A Cidade de Deus - Livro V 19

Livro V: o destino, o livre-arbítrio, a presciência divina e a fonte das virtudes dos antigos romanos

Da diferença entre a verdadeira glória e o desejo de domínio

Há, sem dúvida, uma diferença entre o desejo da glória humana e o desejo de domínio; pois, embora aquele que tem um deleite desmedido na glória humana esteja também muito inclinado a aspirar ardentemente ao domínio, contudo aqueles que desejam a verdadeira glória, mesmo do louvor humano, esforçam-se por não desagradar aos que bem julgam a seu respeito. Pois muitas boas qualidades morais, das quais muitos são juízes competentes, ainda que não as possuam muitos; e por essas boas qualidades morais avançam para a glória, a honra e o domínio aqueles homens de quem Salústio diz: "Mas avançam pelo verdadeiro caminho."
Mas todo aquele que, sem possuir aquele desejo de glória que faz temer desagradar aos que julgam sua conduta, deseja domínio e poder, muitíssimas vezes busca obter o que ama pelos mais abertos crimes. Portanto, aquele que deseja a glória avança para obtê-la ou pelo verdadeiro caminho, ou certamente por engano e artifício, querendo parecer bom quando não o é. Por conseguinte, para aquele que possui virtudes, é grande virtude desprezar a glória; pois o desprezo dela é visto por Deus, mas não se manifesta ao julgamento humano.
Pois qualquer coisa que alguém faça diante dos olhos dos homens a fim de mostrar-se desprezador da glória, se suspeitarem que ele o faz para obter maior louvor (isto é, maior glória), não dispõe de meio algum para demonstrar à percepção dos que dele suspeitam que o caso é realmente diverso daquilo que suspeitam ser. Mas aquele que despreza o julgamento dos louvadores despreza também a temeridade dos que suspeitam.
A salvação deles, em verdade, ele não despreza, se é verdadeiramente bom; pois tão grande é a justiça daquele homem que recebe suas virtudes do Espírito de Deus, que ama os seus próprios inimigos, e de tal modo os ama que deseja que os que o odeiam e o detraem se convertam à justiça, e se tornem seus associados, e isto não numa pátria terrena, mas numa pátria celestial. Mas, no que diz respeito aos seus louvadores, embora pouco valor ao louvor deles, não pouco valor ao amor deles; nem elude o louvor deles, para que não perca o amor deles.
E, portanto, esforça-se ardentemente por que os louvores deles sejam dirigidos Àquele de quem cada um recebe tudo o que nele é verdadeiramente digno de louvor. Mas aquele que é desprezador da glória, porém ávido de domínio, excede os animais nos vícios da crueldade e da luxúria. Tais, na verdade, foram certos romanos, que, carecendo do amor à estima, não careciam da sede de domínio; e que houve muitos assim, a história o atesta.
Mas foi o César Nero quem primeiro alcançou o cume, e por assim dizer a cidadela, deste vício; pois tão grande era a sua luxúria, que se pensaria não haver nele nada de viril a temer, e tamanha a sua crueldade, que, se não se soubesse o contrário, ninguém pensaria haver algo de efeminado em seu caráter. Não obstante, o poder e o domínio não são dados nem mesmo a tais homens senão pela providência do Deus altíssimo, quando ele julga que o estado das coisas humanas é digno de tais senhores.
A palavra divina é clara sobre esta matéria; pois a Sabedoria de Deus assim fala: "Por mim reinam os reis, e os tiranos possuem a terra." Mas, para que não se pense que por "tiranos" se entendem, não reis ímpios e perversos, mas homens valorosos, conforme o antigo uso da palavra, como quando Virgílio diz:
"Pois sabe que tratado não pode subsistir onde rei saúda rei e não lhe estende a mão,"
em outro lugar diz-se de modo inteiramente inequívoco a respeito de Deus, que ele "faz reinar o homem que é hipócrita por causa da perversidade do povo." Por isso, embora eu tenha mostrado, segundo a minha capacidade, por que razão Deus, que é o único verdadeiro e justo, ajudou os romanos, que eram bons conforme certo padrão de um Estado terreno, a adquirirem a glória de tão grande império, pode haver, contudo, uma causa mais oculta, mais bem conhecida de Deus do que de nós, que depende da diversidade dos méritos do gênero humano.
Entre todos os que são verdadeiramente piedosos, está de todo modo assente que ninguém, sem a verdadeira piedade (isto é, o verdadeiro culto do verdadeiro Deus), pode ter verdadeira virtude; e que não é verdadeira virtude aquela que é escrava do louvor humano. Não obstante, aqueles que não são cidadãos da cidade eterna, que nas Sagradas Escrituras se chama a cidade de Deus, são mais úteis à cidade terrena quando possuem mesmo aquela virtude do que se nem ao menos a tivessem.
Mas nada poderia ser mais venturoso para as coisas humanas do que isto: que, pela misericórdia de Deus, aqueles que são dotados de verdadeira piedade de vida, se tiverem a habilidade para governar os povos, tenham também o poder. Mas tais homens, por maiores que sejam as virtudes que possuam nesta vida, atribuem unicamente à graça de Deus o tê-la ele lhes concedido, querendo, crendo e buscando eles. E, ao mesmo tempo, compreendem quão distantes estão daquela perfeição da justiça que existe na sociedade daqueles santos anjos para a qual se esforçam por se tornar aptos.
Mas, por mais que se louve e se exalte aquela virtude que, sem a verdadeira piedade, é escrava da glória humana, ela de modo algum se de comparar nem mesmo aos débeis começos da virtude dos santos, cuja esperança está posta na graça e na misericórdia do verdadeiro Deus.