A Cidade de Deus - Livro V 18
Livro V: o destino, o livre-arbítrio, a presciência divina e a fonte das virtudes dos antigos romanos
Quão longe os cristãos devem estar de se vangloriar, se fizeram algo pelo amor da pátria eterna, quando os romanos fizeram coisas tão grandiosas pela glória humana e por uma cidade terrena
Que grande coisa é, portanto, para aquela cidade eterna e celestial desprezar todos os encantos deste mundo, por mais aprazíveis que sejam, se, por amor desta cidade terrena, Bruto pôde até dar a morte ao próprio filho, sacrifício que a cidade celestial a ninguém obriga a fazer? Mas é certamente mais difícil dar a morte aos próprios filhos do que fazer o que se exige fazer pela pátria celestial: a saber, distribuir aos pobres aquelas coisas que se julgavam acumular e guardar para os filhos, ou deixá-las ir, se surgir alguma tentação que nos compila a tanto, por amor da fé e da justiça.
Pois não são as riquezas terrenas que nos tornam felizes, a nós ou a nossos filhos; porque elas hão de ser perdidas por nós em vida, ou possuídas, depois de mortos, por quem não sabemos, ou talvez por quem não quereríamos. Mas é Deus quem nos faz felizes, ele que é a verdadeira riqueza das mentes. Quanto a Bruto, porém, até o poeta que celebra os seus louvores testemunha que lhe foi ocasião de infelicidade ter morto o próprio filho, pois diz:
"E mandar sua própria estirpe rebelde sangrar pela liberdade ameaçada. Pai infeliz! seja qual for o juízo que os dias futuros façam de tal feito."
Mas no verso seguinte ele o consola em sua infelicidade, dizendo:
"O amor da pátria a tudo há de superar."
Há aquelas duas coisas, a saber, a liberdade e o desejo do louvor humano, que impeliram os romanos a feitos admiráveis. Se, portanto, pela liberdade de homens que morrem, e pelo desejo do louvor humano que os mortais buscam, filhos puderam ser mortos por um pai, que grande coisa é, se, pela verdadeira liberdade que nos fez livres do domínio do pecado, da morte e do diabo (não pelo desejo do louvor humano, mas pelo ardente desejo de libertar os homens, não do rei Tarquínio, mas dos demônios e do príncipe dos demônios), devêssemos, não digo dar a morte a nossos filhos, mas contar entre nossos filhos os pobres de Cristo?
Se também outro chefe romano, de sobrenome Torquato, matou o próprio filho, não por ter combatido contra a pátria, mas porque, desafiado por um inimigo, ele, por impetuosidade juvenil, combateu, ainda que pela pátria, contra as ordens que ele, seu pai, dera como general; e isto fez, não obstante ter o filho saído vitorioso, para que não houvesse mais mal no exemplo da autoridade desprezada do que bem na glória de haver morto um inimigo; se, digo, Torquato assim agiu, por que haveriam de se gloriar aqueles que, pelas leis de uma pátria celestial, desprezam todos os bens terrenos, que são amados muito menos do que os filhos?
Se Fúrio Camilo, que foi condenado por aqueles que o invejavam, não obstante ter tirado do pescoço de seus concidadãos o jugo de seus mais amargos inimigos, os veientes, libertou novamente sua pátria ingrata dos gauleses, porque não tinha outra na qual pudesse ter melhores ocasiões de viver uma vida de glória; se Camilo assim fez, por que haveria de ser exaltado como tendo feito algo grandioso aquele que, tendo talvez sofrido na igreja, às mãos de inimigos carnais, a mais penosa e desonrosa injúria, não se passou para os inimigos heréticos, nem ele mesmo suscitou alguma heresia contra ela, mas antes a defendeu, tanto quanto pôde, da mais perniciosa perversidade dos hereges, visto que não há outra igreja, não digo na qual se possa viver uma vida de glória, mas na qual a vida eterna possa ser obtida?
Se Múcio, a fim de que se fizesse a paz com o rei Porsena, que pressionava os romanos com guerra a mais penosa, ao não conseguir matar Porsena, mas tendo matado outro por engano em seu lugar, estendeu a mão direita e a pôs sobre um altar em brasa, dizendo que muitos, tais como ele se via, haviam conspirado para a destruição do rei, de modo que Porsena, aterrado com sua audácia e com o pensamento de uma conspiração de homens como aquele, sem demora alguma revogou todos os seus propósitos belicosos e fez a paz; se, digo, Múcio fez isto, quem falará de seus méritos para com o reino dos céus, se por ele houver entregue às chamas não uma só mão, mas até o corpo inteiro, e isto não por ato espontâneo seu, mas porque foi perseguido por outrem?
Se Cúrcio, esporeando o corcel, lançou-se todo armado num abismo escarpado, obedecendo aos oráculos de seus deuses, que haviam ordenado que os romanos arrojassem naquele abismo a melhor coisa que possuíam, e só puderam entender com isto que, visto que sobressaíam em homens e armas, os deuses haviam ordenado que um homem armado fosse lançado de cabeça naquela perdição; se ele fez isto, diremos que fez grande coisa pela cidade eterna aquele que houver morrido de morte semelhante, não, porém, precipitando-se espontaneamente num abismo, mas tendo sofrido essa morte às mãos de algum inimigo de sua fé, mormente quando recebeu de seu Senhor, que é também o Rei de sua pátria, um oráculo mais seguro: "Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma"? Se os Décios se dedicaram à morte, consagrando-se por meio de uma fórmula de palavras, por assim dizer, para que, caindo e aplacando com o seu sangue a ira dos deuses, fossem o meio de libertar o exército romano; se eles fizeram isto, não se ufanem os santos mártires, como se tivessem feito algo meritório para ter parte naquela pátria onde estão a vida eterna e a felicidade, se, mesmo até o derramamento de seu sangue, amando não somente os irmãos por quem ele era derramado, mas, conforme lhes fora ordenado, até os inimigos por quem era derramado, rivalizaram uns com os outros na fé do amor e no amor da fé.
Se Marco Pulvilo, quando ocupado em dedicar um templo a Júpiter, Juno e Minerva, recebeu com tamanha indiferença a falsa notícia que lhe foi trazida da morte de seu filho, com a intenção de assim agitá-lo para que se retirasse, e desse modo a glória de dedicar o templo coubesse a seu colega; se recebeu aquela notícia com tamanha indiferença que até ordenou que o filho fosse lançado fora insepulto, tendo o amor da glória vencido em seu coração a dor da perda, como afirmará alguém que fez grande coisa pela pregação do evangelho, pela qual os cidadãos da cidade celestial são libertados de diversos erros e reunidos de diversos extravios, e a quem o seu Senhor disse, quando ansioso pelo sepultamento de seu pai: "Segue-me, e deixa aos mortos sepultar os seus mortos"? Régulo, para não quebrar o juramento, ainda que para com seus mais cruéis inimigos, regressou a eles da própria Roma, porque (como se diz ter respondido aos romanos quando estes quiseram retê-lo) não poderia ter a dignidade de um cidadão honrado em Roma depois de haver sido escravo dos africanos; e os cartagineses deram-lhe a morte com os mais extremos tormentos, porque ele falara contra eles no senado.
Se Régulo agiu assim, que tormentos não hão de ser desprezados em prol da boa-fé para com aquela pátria a cuja bem-aventurança a própria fé conduz? Ou que terá o homem retribuído ao Senhor por tudo o que ele lhe concedeu, se, pela fidelidade que lhe deve, houver sofrido tais coisas como Régulo sofreu às mãos de seus mais impiedosos inimigos pela boa-fé que lhes devia?
E como ousará um cristão vangloriar-se de sua pobreza voluntária, que escolheu a fim de que, durante a peregrinação desta vida, pudesse caminhar mais desembaraçado no caminho que conduz à pátria onde estão as verdadeiras riquezas, isto é, o próprio Deus; como, digo, há de vangloriar-se disto, quando ouve ou lê que Lúcio Valério, que morreu enquanto ocupava o cargo de cônsul, era tão pobre que suas despesas fúnebres foram pagas com dinheiro arrecadado pelo povo? ou quando ouve que Quíncio Cincinato, que, possuindo apenas quatro jeiras de terra e cultivando-as com as próprias mãos, foi tirado do arado para ser feito ditador (cargo ainda mais honroso do que o de cônsul), e que, depois de ter alcançado grande glória vencendo o inimigo, preferiu não obstante permanecer em sua pobreza?
Ou como há de gloriar-se de ter feito grande coisa aquele que não se deixou persuadir, pela oferta de qualquer recompensa deste mundo, a renunciar à sua ligação com aquela pátria celestial e eterna, quando ouve que Fabrício não pôde ser persuadido a abandonar a cidade romana pelos grandes presentes que lhe ofereceu Pirro, rei dos epirotas, que lhe prometeu a quarta parte de seu reino, mas preferiu permanecer ali em sua pobreza, como um simples particular?
Pois se, quando sua república (isto é, o interesse do povo, o interesse da pátria, o interesse comum) era a mais próspera e opulenta, eles mesmos eram tão pobres em suas próprias casas que um deles, que já fora duas vezes cônsul, foi expulso daquele senado de homens pobres pelo censor, porque se descobriu que possuía dez libras de baixela de prata; visto que, digo, aqueles mesmos homens por cujos triunfos o tesouro público se enriquecia eram tão pobres, não deveriam todos os cristãos, que fazem das suas riquezas propriedade comum com um propósito muito mais nobre, a saber, que (segundo o que está escrito nos Atos dos Apóstolos) distribuam a cada um conforme a sua necessidade, e que ninguém diga que coisa alguma é sua, mas que todas as coisas sejam posse comum, não deveriam eles compreender que não devem vangloriar-se, porque fazem isso para obter a sociedade dos anjos, quando aqueles homens fizeram quase o mesmo para preservar a glória dos romanos?
Como poderiam estes feitos, e quaisquer outros semelhantes que se encontram na história romana, ter-se tornado tão amplamente conhecidos e ter sido proclamados por tão grande fama, se o império romano, estendendo-se por toda parte, não houvesse sido elevado à sua grandeza por êxitos magníficos?
Por isso, mediante aquele império, tão extenso e de tão longa duração, tão ilustre e glorioso também pelas virtudes de homens tão grandes, foi dada a recompensa que buscavam às suas ardentes aspirações, e também nos são postos diante exemplos, contendo necessária admoestação, para que sejamos feridos de vergonha se virmos que não conservamos firmes, em prol da gloriosíssima cidade de Deus, aquelas virtudes que, de algum modo, são parecidas com as virtudes que eles conservaram firmes em prol da glória de uma cidade terrena; e para que, também, se sentirmos consciência de tê-las conservado firmes, não nos ensoberbeçamos, porque, como diz o apóstolo: "Os sofrimentos do tempo presente não são dignos de ser comparados com a glória que em nós há de ser revelada." Mas, no que concerne à glória humana e temporal, as vidas desses antigos romanos foram tidas por suficientemente dignas.
Portanto, também vemos, à luz daquela verdade que, velada no Antigo Testamento, é revelada no Novo, a saber, que não é em vista de benefícios terrenos e temporais, que a providência divina concede indistintamente a bons e maus, que Deus deve ser adorado, mas em vista da vida eterna, dos dons sempiternos e da sociedade da própria cidade celestial; à luz desta verdade vemos que os judeus foram com toda a justiça entregues como troféu à glória dos romanos; pois vemos que esses romanos, que se firmavam na glória terrena e buscavam obtê-la mediante virtudes, tais como eram, venceram aqueles que, em sua grande depravação, mataram e rejeitaram o doador da verdadeira glória e da cidade eterna.