Salmos 15
A Psalm of David.
LORD
Na classificação de Hermann Gunkel, pioneiro da crítica das formas dos Salmos, o Salmo 15 é o exemplo mais claro de 'liturgia de entrada' (em alemão, Torliturgie): um diálogo ritual na porta do santuário. O peregrino pergunta quais são as condições para 'habitar' no espaço sagrado, e a resposta (vv.2-5) funciona como uma espécie de exame de admissão. O Salmo 24:3-6 tem a mesma estrutura de pergunta e resposta. O cenário provável (Sitz im Leben) seria a chegada do adorador ao templo de Jerusalém, com o sacerdote anunciando os requisitos de acesso. A hipótese é amplamente aceita, mas é reconstrução: o texto não descreve explicitamente esse cenário litúrgico.Os requisitos listados a seguir são notavelmente éticos, não rituais: não se exige sacrifício nem pureza cerimonial, mas conduta justa. Há um paralelo de fundo no Antigo Oriente: em templos egípcios e mesopotâmicos, declarações de pureza eram condição para entrar no recinto divino (compare a 'confissão negativa' do Livro dos Mortos egípcio, capítulo 125, em que o morto declara 'não matei, não roubei, não menti'). A diferença do Salmo 15 é que os critérios são quase todos relacionais e morais.
He that walketh uprightly, and worketh righteousness, and speaketh the truth in his heart.
A resposta à pergunta do v.1 é organizada em paralelismo, recurso central da poesia hebraica: três afirmações positivas aqui (anda com integridade, pratica a justiça, fala a verdade) seguidas, nos vv.3-5, de várias formulações negativas (não difama, não faz mal, não empresta com usura). A expressão 'fala a verdade no seu coração' indica sinceridade interior, não apenas externa. Os estudiosos costumam contar de dez a onze exigências éticas, sem consenso sobre o número exato, já que a divisão das frases é interpretativa.
He that
In whose eyes a vile person is contemned; but he honoureth them that fear the LORD . He that sweareth to his own hurt, and changeth not.
O verso é difícil de traduzir. A frase final, vertida na ACF como 'aquele que jura com dano seu, e contudo não muda', significa que a pessoa mantém um juramento mesmo quando cumpri-lo lhe traz prejuízo. Tomado ao pé da letra, o hebraico parece dizer 'jura para o mal', o que não faz sentido no contexto. Aqui a ACF segue o Texto Massorético; a Septuaginta grega (seguida pela Vulgata e pela Peshitta siríaca) leu as mesmas consoantes com outras vogais e traduziu algo como 'jura ao seu próximo e não a quebra'. Outros estudiosos, como Mitchell Dahood, propõem 'jura não fazer o mal'. Não há consenso.
He that
A proibição de emprestar dinheiro 'com usura' (juros) reflete a legislação da Torá, que vedava cobrar juros de um israelita pobre (Ex 22:25; Lv 25:36-37; Dt 23:19-20). No Antigo Oriente Próximo em geral o juro sobre empréstimos era comum e legalmente regulado (por exemplo, nos códigos mesopotâmicos); a restrição israelita era uma medida de proteção social dentro da comunidade, e Deuteronômio permitia cobrar juros do estrangeiro. 'Peitas' traduz a palavra para suborno, condenado também em Ex 23:8 e Dt 16:19.A promessa final, 'quem faz isto nunca será abalado', usa imagem de estabilidade que ecoa o vocabulário sapiencial do Salmo 1 (o justo como árvore firme). Encerra a liturgia com uma declaração de segurança para quem cumpre os requisitos éticos enunciados.