A Cidade de Deus - Livro V 3

Livro V: o destino, o livre-arbítrio, a presciência divina e a fonte das virtudes dos antigos romanos

Sobre os argumentos que o matemático Nigídio extraiu da roda do oleiro, na questão acerca do nascimento de gêmeos

De nada serve, portanto, que se traga à baila aquela célebre ficção da roda do oleiro, que conta a resposta que se diz ter Nigídio dado quando se viu embaraçado com esta questão, e por causa da qual foi chamado Fígulo. Pois, tendo girado a roda do oleiro com toda a sua força, marcou-a com tinta, golpeando-a duas vezes com a máxima rapidez, de modo que os golpes pareciam cair sobre a mesma e idêntica parte dela. Então, quando cessou a rotação, as marcas que havia feito foram encontradas na borda da roda a não pequena distância uma da outra.
Assim, disse ele, considerando a grande rapidez com que a esfera celeste gira, ainda que os gêmeos nascessem com intervalo tão breve entre os seus nascimentos quanto o que houve entre os golpes que dei nesta roda, esse breve intervalo de tempo equivale a uma distância muito grande na esfera celeste. Daí, disse ele, provêm quaisquer dessemelhanças que se possam notar nos hábitos e nas fortunas dos gêmeos. Este argumento é mais frágil do que os vasos que se modelam pela rotação daquela roda.
Pois, se tanta significação nos céus, que não pode ser apreendida pela observação das constelações, que, no caso dos gêmeos, uma herança possa caber a um e não ao outro, por que, no caso de outros que não são gêmeos, ousam eles, tendo examinado as suas constelações, declarar tais coisas que pertencem àquele segredo que ninguém pode compreender, e atribuí-las ao momento preciso do nascimento de cada indivíduo?
Ora, se tais predições relacionadas com as horas natais de outros que não são gêmeos hão de justificar-se com base em que se fundam na observação de espaços mais amplos nos céus, ao passo que aqueles brevíssimos momentos de tempo que separaram os nascimentos dos gêmeos, e correspondem a porções diminutas do espaço celeste, hão de ser ligados a coisas insignificantes acerca das quais não se costuma consultar os matemáticos (pois quem os consultaria sobre quando deve sentar-se, quando passear, quando e do que deve jantar?), como podemos ter razão em assim falar, quando podemos apontar tão múltipla diversidade tanto nos hábitos, nos atos e nos destinos dos gêmeos?