Capítulos

Salmos

Autoria, superscrições e datação

Os Salmos são uma coletânea de 150 poemas litúrgicos de autoria múltipla, reunidos ao longo de vários séculos. As superscrições hebraicas associam cerca de 73 salmos a Davi, além de atribuir composições a Asafe, aos filhos de Corá, a Salomão, a Etã, a Hemã e a Moisés (Sl 90); um número grande permanece anônimo. A própria preposição hebraica le nesses cabeçalhos (le-David) é ambígua: pode indicar autoria ("de"), dedicatória ("para"), tema ("a respeito de") ou simples pertencimento a uma coleção. Como Crônicas liga Asafe e os coraítas às guildas de cantores do Templo, boa parte da crítica entende muitas dessas etiquetas como indicação de repertório litúrgico, não de autoria pessoal. Os títulos também não são estáveis na tradição textual: a Septuaginta acrescenta atribuições davídicas ausentes do hebraico e inclui um salmo extra (o Sl 151), sinal de que continuavam fluidos séculos depois.

A composição se estende por um período longo. Núcleos antigos podem remontar à monarquia (do século 10 ao 8 a.C.), enquanto salmos que pressupõem o exílio babilônico (Sl 137) ou a destruição do Templo (Sl 74, 79) datam necessariamente de muito depois de Davi, no século 6 a.C. ou após. A forma final, costurada provavelmente no período do Segundo Templo, reflete portanto camadas que vão do pré-exílico ao pós-exílico. Quem defende a autoria davídica de toda a coleção e quem a vê como majoritariamente litúrgica e anônima divergem sobre o peso das superscrições, mas a presença de salmos abertamente exílicos torna a autoria única difícil de sustentar.

O Saltério está dividido em cinco livros (Sl 1-41, 42-72, 73-89, 90-106, 107-150), cada um fechado por uma doxologia com a mesma fórmula (bênção, nome divino, fórmula de eternidade e um duplo "amém"); o Sl 150 inteiro serve de doxologia ao conjunto. Esses fechos são costuras editoriais, e a divisão pentapartida, já reconhecida no Talmude babilônico, é lida por muitos como imitação deliberada dos cinco livros do Pentateuco, uma "Torá de oração". A nota de Sl 72:20 ("Findam aqui as orações de Davi") encerra uma coleção, ainda que salmos davídicos reapareçam depois dela (Sl 86, 101, 103, 138-145), sinal de que o redator dessa linha não controlava o Saltério inteiro como o temos. Coleções identificáveis circularam de forma independente antes de serem encaixadas no arranjo final: a davídica, os filhos de Corá (Sl 42-49, 84-88), Asafe (Sl 50, 73-83) e os cânticos de subida (Sl 120-134).

O bloco Sl 42-83, chamado Saltério Elohísta, oferece evidência limpa de edição humana sobre o texto: nele o termo genérico Elohim ("Deus") suplanta o nome próprio YHWH numa proporção esmagadora, ao contrário do resto do livro. O caso decisivo é o par quase idêntico Sl 14 e Sl 53: o mesmo poema aparece duas vezes, mas a versão dentro do bloco elohísta (53) troca sistematicamente YHWH por Elohim. A explicação mais econômica é que coleções distintas preservaram variantes do mesmo hino e o compilador manteve ambas, conservando as convenções escribais de cada fonte em vez de as uniformizar.

Manuscritos

Os Salmos são o livro mais representado nos Manuscritos do Mar Morto, com pelo menos 36 manuscritos identificados em Qumran. O mais importante deles é o 11Q Psalms (ou 11QPsa), descoberto na Caverna 11 e datado do século 1 d.C. Esse rolo preserva cerca de 50 composições, das quais 41 são salmos canônicos do Texto Massorético, além de 8 textos poéticos ausentes do Texto Massorético padrão, o que levanta questões sobre se existiu uma forma alternativa do saltério no período do Segundo Templo.

O livro chegou até nós também na versão grega da Septuaginta, que apresenta diferenças de numeração em relação ao Texto Massorético: os Salmos 9 e 10 hebraicos correspondem a um único Salmo 9 na LXX, gerando defasagem de numeração que persiste em Bíblias católicas e ortodoxas. A ordem dos Livros I-III é confirmada pelos manuscritos de Qumran datados de aproximadamente 150 a.C.

Conteúdo Principal

Livro I (Salmos 1-41): Salmos Davídicos

O Senhor é o meu Pastor (Salmo 23)
  • O caminho do justo e o caminho do ímpio(Sl 1:1)
  • O Rei ungido de Deus (salmo messiânico)(Sl 2:1)
  • Clamor de abandono: "Deus meu, por que me abandonaste?"(Sl 22:1)
  • O Senhor é o meu Pastor(Sl 23:1)
  • Confiança em Deus em meio à perseguição(Sl 31:1)

Livro II (Salmos 42-72): Salmos de Corá e Davídicos

Como o cervo anseia pelas correntes das águas (Salmo 42)
  • Anseio pela presença de Deus no exílio(Sl 42:1)
  • Deus é o nosso refúgio e fortaleza(Sl 46:1)
  • Salmo penitencial de Davi após o caso com Bate-Seba(Sl 51:1)
  • Oração pelo rei (salmo de Salomão)(Sl 72:1)

Livro III (Salmos 73-89): Salmos de Asafe

Os músicos levitas de Asafe louvando a Deus
  • A prosperidade dos ímpios e a crise de fé do salmista(Sl 73:1)
  • Salmo histórico: as obras de Deus no Êxodo e no deserto(Sl 78:1)
  • O mais sombrio dos salmos: clamor sem resposta aparente(Sl 88:1)

Livro IV (Salmos 90-106): Da Criação ao Êxodo

À sombra das asas do Altíssimo (Salmo 91)
  • Oração de Moisés: a eternidade de Deus e a brevidade humana(Sl 90:1)
  • Proteção divina: "o que habita no esconderijo do Altíssimo"(Sl 91:1)
  • Louvor às misericórdias de Deus(Sl 103:1)

Livro V (Salmos 107-150): Hinos de Louvor e Subida

Louvai-O com todos os instrumentos (Salmo 150)
  • Salmo de investidura real: "Senta-te à minha direita" (citado no NT)(Sl 110:1)
  • Salmo acróstico mais longo da Bíblia: meditação sobre a Torá(Sl 119:1)
  • Lamento no exílio babilônico: "às margens dos rios da Babilônia"(Sl 137:1)
  • Doxologia final: louvor com todos os instrumentos(Sl 150:1)

Os gêneros de Gunkel e o uso litúrgico

Hermann Gunkel mostrou que os Salmos não são efusões espontâneas, e sim composições que obedecem a convenções de gênero (Gattungen), com fórmulas de abertura, estruturas e vocabulário recorrentes. Os principais tipos são o hino de louvor, o lamento individual e o lamento comunitário, a ação de graças, o salmo de confiança, o salmo de sabedoria, o salmo histórico, o salmo real e os cânticos de subida (peregrinação, Sl 120-134). O lamento é o gênero mais frequente, o que contraria a imagem do saltério como coleção predominantemente festiva. Reconhecer os gêneros é observação literária verificável, hoje aceita até por comentaristas confessionais.

Gunkel ligou cada gênero a um Sitz im Leben, um contexto vivencial originalmente cultual, e seu discípulo Sigmund Mowinckel levou a hipótese adiante ao reconstruir uma "festa de entronização de YHWH" no Ano Novo, na qual mais de quarenta salmos (Sl 47, 93, 95-100) encenariam a vitória de Deus sobre o caos. Aqui o método se torna mais frágil que a observação dos gêneros: a tal festa não está atestada em nenhum texto bíblico nem em inscrição, sendo inferida por analogia com o akitu babilônico, e críticos apontam circularidade no raciocínio. A própria fórmula YHWH malak admite tanto "YHWH reina" (estado) quanto "YHWH tornou-se rei" (evento ritual), e a escolha decide a tese. Que os salmos nasceram e viveram no culto do Templo é claro pelos próprios títulos litúrgicos ("ao mestre de canto", "com instrumentos de cordas"); o que permanece em aberto é se a forma literária autoriza reconstruir o calendário cerimonial exato em que cada oração teria surgido.

Paralelos com a poesia religiosa do Antigo Oriente

Vários salmos compartilham linguagem e imagens com a poesia religiosa dos vizinhos de Israel. O caso mais forte é o Sl 29: desde o estudo de H. L. Ginsberg (1935), corroborado pelas tábuas de Ugarit (séculos 14-13 a.C.), a crítica reconhece que a "voz de YHWH" que quebra os cedros, faz tremer o deserto e troveja sobre as muitas águas reproduz quase verso a verso a forma com que se descrevia Baal, o deus-tempestade cananeu. No Ciclo de Baal, lê-se que esta passagem ressoa com a mesma força, e os topônimos do salmo (Líbano, Siriom/Hermon) são do Levante, não da Judeia:

(Ciclo de Baal 4:103)

Há quem leia o Sl 29 como hino cananeu adaptado pela troca do nome Baal por YHWH, e quem o leia como polêmica deliberada que atribui ao Senhor os poderes antes dados a Baal; em ambos os casos, o salmo dialoga com a teologia tempestuária do seu mundo.

O Sl 104 partilha estrutura e sequência de imagens com o Grande Hino a Áton do faraó Aquenáton (século 14 a.C.): os animais que se recolhem ao anoitecer, o homem que sai para o trabalho ao amanhecer, a água como dádiva, o olhar universal sobre toda a criação. O paralelo se vê já na abertura do hino egípcio:

(Hino a Aton 1:1)

Aqui não há consenso: ninguém demonstrou dependência textual direta do texto de Amarna, suprimido pouco após Aquenáton, e a leitura mais cautelosa fala em comunhão de motivos dentro de um gênero difundido (o hino ao criador-sol), não em cópia. De toda forma, a linguagem com que Israel louvou seu Deus foi extraída do repertório poético da região. O Sl 82, por sua vez, encena um concílio divino em que Deus se levanta "na assembleia divina" e julga "no meio dos deuses", condenando-os a "morrer como homens": um quadro com paralelo claro na assembleia de El em Ugarit, que o salmo reorienta esvaziando por dentro a categoria das divindades das nações.

Salmos imprecatórios

Alguns salmos (Sl 137, 69, 109, e ainda 35, 58, 59, 79, 83) pedem em termos crus a desgraça dos inimigos: o Sl 137 deseja que os pequeninos da Babilônia sejam despedaçados contra a rocha, e o Sl 109 que os filhos do adversário fiquem órfãos e seu nome seja apagado. O Sl 137 ancora-se com firmeza no exílio babilônico do século 6 a.C., e a lógica de retribuição que o move não é peculiar a Israel: maldições gráficas formulares aparecem nos tratados de vassalagem assírios e em inscrições mesopotâmicas, parte do repertório jurídico-religioso comum da região. Esses textos geram tensão dentro do próprio cânon que também contém "amai os vossos inimigos" (Mt 5:44). A tradição cristã sempre os tratou com desconforto litúrgico, alegorizando os inimigos como vícios ou lendo a maldição como lamento entregue a Deus em vez de ação executada. Vale notar que, nesses salmos, o suplicante deposita a vingança no tribunal divino em lugar de a executar; ainda assim, a leitura que transforma a maldição em virtude e a que a reduz a mero defeito a ser apagado são ambas imposições do leitor sobre um texto que dá voz, sem rodeios, à dor e à sede de vingança de pessoas reais.

Salmos reais e a leitura messiânica

Os salmos reais (Sl 2, 18, 20, 21, 45, 72, 89, 110, 132, 144) são composições ligadas a momentos concretos da monarquia de Jerusalém: o Sl 2 é um salmo de entronização, o Sl 45 um cântico de núpcias reais, o Sl 72 uma oração pela justiça do reinado. A linguagem que soa divina ao leitor cristão, como "tu és meu filho, eu hoje te gerei" (Sl 2:7), pertence ao repertório da ideologia régia do Antigo Oriente, em que o monarca era declarado filho adotivo da divindade no dia da coroação, com eco interno na fórmula dinástica de 2 Sm 7:14. O sentido primário desses salmos é político e cúltico, não escatológico.

O Sl 110 é o caso paradigmático e o texto do Antigo Testamento mais citado no Novo (Mc 12:36, At 2:34-35, e toda a cristologia sacerdotal de Hebreus a partir do v. 4, "sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque"). No sentido histórico, o "meu senhor" convidado a sentar-se à direita de YHWH é o rei de Judá. Quem lê o uso cristão como apropriação criativa observa que o sentido messiânico foi produzido pela comunidade que releu o salmo depois do colapso da monarquia; quem o lê como trajetória interna nota que o salmo funde realeza e sacerdócio (separados na constituição de Judá) e que o Sl 110 já era lido messianicamente no judaísmo do Segundo Templo. O que a exegese do salmo, sozinha, não decide é se Jesus é aquele em quem a promessa se consuma; o que ela mostra é que a expectativa de uma figura real maior que qualquer monarca histórico já estava no texto.

Manuscritos e recepção

Os Salmos são o livro mais representado nos Manuscritos do Mar Morto, com pelo menos 36 cópias em Qumran. A mais importante é o rolo 11QPsa, da Caverna 11, datado do século 1 d.C., que preserva cerca de 50 composições: 41 salmos canônicos mais 8 textos poéticos ausentes do Texto Massorético, o que levanta a questão de uma forma alternativa do saltério no Segundo Templo. A ordem dos Livros I-III já é confirmada por manuscritos de Qumran de cerca de 150 a.C. A versão grega da Septuaginta apresenta numeração divergente: os Sl 9 e 10 hebraicos formam um único Salmo 9 na LXX, defasagem que persiste em Bíblias católicas e ortodoxas. Citados extensamente pelos autores neotestamentários e centrais na liturgia da sinagoga, os Salmos permanecem o livro do Antigo Testamento mais referenciado no Novo.