A Cidade de Deus - Livro II 10
Livro II: os males morais que os deuses de Roma trouxeram ao povo antes da vinda de Cristo
Que os demônios, ao permitirem que se lhes atribuíssem crimes falsos ou verdadeiros, pretendiam causar dano aos homens
Alega-se, em desculpa dessa prática, que as histórias contadas sobre os deuses não são verdadeiras, mas falsas e meras invenções; isso, porém, só torna as coisas piores, se formamos o nosso juízo segundo a moralidade que a nossa religião ensina; e se consideramos a malícia dos demônios, que artifício mais ardiloso e astuto poderiam eles exercer sobre os homens? Quando se profere uma calúnia contra um eminente estadista de vida reta e proveitosa, não é ela tanto mais reprovável quanto mais falsa e infundada? Que castigo, então, seria suficiente quando os deuses são objeto de injustiça tão perversa e ultrajante?
Mas os demônios, a quem estes homens reputam deuses, contentam-se em que se lhes atribuam até iniquidades de que são inocentes, contanto que possam enredar as mentes dos homens nas malhas dessas opiniões e arrastá-los consigo para o castigo a que estão predestinados: quer tais coisas tenham sido realmente cometidas pelos homens que esses demônios, deleitando-se na insensatez humana, fazem ser adorados como deuses, e em cujo lugar eles, por mil artifícios malignos e enganosos, a si mesmos substituem, e assim recebem adoração; quer, embora fossem de fato crimes de homens, esses espíritos malignos de bom grado permitissem que se atribuíssem a seres superiores, para que parecesse vir do próprio céu uma sanção suficiente para a perpetração de torpe maldade.
Os gregos, portanto, vendo o caráter dos deuses a que serviam, julgaram que os poetas certamente não deviam abster-se de expor os vícios humanos no palco, ou porque desejavam ser semelhantes aos seus deuses nisso, ou porque temiam que, se exigissem para si próprios uma reputação mais imaculada do que a que afirmavam dos deuses, pudessem provocá-los à ira.