Anais - Livro IV 3

O poder de Sejano, as delações e o retiro de Tibério em Capri

"Quanto a mim, senadores, declaro a vós, e quero que a posteridade o recorde, que sou mortal e cumpro apenas os deveres dos homens, satisfeito se preencho de modo digno o lugar mais alto. Bastará, e até de sobra, ao culto da minha memória que os pósteros me creiam digno dos meus antepassados, atento aos vossos interesses, firme nos perigos, sem temor das inimizades quando o bem público o exigia. Estes são, no íntimo de vossos corações, os templos que tenho, estas as imagens mais belas e duradouras. Pois as que se erguem em pedra, se o juízo dos pósteros se converte em ódio, são desprezadas como meros sepulcros. Por isso suplico aos aliados, aos cidadãos e aos próprios deuses: a estes, que me concedam até o fim da vida uma mente serena e capaz de discernir o que é direito humano e divino; àqueles, que, quando eu partir, acompanhem meus feitos e a fama do meu nome com louvor e boa lembrança." E daí em diante, mesmo em conversas privadas, ele continuou a rejeitar tal culto à sua pessoa. Alguns interpretavam isso como modéstia, muitos como desconfiança de si, e alguns como sinal de espírito mesquinho. Diziam que os melhores entre os mortais aspiram ao mais alto: assim Hércules e Líber entre os gregos, e Quirino entre os romanos, foram acrescentados ao número dos deuses; e Augusto fez melhor, porque chegou a esperá-lo. As demais coisas estão prontamente ao alcance dos príncipes; uma devem buscar sem saciedade, a memória próspera de si mesmos, pois quem despreza a fama despreza as virtudes.
Sejano, entretanto, atordoado pela fortuna excessiva e ainda inflamado por uma paixão de mulher, com Lívia exigindo o casamento prometido, redigiu um memorial a César. Era então costume dirigir-se a ele por escrito, mesmo quando estava presente. O teor era este: a bondade de Augusto, o pai, e depois os muitos testemunhos favoráveis de Tibério, o fizeram habituar-se a confiar suas esperanças e desejos aos ouvidos dos príncipes tão prontamente quanto aos dos deuses. Nunca pedira o brilho das altas honras; preferira as vigílias e os esforços, como um soldado comum, pela segurança do imperador. E, no entanto, alcançara o que havia de mais glorioso: ser tido por digno de uma união com a casa dos Césares. Daí nascera o início de sua esperança. E, como ouvira que Augusto, ao casar a filha, chegara a considerar até cavaleiros romanos, então, se um marido fosse buscado para Lívia, que tivesse em mente um amigo que tiraria daquela ligação a glória do parentesco. Pois não pretendia abandonar os deveres que lhe haviam sido impostos; bastava-lhe ver a sua casa firmada contra os ressentimentos injustos de Agripina, e isso por causa dos filhos; quanto a si, ser-lhe-ia vida bastante, e mais que bastante, a que completasse sob tal príncipe.
Em resposta, Tibério, depois de louvar a lealdade de Sejano e de recordar com moderação os benefícios que lhe concedera, pediu tempo como que para uma deliberação imparcial, acrescentando: para os demais mortais, os planos firmam-se naquilo que julgam ser do seu proveito; diferente é a sorte dos príncipes, que devem dirigir seus principais atos pela opinião pública. "Por isso", disse ele, "não recorro à resposta fácil de que a própria Lívia pode decidir se, depois de Druso, deve casar de novo ou suportar a vida no mesmo lar, e que tem na mãe e na avó conselheiras mais próximas. Falarei com mais franqueza. Primeiro, quanto às inimizades de Agripina: elas arderão muito mais ferozmente se o casamento de Lívia rasgar a casa dos Césares, por assim dizer, em dois partidos. Mesmo assim irrompe a rivalidade entre as mulheres, e por essa discórdia os meus netos são despedaçados. Que será, então, se um tal casamento intensificar a disputa? Pois enganas-te, Sejano, se pensas que permanecerás na mesma posição, e que Lívia, que foi esposa de Caio César e depois de Druso, terá a disposição de envelhecer ao lado de um simples cavaleiro romano. Ainda que eu o permitisse, crês que o tolerariam aqueles que viram o irmão dela, o pai e os nossos antepassados nos mais altos comandos? Tu, na verdade, queres conter-te dentro do teu lugar; mas aqueles magistrados e nobres que te procuram contra a tua vontade e te consultam sobre tudo declaram abertamente que muito ultrapassaste o nível equestre e foste muito além das amizades do meu pai, e por inveja de ti acusam também a mim. Mas, dizes tu, Augusto cogitou entregar a filha a um cavaleiro romano. Que admiração, por Hércules, se, dividido entre tantas preocupações e prevendo a imensa elevação a que um homem seria alçado acima dos outros por tal aliança, ele mencionou em conversas Caio Proculeio e alguns outros de vida notavelmente tranquila, sem nenhum envolvimento nos negócios do Estado? Mas, se nos move a hesitação de Augusto, quanto mais forte é o fato de que ele a deu em casamento a Marco Agripa e depois a mim? Tudo isso, como amigo, não te ocultei; quanto ao resto, não me oporei nem aos teus planos nem aos de Lívia. O que tenho revolvido no íntimo, e com que outros laços ainda penso unir-te a mim, deixarei de referir por ora; isto apenas revelarei: nada tão elevado que essas tuas virtudes e a tua dedicação a mim não mereçam, e, chegada a ocasião, seja no senado, seja na assembleia, não me calarei."
Sejano, não pensando no casamento mas temendo coisa mais profunda, procurou afastar os murmúrios das suspeitas, o boato do povo e a inveja que se acumulava. E para não enfraquecer seu poder ao barrar as multidões assíduas em sua casa, nem dar oportunidade aos acusadores ao recebê-las, voltou-se para isto: induzir Tibério a passar a vida em lugares aprazíveis, longe de Roma. Previa muitas vantagens: os acessos estariam em sua mão, e ele seria, em grande parte, o árbitro da correspondência, que passaria pelos soldados; depois, César, inclinado para a velhice e amolecido pela reclusão do lugar, lhe transferiria com mais facilidade as funções do poder; e, retirada a turba dos que vinham saudá-lo, diminuiria a inveja contra ele, e, suprimidas as aparências vazias, cresceria o poder verdadeiro. Por isso, aos poucos, censurava os negócios da cidade, a afluência do povo, a multidão dos que acorriam, e exaltava com louvores o sossego e a solidão, onde estavam ausentes os aborrecimentos e os atritos, e onde se podiam tratar sobretudo as questões mais importantes.
Aconteceu que, por aqueles dias, o julgamento de Votieno Montano, homem de talento famoso, levou Tibério, que hesitava, a crer que devia evitar as reuniões do senado e as vozes que, na maioria das vezes verdadeiras e graves, lhe eram lançadas em rosto. Pois, acusado Votieno por ofensas ditas contra César, a testemunha Emílio, homem de carreira militar, no afã de provar tudo, repetiu cada coisa e, embora entre os que protestavam se esforçasse com grande veemência, Tibério ouviu os insultos com que era dilacerado em segredo, e ficou tão abalado que gritava que se justificaria, ou de imediato ou no julgamento, e a custo recompôs o ânimo com as súplicas dos próximos e a adulação de todos. Votieno, por sua vez, foi punido com as penas por crime de lesa-majestade; e César, abraçando com mais teimosia ainda a severidade contra os réus de que o haviam censurado, puniu com o exílio Aquília, denunciada por adultério com Vário Lígure, embora Lêntulo Getúlico, cônsul designado, tivesse proposto condená-la pela lei Júlia, e riscou da lista dos senadores a Apídio Mérula, por não ter jurado obediência aos atos do divino Augusto.
Em seguida, foram ouvidas as embaixadas dos lacedemônios e dos messênios sobre o direito ao templo de Diana Limnátide. Os lacedemônios sustentavam que fora dedicado por seus antepassados e em sua terra, apoiando-se na memória dos anais e nos cantos dos poetas, mas que lhes fora tomado pelas armas de Filipe da Macedônia, com quem haviam guerreado, e depois devolvido por decisão de Caio César e Marco Antônio. Os messênios, por outro lado, alegavam a antiga divisão do Peloponeso entre os descendentes de Hércules, na qual o território de Dentélias, onde estava aquele santuário, coubera ao seu rei; e diziam que os registros desse fato ainda permaneciam esculpidos em pedra e em bronze antigo. Se fossem chamados a apresentar o testemunho dos poetas e dos anais, tinham-no em maior número e mais fidedigno; e Filipe não decidira por poder, mas conforme a verdade; o mesmo juízo fizera o rei Antígono, o mesmo o general Múmio; assim também os mileses, a quem se confiara publicamente a arbitragem, e, por fim, o pretor da Acaia, Atídio Gêmino, decretara. E assim a causa foi dada a favor dos messênios. Os segestanos, por sua vez, pediram que se restaurasse o templo de Vênus no monte Érix, arruinado pela vetustez, recordando coisas conhecidas sobre a sua origem e que agradavam a Tibério. Ele assumiu a tarefa de bom grado, como parente da deusa. Em seguida, foram tratadas as súplicas dos massilienses e aprovado o precedente de Públio Rutílio; pois, expulso pelas leis, os habitantes de Esmirna o haviam acolhido como cidadão. Por esse mesmo direito, Vulcácio Mosco, exilado, foi recebido entre os massilienses, e deixara seus bens à comunidade deles e à sua pátria.
Morreram naquele ano homens de nobre estirpe, Cneu Lêntulo e Lúcio Domício. A Lêntulo, além do consulado e das honras triunfais sobre os getas, fora glória ter suportado bem a pobreza, e depois ter alcançado grandes riquezas, adquiridas sem culpa e desfrutadas com moderação. A Domício deu lustre o pai, que na guerra civil dominou o mar, até unir-se ao partido de Antônio e depois ao de César; o avô caíra na batalha de Farsália, lutando pelos aristocratas. Ele próprio foi escolhido para receber em casamento a mais jovem Antônia, filha de Otávia, e depois conduziu um exército através do rio Elba, penetrando na Germânia mais longe que qualquer um dos anteriores, e por esses feitos obteve as insígnias do triunfo. Morreu também Lúcio Antônio, de família de muito renome mas infeliz; pois, tendo o pai dele, Iulo Antônio, sido punido com a morte por adultério com Júlia, Augusto afastou este, ainda jovenzinho e neto de sua irmã, para a cidade de Massília, onde, sob a aparência de estudos, o nome do exílio fosse encoberto. Ainda assim, prestaram-lhe honras fúnebres, e seus ossos foram depositados no túmulo dos Otávios por decreto do senado.
Sob os mesmos cônsules, um crime atroz foi cometido na Hispânia Citerior por um certo camponês da nação dos termestinos. Ele atacou de surpresa, em viagem, o pretor da província, Lúcio Pisão, despreocupado em tempo de paz, e o feriu de morte com um golpe; e, fugindo na rapidez do cavalo, depois de alcançar lugares cheios de bosques, soltou o cavalo e, por entre precipícios e ermos, frustrou os perseguidores. Mas não escapou por muito tempo: pois, capturado e levado pelas aldeias vizinhas o cavalo, ficou conhecido de quem era. E, encontrado, quando o forçavam pela tortura a revelar os cúmplices, gritou em alta voz, na língua pátria, que em vão o interrogavam: que seus companheiros assistissem e olhassem; nenhuma força da dor seria tão grande que arrancasse dele a verdade. E quando, no dia seguinte, era arrastado de novo ao interrogatório, com tal ímpeto se desvencilhou dos guardas e atirou a cabeça contra uma pedra que morreu na hora. Mas tem-se por certo que Pisão foi morto por traição dos termestinos; pois cobrava o dinheiro desviado do erário público com mais rigor do que os bárbaros suportavam.
Sendo cônsules Lêntulo Getúlico e Caio Calvísio, foram decretadas as insígnias do triunfo a Popeu Sabino, por ter esmagado tribos da Trácia, que, habitando os cumes incultos das montanhas, eram por isso mais ferozes. A causa do levante, além do natural daquela gente, era que se recusavam a aceitar os recrutamentos e a entregar os mais robustos ao serviço de nossas armas, não estando acostumados a obedecer nem mesmo aos seus reis senão por capricho, ou, se enviavam tropas auxiliares, a colocá-las sob seus próprios chefes e a guerrear contra os vizinhos. E então se espalhara o boato de que seriam dispersados e, misturados a outras nações, arrastados para terras distantes. Mas, antes de pegar em armas, mandaram embaixadores para recordar sua amizade e obediência, que perdurariam se não fossem provocados por nenhum encargo novo; mas se, como a vencidos, lhes fosse imposta a servidão, tinham ferro, juventude e ânimo pronto para a liberdade ou para a morte. Ao mesmo tempo, mostravam os fortes encravados nos rochedos e os pais e esposas ali reunidos, e ameaçavam com uma guerra difícil, árdua e sangrenta.
Sabino, enquanto reunia o exército num ponto, deu respostas brandas; mas, depois que chegaram Pompônio Labeão, da Mésia, com uma legião, e o rei Remetalces, com tropas auxiliares de seus compatriotas que não haviam mudado de fidelidade, com a força que ali tinha avançou contra o inimigo, posicionado nas gargantas dos desfiladeiros. Alguns, mais ousados, mostravam-se nas colinas abertas; o general romano, atacando-os em ordem de batalha, repeliu-os sem grande esforço, com pouco sangue dos bárbaros, por causa dos refúgios próximos. Em seguida, depois de fortificar o acampamento no local, ocupou com forte destacamento um monte estreito e de crista contínua até a fortaleza vizinha, que uma grande tropa armada, ou desordenada, protegia. Ao mesmo tempo, contra os mais ferozes, que diante da paliçada, ao modo do seu povo, saltavam com cantos e danças, enviou arqueiros escolhidos. Estes, enquanto atacavam à distância, infligiram muitas feridas sem represália; mas, avançando mais de perto, foram desbaratados por uma súbita investida e recolhidos com o apoio da coorte dos sugambros, que o romano havia disposto não longe dali, pronta para os perigos e não menos terrível pelo tumulto dos cantos e das armas.
Em seguida, o acampamento foi transferido para junto do inimigo, deixando nas fortificações anteriores os trácios que, como mencionei, estavam conosco. A eles se permitiu devastar, queimar e arrastar despojos, contanto que a pilhagem se contivesse no tempo do dia e a noite fosse passada no acampamento, em segurança e vigilância. Isso a princípio se observou; logo, voltados ao desregramento e ricos de saques, abandonaram os postos e entregaram-se à devassidão dos banquetes ou ao sono e ao vinho. Então os inimigos, descoberta a negligência deles, prepararam dois corpos de tropa: com um, atacariam os saqueadores; com o outro, investiriam contra o acampamento romano, não na esperança de tomá-lo, mas para que, com o clamor e os dardos, cada soldado, atento ao próprio perigo, não percebesse o estrondo do outro combate. Além disso, escolheram as trevas para aumentar o pavor. Mas os que tentavam a paliçada das legiões foram facilmente repelidos; os auxiliares trácios, aterrorizados pela súbita investida, estando parte deles junto às fortificações e a maioria dispersa do lado de fora, foram massacrados com tanto mais furor quanto eram censurados como desertores e traidores que pegavam em armas para a escravidão de si mesmos e da pátria.
No dia seguinte, Sabino mostrou o exército em terreno plano, caso os bárbaros, animados pelo êxito da noite, ousassem o combate. E depois que estes não desceram da fortaleza nem das colinas a ela ligadas, deu início ao cerco por meio das obras que oportunamente erguia; depois, traçando um fosso e uma trincheira, abarcou um perímetro de quatro mil passos; então, aos poucos, para lhes tirar a água e o pasto, foi estreitando o cerco e cercando-os com linhas apertadas; e levantava-se um aterrado de onde se atirassem pedras, lanças e fogo contra o inimigo próximo. Mas nada os atormentava tanto quanto a sede, pois uma imensa multidão de combatentes e não combatentes usava da única fonte que restava; ao mesmo tempo, o gado, encerrado junto deles ao modo dos bárbaros, morria pela falta de pasto; jaziam ali corpos de homens que as feridas, que a sede haviam matado; tudo estava contaminado pela podridão, pelo cheiro e pelo contágio.
E, no meio da confusão, sobreveio o mal extremo da discórdia, uns dispondo-se à rendição, outros à morte e a golpes mútuos entre si; e havia quem aconselhasse não uma destruição sem vingança, mas uma investida. Não os homens comuns estavam divididos nessas opiniões, mas também, entre os chefes, Dínis, avançado em anos e ensinado por longa experiência a conhecer a força e a clemência de Roma, defendia que se depusessem as armas, único remédio para os aflitos, e foi o primeiro a entregar-se ao vencedor com a esposa e os filhos; seguiram-no os fracos pela idade ou pelo sexo e os que tinham maior amor à vida do que à glória. Mas a juventude dividia-se entre Tarsa e Turesis. Ambos haviam resolvido morrer com a liberdade, mas Tarsa, gritando por um fim rápido e que se rompessem ao mesmo tempo as esperanças e os medos, deu o exemplo cravando o ferro no peito; e não faltaram os que pereceram do mesmo modo. Turesis, com seu bando, esperou a noite, não sem que nosso general o soubesse. Por isso, os postos foram reforçados com massas mais densas; e caía a noite, terrível pela tempestade, e o inimigo, ora com um clamor confuso, ora num vasto silêncio, deixava incertos os sitiadores, quando Sabino percorria as linhas, exortando os homens a não dar oportunidade aos que se emboscavam, atendendo a ruídos enganosos ou deixando-se iludir pela quietude, mas a que cada um guardasse o seu posto, imóvel, sem lançar dardos em falso.
Enquanto isso, os bárbaros, descendo em bandos, ora arremessavam contra a paliçada pedras que a mão podia segurar, estacas com pontas endurecidas ao fogo e troncos cortados, ora enchiam os fossos com ramos, faxinas e corpos sem vida; alguns, tendo antes construído pontes e escadas, levavam-nas contra as defesas e agarravam-nas, arrancavam-nas e contra os que resistiam lutavam corpo a corpo. Os soldados, por sua vez, derrubavam-nos com dardos, empurravam-nos com os escudos, faziam rolar pilos de muralha e montões amontoados de pedras. A estes, a esperança da vitória alcançada e, se cedessem, a desonra mais notória; àqueles, a salvação no extremo e as mães e esposas que assistiam à maioria, com seus lamentos, davam-lhes ânimo. A noite, oportuna para a audácia de uns e o pavor de outros, os golpes incertos, as feridas imprevistas, o desconhecimento dos próprios e dos inimigos, e as vozes reverberadas pelas curvas do monte como que vindas de trás, tudo tinham misturado de tal modo que os romanos abandonaram algumas das suas linhas, na crença de que tinham sido rompidas. No entanto, pouquíssimos do inimigo as atravessaram; os demais, abatidos ou feridos os mais audazes, foram empurrados, ao raiar do dia, para a parte alta da fortaleza, onde por fim foram forçados à rendição. E a vizinhança imediata foi recebida pela ação voluntária dos habitantes; quanto aos restantes, o inverno precoce e cruel do monte Hemo impediu que fossem subjugados pela força ou pelo bloqueio.
Em Roma, entretanto, abalada a casa do príncipe, para que se iniciasse a série da futura destruição de Agripina, sua prima Cláudia Pulcra foi acusada, sendo o acusador Domício Afro. Este, recém-saído da pretura, de posição modesta e ansioso por se tornar notório por qualquer feito, imputava-lhe o crime de impudicícia, tendo Fúrnio por amante, e tentativas de envenenamento e feitiçaria contra o príncipe. Agripina, sempre impetuosa, e então inflamada pelo perigo da parenta, foi direto a Tibério e o encontrou, por acaso, sacrificando ao pai. Daí, como início de sua indignação, disse que não cabia ao mesmo homem imolar vítimas ao divino Augusto e perseguir a posteridade dele. Não fora para estátuas mudas que se transferira o espírito divino; ela era a imagem verdadeira, nascida de sangue celeste, e percebia o perigo, e assumia as vestes do luto. Em vão se alegava o nome de Pulcra, cuja única causa de ruína era ter, por completa loucura, escolhido Agripina como objeto de seu apreço, esquecida de Sósia, arruinada pelo mesmo motivo. Estas palavras arrancaram uma rara voz daquele peito fechado, e ele, repreendendo-a com um verso grego, advertiu-a de que não era lesada pelo fato de não reinar. Pulcra e Fúrnio foram condenados. Afro foi acrescentado aos primeiros entre os oradores, divulgado o seu talento e seguindo-se a declaração de César, que com sua própria autoridade o chamou de eloquente. Depois, ao tomar para si as acusações ou ao defender réus, teve fama mais próspera de eloquência do que de caráter, exceto que a velhice extrema lhe roubou também muito da eloquência, enquanto, com a mente cansada, mantinha a impaciência diante do silêncio.
Agripina, obstinada na ira e tomada por doença do corpo, quando César foi visitá-la, chorou longamente e em silêncio, e depois começou a misturar queixas e súplicas: que socorresse a sua solidão, que lhe desse um marido; sua juventude ainda era apta para isso, e a mulher honesta não tinha outro consolo senão o do casamento; havia na cidade quem se dignasse a receber a esposa de Germânico e os filhos dele. Mas César, não ignorando o quanto se pedia em prejuízo do Estado, para não se mostrar, contudo, ofendido nem temeroso, deixou-a sem resposta, embora ela insistisse. Isso, não transmitido pelos escritores dos anais, encontrei eu nas memórias de Agripina, a filha, mãe do príncipe Nero, que legou à posteridade a história de sua vida e das desgraças dos seus.
Sejano, entretanto, abalou ainda mais profundamente a mulher aflita e desprevenida, enviando agentes que, sob a aparência de amizade, a advertissem de que havia veneno preparado para ela e que devia evitar os banquetes do sogro. E ela, ignorando os fingimentos, quando se reclinou ao lado dele, não se deixou abrandar no rosto nem na fala, e não tocou em nenhum dos alimentos, até que Tibério reparou, por acaso ou porque tinha ouvido falar; e, para experimentá-la com mais rigor, louvando umas frutas tais como estavam postas, entregou-as com a própria mão à nora. Cresceu daí a suspeita de Agripina, que, sem levá-las à boca, passou-as aos escravos. Ainda assim, não se seguiu palavra de Tibério diante de todos, mas, voltado para a mãe, disse que não era de admirar se ele decidisse algo mais severo contra aquela que o acusava de envenenamento. Daí surgiu o boato de que se tramava a sua destruição, e que o imperador não ousava fazê-lo abertamente, mas procurava o segredo para perpetrá-la.
Mas César, para desviar a atenção, comparecia com frequência ao senado e ouviu, por vários dias, as embaixadas da Ásia, que discutiam em qual cidade se ergueria o templo. Onze cidades disputavam, com igual ambição, mas diversas em recursos. Pouca diferença alegavam entre si quanto à antiguidade da estirpe e à dedicação ao povo romano nas guerras contra Perseu, Aristônico e outros reis. Mas os de Hipepa e de Trales, junto com os de Laodiceia e de Magnésia, foram postos de lado por serem pouco fortes; nem mesmo os de Ílion, embora apresentassem Troia como mãe da cidade de Roma, valiam senão pela glória da antiguidade. Houve alguma hesitação porque os de Halicarnasso afirmavam que, por mil e duzentos anos, suas sedes não haviam tremido por nenhum abalo da terra e que os alicerces do templo estavam em rocha viva. Quanto aos de Pérgamo, nisto mesmo se apoiavam, mas creu-se que estavam suficientemente honrados com o templo de Augusto ali situado. Os de Éfeso e os de Mileto pareciam ter consagrado suas cidades, estes ao culto de Apolo, aqueles ao de Diana. Assim, deliberou-se entre os de Sárdis e os de Esmirna. Os de Sárdis leram um decreto da Etrúria, como sendo parentes: pois Tirreno e Lido, nascidos do rei Átis, dividiram a nação por causa da multidão; Lido permaneceu nas terras pátrias, a Tirreno coube fundar novas sedes; e dos nomes dos chefes vieram as denominações dadas àqueles pela Ásia e a estes na Itália; e a opulência dos lídios cresceu ainda mais com povos enviados àquela parte da Grécia que depois recebeu de Pélope o seu nome. Ao mesmo tempo, recordavam cartas dos generais romanos e os tratados firmados conosco na guerra contra os macedônios, a abundância de seus rios, a amenidade do clima e as ricas terras ao redor.