A Cidade de Deus - Livro V 20
Livro V: o destino, o livre-arbítrio, a presciência divina e a fonte das virtudes dos antigos romanos
Que é tão vergonhoso as virtudes servirem à glória humana quanto ao prazer corporal
Os filósofos que colocam o fim do bem humano na própria virtude, a fim de envergonhar certos outros filósofos que, de fato, aprovam as virtudes, mas medem todas elas tendo em vista o fim do prazer corporal, e pensam que esse prazer deve ser buscado por si mesmo, mas as virtudes por causa do prazer, costumam pintar uma espécie de quadro em palavras, no qual o Prazer se assenta como uma rainha luxuriosa sobre um trono real, e todas as virtudes lhe estão submetidas como escravas, atentas ao seu aceno, para que façam tudo o que ela ordenar. Ela ordena à Prudência que esteja sempre em vigília, para descobrir como o Prazer pode reinar e estar seguro.
À Justiça ela ordena que conceda os benefícios que puder, a fim de assegurar aquelas amizades que são necessárias ao prazer corporal; que não faça mal a ninguém, para que, por causa da violação das leis, o Prazer não possa viver em segurança. À Fortaleza ela ordena que mantenha bravamente em seu pensamento a sua senhora, isto é, o Prazer, caso alguma aflição sobrevenha ao seu corpo sem ocasionar a morte, a fim de que, pela lembrança das delícias passadas, ela mitigue a agudeza da dor presente.
À Temperança ela ordena que tome apenas certa quantidade mesmo do alimento mais predileto, para que, pelo uso imoderado, nada venha a ser nocivo perturbando a saúde do corpo, e assim o Prazer, que os epicuristas fazem consistir principalmente na saúde do corpo, seja gravemente ofendido. Desse modo, as virtudes, com toda a dignidade de sua glória, serão escravas do Prazer, como de uma mulher imperiosa e desonrosa.
Nada há, dizem os nossos filósofos, mais torpe e monstruoso do que esse quadro, e que os olhos dos homens bons menos possam suportar. E dizem a verdade. Mas não penso que o quadro fosse suficientemente decoroso, ainda que fosse feito de modo que as virtudes fossem representadas como escravas da glória humana; pois, embora essa glória não seja uma mulher luxuriosa, ela é, contudo, inchada de soberba e tem muita vaidade em si.
Por isso, é indigno da solidez e firmeza das virtudes representá-las como servas dessa glória, de modo que a Prudência nada proveja, a Justiça nada distribua, a Temperança nada modere, exceto com o fim de que os homens sejam agradados e a vanglória servida. Nem poderão eles defender-se da acusação de tal baixeza, enquanto, a pretexto de serem desprezadores da glória, desprezam o juízo dos outros homens, parecem sábios a si mesmos e a si mesmos se agradam. Pois a virtude deles, se de fato é virtude, está apenas de outro modo submetida ao louvor humano; pois quem busca agradar a si mesmo ainda busca agradar ao homem.
Mas aquele que, com verdadeira piedade para com Deus, a quem ama, crê e espera, fixa mais a sua atenção naquelas coisas em que desagrada a si mesmo do que naquelas, se é que há alguma, que a si mesmo agradam, ou antes, não a si, mas à verdade, esse não atribui aquilo pelo qual agora pode agradar à verdade a outra coisa senão à misericórdia daquele a quem temeu desagradar, dando graças por aquilo que nele está sarado, e derramando orações pela cura daquilo que ainda não está sarado.