A Cidade de Deus - Livro V 21

Livro V: o destino, o livre-arbítrio, a presciência divina e a fonte das virtudes dos antigos romanos

Que o domínio romano foi concedido por Aquele de quem provém todo poder, e por cuja providência todas as coisas são governadas

Sendo assim estas coisas, não atribuímos o poder de conceder reinos e impérios a ninguém senão ao verdadeiro Deus, que a felicidade no reino dos céus somente aos piedosos, mas concede o poder régio na terra tanto aos piedosos quanto aos ímpios, conforme Lhe apraz, cujo beneplácito é sempre justo. Pois, ainda que tenhamos dito algo acerca dos princípios que orientam a Sua administração, na medida em que Lhe pareceu bem explicá-lo, contudo é demasiado para nós, e ultrapassa de muito as nossas forças, discutir as coisas ocultas dos corações dos homens e, por um exame claro, determinar os méritos dos diversos reinos.
Aquele, portanto, que é o único Deus verdadeiro, que nunca deixa o gênero humano sem justo juízo e auxílio, deu um reino aos romanos quando quis, e tão grande quanto quis, assim como o deu também aos assírios, e até aos persas, pelos quais, como os seus próprios livros testemunham, somente dois deuses são adorados, um bom e o outro mau, para nada dizer acerca do povo hebreu, do qual falei tanto quanto pareceu necessário, e que, enquanto foi um reino, não adorou ninguém senão o verdadeiro Deus.
O mesmo, portanto, que deu aos persas as colheitas, embora não adorassem a deusa Segécia, que deu as demais bênçãos da terra, embora não adorassem os muitos deuses que os romanos supunham presidir, cada um a alguma coisa em particular, ou mesmo muitos deles a cada coisa em separado, Ele, digo, deu aos persas o domínio, embora não adorassem nenhum daqueles deuses aos quais os romanos se julgavam devedores do império. E o mesmo é verdadeiro tanto a respeito dos homens quanto das nações.
Aquele que deu poder a Mário deu-o também a Caio César; Aquele que o deu a Augusto deu-o também a Nero; Aquele também que o deu aos mais benignos imperadores, os Vespasianos, pai e filho, deu-o também ao cruel Domiciano; e, enfim, para evitar a necessidade de passar por todos eles, Aquele que o deu ao cristão Constantino deu-o também ao apóstata Juliano, cuja mente talentosa foi enganada por uma curiosidade sacrílega e detestável, estimulada pelo amor ao poder.
E foi porque, por curiosidade, se entregava a oráculos vãos que, confiante na vitória, queimou os navios carregados com os mantimentos necessários ao seu exército, e por isso, lançando-se com ardente zelo a empreendimentos temerariamente audaciosos, foi logo morto, como justa consequência da sua imprudência, e deixou o seu exército desprovido de víveres em país inimigo, e em tal aperto que jamais poderia ter escapado, a não ser alterando os limites do império romano, em violação daquele presságio do deus Término de que falei no livro anterior; pois o deus Término cedeu à necessidade, embora não tivesse cedido a Júpiter.
Manifestamente estas coisas são regidas e governadas pelo único Deus segundo Lhe apraz; e, se os Seus motivos estão ocultos, são por isso injustos?