A Cidade de Deus - Livro V 17

Livro V: o destino, o livre-arbítrio, a presciência divina e a fonte das virtudes dos antigos romanos

Com que proveito os romanos travaram guerras, e quanto contribuíram para o bem-estar daqueles que conquistaram

Pois, no que diz respeito a esta vida dos mortais, que se passa e termina em poucos dias, que importa sob cujo governo viva um homem que de morrer, contanto que aqueles que governam não o forcem à impiedade e à iniquidade? Acaso prejudicaram os romanos de algum modo aquelas nações às quais, depois de subjugadas, impuseram as suas leis, exceto na medida em que isso se realizou com grande matança na guerra? Ora, se isso tivesse sido feito com o consentimento das nações, ter-se-ia feito com maior êxito; mas não haveria glória alguma de conquista, pois nem os próprios romanos viviam isentos daquelas leis que impunham aos outros.
Se isso tivesse sido feito sem Marte e Belona, de modo que não houvesse lugar para a vitória, não vencendo ninguém onde ninguém houvesse combatido, não seria una e a mesma a condição dos romanos e a das outras nações? Sobretudo se logo de início se tivesse feito aquilo que depois se fez de modo muito humano e muito bem aceito, a saber, a admissão de todos aos direitos de cidadãos romanos que pertenciam ao império romano, e se de todos se tivesse feito privilégio aquilo que antes era privilégio de poucos, com esta única condição: que a classe mais humilde, que não possuía terras próprias, vivesse à custa do erário público. Esse tributo alimentar teriam eles pago com muito melhor disposição às mãos de bons administradores da república, da qual eram membros, por seu próprio e cordial consentimento, do que o teriam pago se fosse necessário extorqui-lo deles como homens vencidos.
Pois não vejo o que isso contribui para a segurança, os bons costumes e, com certeza, para a dignidade dos homens: que uns tenham vencido e outros tenham sido vencidos, a não ser que lhes proporcione aquela pompa insanissíma da glória humana, na qual "já receberam a sua recompensa" aqueles que ardiam de desejo excessivo dela e travaram guerras as mais ávidas. Pois acaso não pagam tributo as terras deles? Têm eles algum privilégio de aprender o que aos outros não é dado aprender? Não há, nos outros países, muitos senadores que nem sequer conhecem Roma de vista? Tira a aparência externa, e o que são, afinal, todos os homens senão homens?
Mas, ainda que a perversidade da época permitisse que todos os homens melhores fossem honrados mais altamente do que os outros, nem assim se deveria ter a honra humana por grande preço, pois é fumaça que não tem peso algum. Sirvamo-nos, porém, mesmo dessas coisas, da bondade de Deus.
Consideremos quão grandes coisas desprezaram, quão grandes coisas suportaram, que paixões subjugaram pela glória humana aqueles que mereceram essa glória, por assim dizer, em recompensa de tais virtudes; e que isso nos seja útil também para reprimir a soberba, de modo que, sendo aquela cidade na qual nos foi prometido reinar tanto mais elevada do que esta quanto o céu dista da terra, quanto a vida eterna supera a alegria temporal, a glória sólida o louvor vazio, ou a sociedade dos anjos a sociedade dos mortais, ou a glória daquele que fez o sol e a lua a luz do sol e da lua, os cidadãos de tão grande pátria não pareçam a si mesmos ter feito algo de muito grande se, para obtê-la, praticaram algumas boas obras ou suportaram alguns males, quando aqueles homens, por esta pátria terrena obtida, fizeram coisas tão grandes, sofreram coisas tão grandes.
E especialmente todas estas coisas devem ser consideradas, porque a remissão dos pecados, que reúne cidadãos para a pátria celeste, tem em si algo de que se encontra uma semelhança sombria naquele asilo de Rômulo, para onde, fugindo do castigo de toda sorte de crimes, se congregou aquela multidão com a qual o Estado havia de ser fundado.