Anais - Livro IV 4
O poder de Sejano, as delações e o retiro de Tibério em Capri
Já os esmirniotas, recuando à antiguidade, alegavam que sua cidade fora fundada por Tântalo, filho de Júpiter, ou por Teseu, também de estirpe divina, ou por uma das Amazonas. Depois passaram àquilo em que mais confiavam: os serviços prestados ao povo romano, a quem haviam enviado forças navais não só para guerras externas, mas também para as que se travavam na Itália. Foram eles, diziam, os primeiros a erguer um templo à cidade de Roma, sob o consulado de Marco Pórcio Catão, quando o poder romano já era grande, mas ainda não elevado ao auge, pois a cidade púnica ainda estava de pé e havia reis poderosos pela Ásia. Invocavam também o testemunho de Lúcio Sula: quando seu exército estava em gravíssimo perigo por causa do rigor do inverno e da falta de roupas, e essa notícia chegou a Esmirna em assembleia pública, todos os que ali estavam tiraram as vestes do corpo e as enviaram às nossas legiões. Assim, consultados sobre seu parecer, os senadores deram preferência aos esmirniotas. Víbio Marso propôs que a Mânio Lépido, a quem coubera aquela província, fosse acrescentado, além do número regular, um delegado para assumir o cuidado do templo. E como o próprio Lépido, por modéstia, recusava-se a escolher, Valério Nasão, dentre os ex-pretores, foi designado por sorteio.
Nesse meio-tempo, após um plano longamente meditado e muitas vezes adiado, finalmente o César partiu para a Campânia, sob o pretexto de dedicar templos a Júpiter em Cápua e a Augusto em Nola, mas resolvido a viver longe da cidade. Quanto à causa de seu afastamento, embora, seguindo a maioria dos autores, eu a tenha atribuído às artimanhas de Sejano, como, no entanto, mesmo depois de consumada a morte deste, ele passou seis anos no mesmo isolamento, muitas vezes me inclino a pensar que seja mais verdadeiro atribuí-la a ele próprio: ocultava nos lugares a crueldade e a luxúria que revelava nas ações. Havia quem acreditasse que, na velhice, também o aspecto do corpo lhe causava vergonha: tinha, de fato, uma estatura excessivamente magra e curvada, o topo da cabeça calvo, o rosto cheio de chagas e quase sempre coberto de emplastros. Em seu retiro em Rodes, acostumara-se a evitar a convivência e a esconder seus prazeres. Conta-se também que ele foi expulso pela arrogância da mãe, a quem repudiava como sócia do poder, mas não conseguia afastar, pois recebera o próprio poder como dádiva dela. Pois Augusto hesitara em pôr à frente do Estado romano Germânico, neto de sua irmã e elogiado por todos, mas, vencido pelas súplicas da esposa, fez Tibério adotar Germânico e adotou Tibério para si. Era isso que Augusta censurava e reclamava de volta.
A partida foi feita com pequeno séquito: um único senador, ex-cônsul, Cocceio Nerva, perito nas leis; um cavaleiro romano, além de Sejano, dentre os homens ilustres, Cúrcio Ático; os demais, dotados de cultura liberal, na maioria gregos, com cujas conversas ele se distraía. Diziam os entendidos dos astros que Tibério deixara Roma sob movimentos das estrelas tais que lhe negavam o retorno. Daí veio a ruína de muitos, que conjecturavam e propalavam o fim próximo de sua vida, pois não previam o caso tão improvável de que ele, de boa vontade, ficasse longe da pátria por onze anos. Logo se viu quão estreito é o limite entre a ciência e a falsidade, e em quanta obscuridade se ocultam as verdades. Pois não foi dito ao acaso que ele não voltaria à cidade: quanto ao resto, eles ficaram na ignorância, pois ele completou a extrema velhice no campo vizinho ou no litoral, muitas vezes acampado junto às próprias muralhas da cidade.
E aconteceu que, por esses dias, um perigo iminente que se ofereceu ao César aumentou a falsidade do rumor e deu a ele próprio motivo para confiar mais na amizade e na constância de Sejano. Comiam numa vila chamada Espelunca, entre o mar de Amicla e os montes de Fundos, numa gruta natural. A entrada dela, desabando de repente as rochas, soterrou alguns servos: daí o pavor de todos e a fuga dos que celebravam o banquete. Sejano, suspenso com os joelhos, o rosto e as mãos sobre o César, fez-se de escudo contra as pedras que caíam, e foi encontrado nessa posição pelos soldados que tinham vindo em socorro. A partir disso ficou ainda maior e, ainda que aconselhasse coisas funestas, era ouvido com confiança, como quem não se preocupava consigo mesmo. Assumia o papel de juiz contra a estirpe de Germânico, valendo-se de pessoas postas a sustentar o nome de acusadores e a perseguir sobretudo Nero, o mais próximo da sucessão e que, embora de juventude modesta, muitas vezes esquecia o que convinha ao momento presente, enquanto era instigado por libertos e clientes, ávidos por alcançar o poder, a se mostrar firme e confiante de ânimo: isso é o que o povo romano queria, o que os exércitos desejavam, e Sejano não ousaria opor-se, ele que agora insultava igualmente a paciência do velho e a indolência do jovem.
Quem ouvia tais coisas e outras semelhantes não tinha, é verdade, nenhum pensamento perverso, mas às vezes escapavam-lhe palavras teimosas e imprudentes, que os guardas postos a seu lado captavam, ampliavam e relatavam. E como a Nero não se dava chance de defesa, surgiam ainda outras formas de aflição. Pois um evitava encontrar-se com ele; outro, devolvida a saudação, logo lhe dava as costas; muitos interrompiam a conversa começada, enquanto os partidários de Sejano insistiam diante dele e zombavam. E Tibério, de fato, ou tinha o semblante carrancudo ou sorria falsamente: falasse o jovem ou se calasse, o silêncio era crime, a fala também. Nem mesmo a noite era segura, pois a esposa revelava à mãe, Lívia, as vigílias, os sonos, os suspiros, e ela os revelava a Sejano. Este atraiu também para o seu partido Druso, irmão de Nero, oferecendo-lhe a esperança do lugar de príncipe, se afastasse o que era mais velho em idade e já abalado. A índole feroz de Druso, além da cobiça de poder e dos costumeiros ódios entre irmãos, era inflamada pela inveja, porque a mãe, Agripina, era mais inclinada a Nero. E, contudo, Sejano não favorecia Druso a ponto de não meditar também contra ele as sementes de sua futura ruína, sabendo-o demasiado feroz e mais exposto às ciladas.
No fim do ano morreram homens notáveis: Asínio Agripa, de antepassados ilustres mais que antigos, e cuja vida não degenerou deles, e Quinto Hatério, de família senatorial, de eloquência celebrada enquanto viveu, embora os monumentos de seu talento não sejam tão preservados. É que ele se destacava mais pelo ímpeto do que pelo apuro; e, assim como a reflexão e o trabalho dos outros ganham força para o futuro, assim aquela fluência sonora de Hatério extinguiu-se junto com ele.
Sob o consulado de Marco Licínio e Lúcio Calpúrnio, um mal imprevisto igualou o estrago de grandes guerras: seu início e seu fim surgiram ao mesmo tempo. Pois, tendo um certo Atílio, de condição de liberto, começado a construir um anfiteatro em Fidena para realizar um espetáculo de gladiadores, não assentou as fundações em solo firme nem ergueu a estrutura de madeira com junturas sólidas, como quem buscara aquele empreendimento não por abundância de dinheiro nem por ambição municipal, mas por sórdido lucro. Afluíram os ávidos de tais coisas, privados de prazeres sob o reinado de Tibério: homens e mulheres, gente de toda idade, em maior número pela proximidade do lugar. Daí foi mais grave a desgraça, com a massa amontoada e depois despedaçada, quando ela ruiu para dentro ou se derramou para fora, arrastando e soterrando de cabeça uma imensa multidão de pessoas, atentas ao espetáculo ou paradas ao redor. E aqueles que o início do desabamento lançou à morte escaparam, dada tal sorte, do tormento. Mais dignos de compaixão eram os que, arrancada parte do corpo, ainda não tinham sido abandonados pela vida: de dia, pela visão; de noite, pelos uivos e gemidos, reconheciam os cônjuges ou os filhos. Já outros, atraídos pela notícia, lamentavam, este o irmão, aquele um parente, outro os pais. Mesmo aqueles cujos amigos ou parentes estavam ausentes por motivo diverso temiam, contudo; e, antes de se saber a quem aquela força havia atingido, mais ampla era a angústia por causa da incerteza.
Quando começaram a remover os escombros, houve uma corrida aos cadáveres, com gente abraçando-os e beijando-os; e muitas vezes surgia uma disputa, se um rosto desfigurado, mas de igual forma ou idade, induzia ao erro os que tentavam reconhecer. Cinquenta mil pessoas ficaram mutiladas ou esmagadas nesse desastre. Providenciou-se, por decreto do senado, que para o futuro ninguém oferecesse espetáculo de gladiadores cujo patrimônio fosse menor que quatrocentos mil sestércios, nem se erguesse anfiteatro a não ser sobre solo de firmeza comprovada. Atílio foi enviado ao exílio. Aliás, logo após o recente desastre, as casas dos nobres se abriram, remédios e médicos foram fornecidos por toda parte, e a cidade, naqueles dias, embora de aspecto triste, assemelhava-se aos costumes dos antigos, que, depois de grandes batalhas, socorriam os feridos com largueza e cuidado.
Ainda não se desvanecera aquele desastre quando a violência do fogo afetou a cidade além do habitual, reduzindo a cinzas o monte Célio. Diziam que o ano era funesto e que o plano de ausência fora adotado pelo príncipe sob maus presságios, segundo o costume do vulgo de atribuir à culpa o que é fortuito. Mas o César saiu ao encontro disso, distribuindo dinheiro na medida do prejuízo. Por isso lhe foram prestados agradecimentos no senado pelos homens ilustres, e teve boa fama junto ao povo, porque sem ostentação ou súplicas dos próximos socorrera com sua munificência até desconhecidos, por iniciativa própria buscados. Acrescentaram-se propostas para que o monte Célio fosse, para o futuro, chamado Augusto, já que, ardendo tudo ao redor, só a estátua de Tibério, posta na casa do senador Júnio, permanecera intacta. Isso, diziam, acontecera antigamente a Cláudia Quinta, e os antepassados haviam consagrado sua estátua, duas vezes escapada da força das chamas, junto ao templo da Mãe dos Deuses. Os Cláudios eram santos e aceitos pelas divindades, e dever-se-ia aumentar a cerimônia no lugar em que os deuses mostraram tamanha honra ao príncipe.
Não seria descabido relatar que aquele monte foi, na antiguidade, chamado Querquetulano, porque era cheio e fértil de tal espécie de floresta, e depois passou a ser chamado Célio, por causa de Céles Vibena, que, chefe do povo etrusco, ao trazer auxílio recebera aquela sede de Tarquínio Prisco, ou algum outro dos reis a concedeu: pois os escritores divergem nesse ponto. O resto não é duvidoso: que essas numerosas tropas habitaram também a planície e as imediações do foro, donde o bairro Tusco recebeu o nome em razão dos forasteiros.
Mas, assim como o zelo dos nobres e a generosidade do príncipe haviam trazido consolo contra as desgraças, assim a força dos acusadores, maior e mais hostil a cada dia, alastrava-se sem alívio. Domício Afro, que condenara Cláudia Pulcra, mãe dele, atacou Varo Quintílio, homem rico e parente do César, sem que ninguém se admirasse de que, depois de muito tempo necessitado e de mal ter usado o prêmio recém-obtido, ele se preparasse para crimes ainda maiores. Que Públio Dolabela se tivesse feito sócio da delação causava espanto, pois, sendo de antepassados ilustres e ligado a Varo, ele próprio ia destruindo a própria nobreza, o próprio sangue. O senado, no entanto, resistiu e decidiu que se devia esperar o imperador, o único refúgio que então havia, por algum tempo, contra os males iminentes.
Já o César, dedicados os templos pela Campânia, embora tivesse advertido por edito que ninguém perturbasse seu repouso e que as aglomerações dos habitantes fossem impedidas por soldados postados, detestando, contudo, os municípios e as colônias e tudo o que ficava no continente, escondeu-se na ilha de Cápreas, separada por um estreito de três milhas da extremidade do promontório de Surrento. Creio que lhe agradou sobretudo a solidão do lugar, pois o mar ao redor não tem portos e mal oferece poucos abrigos para embarcações modestas; e ninguém ali aportava sem o conhecimento de um guarda. O clima, no inverno, é ameno, pela proteção de um monte que afasta a fúria dos ventos; o verão, voltado para o favônio e cercado de mar aberto, é deliciosíssimo; e dava vista para a baía belíssima, antes que o monte Vesúvio, incendiando-se, mudasse a feição do lugar. A tradição conta que os gregos ocuparam essas terras e que Cápreas foi habitada pelos Teléboas. Mas então Tibério se instalara em doze vilas, com seus nomes e suas construções, e, tão atento antes aos cuidados públicos, tanto mais se entregava, em segredo, aos prazeres e ao ócio nocivo. Pois persistia nele a precipitação de suspeitar e de crer, que Sejano costumava aumentar até na cidade, e que aqui agitava com mais virulência, já não ocultando as ciladas contra Agripina e Nero. Os soldados a eles acrescentados relatavam, como se em anais, mensagens, visitas, atos públicos e secretos; e, ainda por cima, urdiam-se pessoas que os aconselhavam a fugir para os exércitos da Germânia ou, no ponto mais movimentado do foro, abraçar a estátua do divino Augusto e chamar em auxílio o povo e o senado. E essas coisas, desprezadas por eles, eram lançadas contra eles como se as preparassem.
Sob o consulado de Júnio Silano e Sílio Nerva, o início do ano foi torpe, com o ilustre cavaleiro romano Tício Sabino arrastado para o cárcere por causa de sua amizade com Germânico. Pois ele não deixara de honrar a esposa e os filhos deste, frequentador da casa, companheiro em público, único restante de tantos clientes, e por isso louvado pelos bons e pesado para os injustos. Atacam-no Latínio Latiar, Pórcio Catão, Petílio Rufo e Marco Ópsio, ex-pretores, por cobiça do consulado, ao qual não havia acesso senão por meio de Sejano, e a boa vontade de Sejano só se conseguia com um crime. Combinou-se entre eles que Latiar, que tinha trato modesto com Sabino, armasse a cilada, que os demais estivessem presentes como testemunhas e que depois iniciassem a acusação. Assim, Latiar primeiro soltou conversas casuais, depois passou a elogiar a constância de Sabino, por não ter, como os outros, abandonado, abatida, a casa de que fora amigo na prosperidade; ao mesmo tempo falava com honra de Germânico, compadecido de Agripina. E depois que Sabino, como são frágeis os ânimos humanos na desgraça, derramou lágrimas, juntou queixas e, já mais ousado, carregava contra Sejano, sua crueldade, sua soberba, suas pretensões; nem mesmo de Tibério se abstinha em suas censuras. E essas conversas, como se tivessem partilhado coisas proibidas, criaram a aparência de íntima amizade. E já, por iniciativa própria, Sabino procurava Latiar, ia com frequência à sua casa e lhe confiava suas dores como ao mais fiel dos amigos.
Deliberam os que mencionei sobre de que modo essas conversas poderiam ser ouvidas por mais pessoas. Pois o lugar em que se reuniam devia conservar a aparência de solidão; e, se ficassem postados atrás das portas, havia o medo de serem vistos, de ruídos ou de uma suspeita que porventura surgisse. Três senadores se esconderam entre o teto e o forro, em esconderijo tão vergonhoso quanto detestável a fraude, e aproximaram os ouvidos de fendas e frestas. Nisso, Latiar, tendo encontrado Sabino em público, como que para narrar coisas recém-sabidas, leva-o para casa e para o quarto, e acumula coisas passadas e iminentes, de que havia abundância, e novos terrores. O outro disse as mesmas coisas e por mais tempo, pois, quanto mais tristes, uma vez irrompidas, tanto mais difícil se calam. Daí a acusação apressada, e, enviadas cartas ao César, relataram a ordem da fraude e a própria infâmia. Nunca a cidade esteve mais ansiosa e amedrontada, ocultando-se até diante dos mais próximos: evitavam-se encontros, conversas, ouvidos conhecidos e desconhecidos; até as coisas mudas e inanimadas, o teto e as paredes, eram olhadas com receio.
Mas o César, nas calendas de janeiro, fazendo por carta os votos solenes do início do ano, voltou-se contra Sabino, acusando-o de ter corrompido alguns de seus libertos e de ter atentado contra ele, e exigia vingança em termos nada obscuros. Não houve demora em decretá-la; e o condenado era arrastado, lutando o quanto podia, com a veste posta sobre a cabeça e a garganta apertada, gritando que assim se inaugurava o ano, que essas vítimas tombavam para Sejano. Para onde quer que dirigisse os olhos, para onde quer que caíssem suas palavras, havia fuga e vazio: abandonavam-se as ruas e os foros. E alguns voltavam atrás e tornavam a se mostrar, justamente temendo aquilo mesmo que haviam temido. Pois que dia, perguntavam, estaria livre de castigo, se entre os ritos e os votos, num tempo em que era costume abster-se até de palavras profanas, se introduziam cadeias e laço? Não fora por imprudência que Tibério incorrera em tamanho ódio: era coisa buscada e premeditada, para que não se cresse haver impedimento a que os novos magistrados, assim como abrem os santuários e os altares, também abrissem o cárcere. Seguiu-se ainda uma carta agradecendo por terem punido um homem hostil à república, acrescentando que sua vida era trêmula, que suspeitava de ciladas dos inimigos, sem mencionar ninguém pelo nome; não se duvidava, contudo, de que se mirava em Nero e Agripina.
Se não tivesse decidido referir cada coisa ao seu ano, meu ânimo desejava antecipar-se e relatar logo o fim que tiveram Latínio, Ópsio e os demais autores daquele crime, não só depois que Caio César assumiu o poder, mas ainda com Tibério vivo: este, embora não quisesse que os instrumentos de seus crimes fossem destruídos por outros, muitas vezes, saciado, e oferecendo-se novos para o mesmo serviço, abateu os velhos e demasiado pesados. Mas relataremos a seu tempo estas e outras penas dos culpados. Então Asínio Galo, de cujos filhos Agripina era tia materna, propôs que se pedisse ao príncipe que revelasse seus temores ao senado e permitisse afastá-los. De nenhuma de suas virtudes, como julgava, Tibério gostava tanto quanto da dissimulação: por isso recebeu com mais desgosto que se descobrisse o que ele ocultava. Mas Sejano o acalmou, não por amor a Galo, e sim para aguardar as hesitações do príncipe, sabendo-o lento em deliberar e que, uma vez irrompido, juntava atos atrozes a palavras tristes. Por essa mesma época, Júlia morreu, neta que Augusto, convicta de adultério, condenara e lançara na ilha de Trímero, não longe das praias da Apúlia. Ali suportou vinte anos de exílio, sustentada pelo auxílio de Augusta, que, depois de derrubar em segredo os enteados em prosperidade, ostentava em público sua misericórdia para com os abatidos.
No mesmo ano, os frísios, povo de além do Reno, despojaram-se da paz, mais pela nossa ganância do que por impaciência de obedecer. Druso lhes impusera um tributo moderado, conforme a estreiteza de seus recursos: que pagassem couros de boi para uso militar, sem que ninguém tivesse cuidado de qual a firmeza, qual a medida, até que Olênio, dentre os primipilares, posto a governar os frísios, escolheu peles de uros, segundo cuja forma deviam ser recebidos os couros. Isso, árduo também para outras nações, era mais difícil de suportar entre os germanos, cujas matas são férteis de bestas enormes, mas cujos rebanhos domésticos são pequenos. E primeiro entregavam à servidão os próprios bois, depois os campos, por fim os corpos das esposas ou dos filhos. Daí a ira e as queixas, e, como não eram socorridos, o remédio veio da guerra. Foram capturados os soldados que estavam ali para o tributo e pregados em forcas. Olênio se antecipou aos enfurecidos pela fuga, refugiado num forte chamado Flevo; e ali uma força nada desprezível de cidadãos e aliados guardava o litoral do Oceano.
Quando isso foi sabido por Lúcio Aprônio, propretor da Germânia Inferior, ele convocou destacamentos das legiões da província superior e infantes e cavaleiros auxiliares escolhidos, e, levando ambos os exércitos Reno abaixo, lançou-os de uma vez sobre os frísios, já levantado o cerco do forte e tendo os rebeldes se retirado para defender suas próprias terras. Então fortalece os estuários mais próximos com diques e pontes, para fazer passar a tropa mais pesada, e, entretanto, achados vaus, ordena a uma ala de caninefates e ao corpo de infantes germanos que servia entre os nossos rodear as costas dos inimigos, que, já dispostos em linha, repeliam os esquadrões aliados e os cavaleiros das legiões enviados em socorro. Então três coortes ligeiras, e em seguida mais duas, e, decorrido algum tempo, a cavalaria auxiliar foram lançadas: bastante fortes se atacassem juntas, mas, chegando a intervalos, não deram firmeza aos perturbados e foram arrastadas no pânico dos que fugiam. A Cetego Labeão, legado da quinta legião, ele entrega o que restava dos auxiliares. E este, posto em risco pela situação incerta dos seus, enviando mensageiros, implorava a força das legiões. Os da quinta legião irrompem à frente dos outros e, em combate renhido, repelido o inimigo, recolhem as coortes e as alas exaustas de feridas. Mas o general romano não foi vingar-se nem sepultou os corpos, embora muitos tribunos, prefeitos e centuriões notáveis tivessem caído. Logo se soube, por desertores, que novecentos romanos foram exterminados junto a um bosque a que chamam de Baduena, prolongada a luta até o dia seguinte, e que outro grupo de quatrocentos, ocupada a vila de um certo Cruptórix, antigo soldado a nosso soldo, depois que se temeu a traição, tombou por golpes mútuos.
Daí o nome frísio ficou célebre entre os germanos, dissimulando Tibério as perdas para não confiar a ninguém aquela guerra. Nem o senado se importava se as extremidades do império eram desonradas: o pavor interno ocupara os ânimos, para o qual se buscava remédio na adulação. Assim, embora fossem consultados sobre assuntos diversos, decretaram um altar à clemência, um altar à amizade e estátuas do César e de Sejano ao redor, e com repetidas súplicas imploravam que lhes dessem a oportunidade de vê-los. Eles, contudo, não desceram à cidade nem às suas imediações: pareceu-lhes bastante deixar a ilha e mostrar-se na Campânia vizinha. Para lá vinham os senadores, os cavaleiros, grande parte da plebe, ansiosos quanto a Sejano, cujo encontro era mais difícil e por isso preparado por intriga e por participação em seus planos. Era sabido que sua arrogância havia aumentado ao contemplar aquela torpe servidão exibida em público; pois em Roma, habituados ao corre-corre e dada a grandeza da cidade, não se sabe ao certo a que negócio cada um se dirige; mas ali, deitados no campo ou no litoral, sem distinção noite e dia suportavam o favor ou o desdém dos porteiros, até que também isso lhes foi vedado. E voltaram à cidade aterrorizados aqueles a quem ele não dignara de conversa nem de olhar, e alguns, mal contentes, sobre os quais pairava o grave fim daquela funesta amizade.
Aliás, Tibério, tendo entregado em pessoa a neta Agripina, filha de Germânico, a Cneu Domício, ordenou que as núpcias se celebrassem na cidade. Em Domício escolhera, além da antiguidade da linhagem, o sangue aparentado aos Césares; pois ele se prevalecia de ter por avó Octávia e, por meio dela, Augusto como tio-avô.