A Cidade de Deus - Livro II 4

Livro II: os males morais que os deuses de Roma trouxeram ao povo antes da vinda de Cristo

Que os adoradores dos deuses jamais receberam deles preceitos morais salutares, e que na celebração de seu culto praticavam-se toda sorte de impurezas

Antes de tudo, perguntaríamos por que seus deuses não tomaram providência alguma para melhorar os costumes de seus adoradores. Que o verdadeiro Deus negligenciasse aqueles que não buscavam o seu auxílio, isso não era senão justiça; mas por que aqueles deuses, de cujo culto os homens ingratos agora se queixam de estarem proibidos, não promulgaram leis que pudessem ter conduzido os seus devotos a uma vida virtuosa? Por certo não seria senão justo que, tal como os homens mostravam cuidado no culto aos deuses, os deuses, por sua parte, tivessem cuidado com a conduta dos homens. Mas, replica-se, é por sua própria vontade que o homem se desvia. Quem o nega?
Não obstante, cabia a esses deuses, que eram os guardiães dos homens, publicar em termos claros as leis de uma vida boa, e não ocultá-las de seus adoradores. Era da sua incumbência enviar profetas para alcançar e convencer aqueles que transgrediam essas leis, e proclamar publicamente os castigos que aguardam os malfeitores, e as recompensas que podem esperar aqueles que praticam o bem. Acaso alguma vez as paredes de algum de seus templos ecoaram com tal voz de advertência?
Eu mesmo, quando era jovem, costumava por vezes assistir aos sacrílegos divertimentos e espetáculos; via os sacerdotes delirando em êxtase religioso, e ouvia os coristas; deleitava-me nos jogos vergonhosos que se celebravam em honra de deuses e deusas, da virgem Celeste e de Berecíntia, a mãe de todos os deuses.
E no dia santo consagrado à sua purificação, cantavam-se diante de seu leito composições tão obscenas e imundas aos ouvidos, não digo da mãe dos deuses, mas da mãe de qualquer senador ou homem honesto, ou melhor, tão impuras que nem mesmo a mãe dos próprios atores de boca suja poderia ter feito parte da plateia. Pois a reverência natural pelos pais é um vínculo que nem os mais depravados podem ignorar.
E, por conseguinte, as ações lascivas e as palavras imundas com que esses atores honravam a mãe dos deuses, na presença de uma vasta assembleia e plateia de ambos os sexos, eles não poderiam, por pura vergonha, ter representado em casa, na presença de suas próprias mães. E as multidões que de toda parte se reuniam pela curiosidade, ofendido o pudor, devo supor, ter-se-iam dispersado na confusão da vergonha. Se estes são ritos sagrados, o que é o sacrilégio? Se isto é purificação, o que é poluição? Esta festividade chamava-se as Mesas, como se um banquete estivesse sendo oferecido, no qual demônios imundos pudessem encontrar refeição apropriada.
Pois não é difícil ver que espécie de espíritos devem ser aqueles que se deleitam com tais obscenidades, a menos, na verdade, que um homem esteja cego por esses espíritos malignos que se fazem passar sob o nome de deuses, e ou descreia de sua existência, ou leve uma vida tal que o leve antes a aplacá-los e temê-los do que ao verdadeiro Deus.