Capítulos

Anais - Livro IV
O poder de Sejano, as delações e o retiro de Tibério em Capri
Sobre a obra
Os Anais são a última obra de Públio Cornélio Tácito (c. 56 a c. 120 d.C.), senador e considerado o maior historiador de Roma. Escritos por volta de 116 d.C., cobrem o período de 14 a 68 d.C., da morte de Augusto à de Nero. Dos dezesseis livros originais sobrevivem I a VI e XI a XVI, e mesmo esses chegaram incompletos: o V ficou reduzido a um fragmento, falta o começo do XI e o XVI se interrompe no meio de uma frase.
Este é o Livro IV, que cobre os anos de 23 a 28 d.C. É o ponto em que Tácito declara que o reinado de Tibério muda de sinal: até ali o governo fora suportável, e a partir daquele ano a sorte se perturbou. O agente da mudança, na leitura dele, é Élio Sejano, prefeito da guarda pretoriana.
Sejano e a morte de Druso
A primeira medida de Sejano que Tácito registra é administrativa e decisiva: reunir num único acampamento as coortes pretorianas, até então dispersas pela cidade. Com isso a guarda passa a ser uma força concentrada, visível e sob comando de um só homem. Tácito também afirma que Sejano seduziu Lívila, mulher de Druso, o filho de Tibério.
Druso morre em 23 d.C. Tácito trata o envenenamento por Sejano e Lívila como fato, apoiado na denúncia que Apicata fez em 31 e nas confissões de Eudemo e Ligdo sob tortura. O que ele rejeita é apenas a versão ornamentada em que Tibério teria passado ao próprio filho a taça envenenada: essa ele considera inverossímil. Historiadores modernos são mais reservados quanto ao conjunto, porque as fontes são posteriores e hostis a Sejano, a denúncia de Apicata vem de uma esposa repudiada e feita depois da queda dele, e morte por doença não pode ser descartada.
As delações e o processo de Cremúcio Cordo
Boa parte do livro é ocupada por processos de lesa majestade. A lei, antiga, passa a alcançar palavras e escritos, e os acusadores recebem parte dos bens do condenado. O caso mais conhecido é o de Cremúcio Cordo, acusado em 25 d.C. por ter louvado Bruto em sua história e chamado Cássio de o último dos romanos. Ele se defende, deixa o Senado e se mata de fome; os livros são queimados por ordem oficial e, observa Tácito, cópias sobreviveram assim mesmo.
É também neste livro que Tácito interrompe a narrativa para falar do próprio ofício. Reconhece que seu assunto é estreito quando comparado ao dos historiadores da República: sem grandes guerras, restam ordens cruéis, acusações contínuas e amizades traídas. A digressão é uma das declarações de método mais citadas da historiografia antiga.
O pedido de casamento e o retiro em Capri
Sejano pede a Tibério a mão de Lívila, viúva de Druso. A resposta é um adiamento cortês, e Tácito a reproduz como peça de dissimulação. Recusado o casamento, Sejano passa a trabalhar para afastar o imperador de Roma, e ao mesmo tempo cerca Agripina, viúva de Germânico, e os filhos dela. Numa cena de jantar, avisada por intermediários de que poderia ser envenenada, Agripina recusa a fruta que Tibério lhe oferece.
Em 26 d.C. Tibério deixa Roma. Nunca mais volta. Instala-se por fim em Capri, ilha que Tácito descreve como acessível por um único desembarcadouro e cercada de mar profundo, condição ideal para um governo à distância. O efeito prático é que o acesso ao imperador passa a depender de quem controla a correspondência.
Fidenas e a rotina do medo
Dois episódios fecham o livro e mostram o alcance do relato de Tácito além da política de palácio. Em 27 d.C. desaba o anfiteatro de madeira construído em Fidenas, perto de Roma, com um número enorme de mortos e feridos. Os números antigos divergem: Tácito fala em cinquenta mil atingidos, Suetônio menciona vinte mil mortos, e nenhuma das cifras pode ser verificada.
O segundo é o processo de Tício Sabino, em 28 d.C., preparado com senadores escondidos entre o teto e o forro de uma casa para ouvir o que o acusado diria. Tácito conta o expediente com nome dos envolvidos. A cena resume o que ele quer que o leitor conclua sobre o funcionamento das delações.
Por que este livro importa
Este é o retrato interno do governo romano nos anos em que os evangelhos situam o ministério de Jesus na Galileia e a sua execução na Judeia. Tibério reinou de 14 a 37 d.C., e é a ele que Tácito remete no Livro XV ao dizer que Cristo foi executado por sentença de Pôncio Pilatos. O Livro IV não fala da Judeia, mas mostra como funcionavam o poder imperial, a lei de lesa majestade e o sistema de acusadores que davam a moldura jurídica desse mundo.