A Cidade de Deus - Livro II 11
Livro II: os males morais que os deuses de Roma trouxeram ao povo antes da vinda de Cristo
Que os gregos admitiam os atores aos cargos públicos, sob o argumento de que os homens que agradavam aos deuses não deviam ser tratados com desprezo por seus concidadãos
Fazia parte dessa mesma razoabilidade dos gregos aquilo que os induziu a conferir aos atores dessas mesmas peças honras cívicas nada desprezíveis. No livro acima mencionado, o Da República, registra-se que Ésquines, ateniense muito eloquente que em sua juventude havia sido ator trágico, tornou-se homem de Estado, e que os atenienses, repetidas vezes, enviaram outro trágico, Aristodemo, como seu embaixador plenipotenciário junto a Filipe. Pois julgavam impróprio condenar e tratar como infames as pessoas que eram os principais atores dos espetáculos cênicos que viam ser tão agradáveis aos deuses.
Sem dúvida isso era imoral por parte dos gregos, mas tão pouco se pode duvidar de que agiram em conformidade com o caráter de seus deuses; pois como poderiam ter presumido proteger a conduta dos cidadãos de ser despedaçada pelas línguas dos poetas e atores, a quem se permitia, e até se ordenava pelos próprios deuses, rasgar em farrapos a reputação divina deles? E como poderiam ter em desprezo os homens que representavam nos teatros aqueles dramas que, conforme haviam constatado, davam prazer aos deuses que adoravam? Mais ainda, como poderiam deixar de conceder-lhes as mais altas honras cívicas?
Com que pretexto poderiam honrar os sacerdotes que ofereciam por eles aos deuses sacrifícios aceitáveis, se marcassem com infâmia os atores que, em nome do povo, davam aos deuses aquele prazer ou aquela honra que estes exigiam, e que, segundo o relato dos sacerdotes, os irritava não receber?
Labeão, cuja erudição faz dele uma autoridade em tais matérias, é de opinião que a distinção entre divindades boas e más deveria encontrar expressão numa diferença de culto: que as más fossem aplacadas com sacrifícios sangrentos e ritos lúgubres, mas as boas com uma observância alegre e agradável, como, por exemplo (segundo ele próprio diz), com peças, festas e banquetes. Tudo isso, com a ajuda de Deus, discutiremos mais adiante.
Por ora, e falando ao assunto em pauta, quer todas as espécies de oferendas sejam feitas indistintamente a todos os deuses, como se todos fossem bons (e é coisa imprópria conceber que existam deuses maus; ora, esses deuses dos pagãos são todos maus, porque não são deuses, mas espíritos malignos), quer, como pensa Labeão, se faça uma distinção entre as oferendas apresentadas aos diferentes deuses, os gregos têm igualmente justificativa para honrar do mesmo modo os sacerdotes pelos quais se oferecem os sacrifícios e os atores pelos quais se representam os dramas, a fim de não ficarem sujeitos à acusação de cometer uma injúria a todos os seus deuses, caso as peças sejam agradáveis a todos eles, ou (o que seria ainda pior) aos seus deuses bons, caso as peças sejam apreciadas somente por estes.