A Cidade de Deus - Livro II 5
Livro II: os males morais que os deuses de Roma trouxeram ao povo antes da vinda de Cristo
Das obscenidades praticadas em honra da mãe dos deuses
Neste assunto, eu preferiria ter como assessores em meu julgamento, não aqueles homens que antes se comprazem nesses costumes infames do que se esforçam por pôr-lhes fim, mas aquele mesmo Cipião Násica que foi escolhido pelo senado como o cidadão mais digno de receber em suas mãos a imagem daquele demônio Cibele e de conduzi-la para dentro da cidade.
Ele nos diria se ficaria orgulhoso de ver sua própria mãe tão altamente estimada pelo Estado a ponto de lhe serem decretadas honras divinas, assim como os gregos, os romanos e outras nações decretaram honras divinas a homens que lhes haviam prestado serviço material, e creram que seus benfeitores mortais eram assim tornados imortais e inscritos entre os deuses. Decerto ele desejaria que sua mãe gozasse de tal felicidade, se isso fosse possível.
Mas se passássemos a perguntar-lhe se, entre as honras prestadas a ela, desejaria que se celebrassem ritos tão vergonhosos como esses, não exclamaria ele de imediato que preferiria ver sua mãe jazendo morta como pedra a sobreviver como deusa para dar ouvidos a tais obscenidades? Será possível que aquele que era de moralidade tão severa, ao ponto de usar sua influência como senador romano para impedir a construção de um teatro naquela cidade dedicada às virtudes viris, desejasse que sua mãe fosse aplacada como deusa com palavras que lhe teriam feito corar as faces quando era uma matrona romana?
Poderia ele acaso crer que o pudor de uma mulher digna de estima seria de tal modo transformado por sua elevação à divindade, que ela permitiria ser invocada e celebrada em termos tão grosseiros e impudicos que, se houvesse ouvido coisas semelhantes enquanto viva sobre a terra, e tivesse escutado sem tapar os ouvidos e sem se afastar às pressas do lugar, seus parentes, seu marido e seus filhos teriam corado por ela?
Portanto, sendo a mãe dos deuses um caráter tal que o homem mais devasso se envergonharia de tê-la por mãe, e pretendendo escravizar as mentes dos romanos, exigiu para seu serviço o melhor de seus cidadãos, não para amadurecê-lo ainda mais na virtude com seu conselho proveitoso, mas para enredá-lo com seu engano, como aquela de quem está escrito: "A adúltera caçará a alma preciosa." Sua intenção era ensoberbecer este homem de alma elevada com um testemunho aparentemente divino de sua excelência, a fim de que ele se apoiasse em sua própria eminência na virtude e não fizesse mais nenhum esforço em busca da verdadeira piedade e religião, sem as quais o gênio natural, por mais brilhante que seja, se evapora em orgulho e se reduz a nada.
Pois com que outro propósito senão enganoso poderia aquela deusa exigir o melhor dos homens, vendo que em suas próprias festas sagradas ela requer tais obscenidades que os melhores dos homens se cobririam de vergonha ao ouvi-las às suas próprias mesas?