto de aprender e de viver, estes, conhecendo a Deus, encontraram onde reside a causa pela qual o universo foi constituído, e a luz pela qual a verdade de ser descoberta, e a fonte na qual a felicidade de ser bebida. Todos os filósofos, pois, que tiveram estes pensamentos a respeito de Deus, sejam platônicos ou outros, concordam conosco.
Mas julgamos melhor pleitear nossa causa com os platônicos, porque seus escritos são mais conhecidos. Pois os gregos, cuja língua ocupa o lugar mais elevado entre as línguas dos gentios, são ruidosos nos louvores a esses escritos; e os latinos, cativados por sua excelência, ou por sua fama, estudaram-nos mais de coração do que outros escritos, e, traduzindo-os para a nossa língua, deram-lhes maior celebridade e notoriedade.