Anais - Livro IV 1
O poder de Sejano, as delações e o retiro de Tibério em Capri
Sejano, julgando então que era preciso apressar-se, escolheu um veneno cuja ação gradual fizesse passar por enfermidade natural. Foi dado a Druso pelo eunuco Lígdo, como se soube oito anos depois. Quanto a Tibério, durante todos os dias da doença do filho, ou por nenhum temor ou para ostentar firmeza de ânimo, mesmo morto e ainda insepulto o filho, entrou na cúria. E aos cônsules, que por aparência de luto se sentavam em bancos comuns, lembrou a dignidade de seu cargo e de seu lugar; e ao senado, derramado em lágrimas, ergueu o ânimo, contendo o próprio gemido, com um discurso contínuo. "Não lhe era de fato desconhecido que se poderia censurá-lo por se apresentar à vista do senado com dor tão recente: a maioria dos enlutados mal suporta a consolação dos parentes, mal suporta ver a luz do dia. E não se deviam condenar por fraqueza; ele, mas, buscara um consolo mais viril no seio da República." E, lamentando a extrema velhice de Augusta, a infância dos netos e a sua própria idade declinante, pediu que se conduzissem à sua presença os filhos de Germânico, único alívio dos males presentes. Os cônsules saíram, animaram com palavras os jovens, trouxeram-nos e os apresentaram diante do imperador. Tomando-os pela mão, disse: "Senadores, quando estes meninos perderam o pai, entreguei-os ao próprio tio, e supliquei-lhe que, embora tivesse prole própria, não os tratasse de modo diferente do seu sangue, mas os criasse e os elevasse, formando-os para si e para a posteridade. Arrebatado Druso, volto as minhas preces para vós e, diante dos deuses e da pátria, vos conjuro: recebei e guiai estes bisnetos de Augusto, nascidos de antepassados ilustríssimos, cumpri o vosso e o meu dever. Para vós, Nero e Druso, estes senadores fazem as vezes de pais. Tendes tal nascimento que os vossos bens e males dizem respeito à República."
Ele reforçou os poderes antes moderados da prefeitura reunindo num só acampamento as coortes espalhadas pela cidade, para que recebessem as ordens ao mesmo tempo e para que o número, a força e a própria visão delas gerassem confiança em si mesmas e medo nos demais. Alegava que o soldado, disperso, se entregava à devassidão; que, em caso de perigo súbito, o socorro seria maior se viesse junto; e que a disciplina seria mais severa se o acampamento ficasse longe das tentações da cidade. Assim que o acampamento ficou pronto, foi pouco a pouco insinuando-se nos ânimos dos soldados, indo até eles e chamando-os pelo nome; ao mesmo tempo escolhia ele próprio os centuriões e os tribunos. Tampouco se abstinha da influência sobre o senado, distinguindo seus clientes com honras e províncias, sendo Tibério condescendente e tão favorável que o celebrava como companheiro de trabalhos não só nas conversas, mas diante dos senadores e do povo, e permitia que estátuas de Sejano fossem honradas nos teatros, nos foros e nos quartéis-generais das legiões.
Mas a casa imperial estava cheia de Césares: um filho jovem e netos já crescidos atrasavam seus desejos; e, como arrebatar tantos de uma vez pela força era arriscado, a astúcia exigia intervalos entre os crimes. Mas resolveu um caminho mais oculto, começando por Druso, contra quem o levava uma ira recente. Pois Druso, que não suportava rivais e era de ânimo bastante impulsivo, numa briga que surgiu por acaso erguera as mãos contra Sejano e, como ele resistisse, golpeara-lhe o rosto. Assim, examinando todas as possibilidades, pareceu-lhe o caminho mais fácil voltar-se para Lívia, esposa de Druso, irmã de Germânico, de aparência sem graça no começo da juventude, mas depois de notável beleza. Fingindo arder de amor por ela, seduziu-a ao adultério; e, depois de conseguir a primeira infâmia (e uma mulher, perdida a castidade, não recusa mais nada), levou-a à esperança do casamento, à partilha do poder e à morte do marido. E ela, que tinha Augusto como tio-avô, Tibério como sogro e filhos de Druso, desonrava a si mesma, os antepassados e a posteridade por um adúltero de pequena cidade, trocando o que era honesto e seguro pela expectativa do que era vergonhoso e incerto. Tomam como cúmplice Eudemo, amigo e médico de Lívia, frequente nos encontros secretos sob o pretexto da profissão. Sejano expulsa de casa a esposa Apicata, da qual tivera três filhos, para não despertar suspeitas na amante. Mas a grandeza do crime trazia medo, adiamentos e, às vezes, planos contraditórios.
Entretanto, no início do ano, Druso, um dos filhos de Germânico, assumiu a toga viril, e o senado renovou para ele as honras que decretara a seu irmão Nero. César acrescentou um discurso com muitos elogios ao próprio filho, por mostrar benevolência paterna para com os filhos do irmão. Pois Druso, embora seja difícil que poder e concórdia coexistam no mesmo lugar, era tido por justo, ou ao menos não hostil, para com os jovens. Em seguida, retoma-se o velho e tantas vezes fingido plano de partir para as províncias. O imperador alegava a multidão de veteranos prestes a serem dispensados e a necessidade de completar os exércitos com recrutamentos: pois faltava soldado voluntário, e, mesmo havendo, não agia com a mesma coragem e disciplina, já que em geral é gente pobre e errante que toma a milícia por conta própria. E passou em revista rapidamente o número das legiões e as províncias que elas guardavam. Penso que devo eu também expor isto: quanta força romana havia então em armas, quais reis eram aliados e quão mais estreito era o império.
A Itália, nos dois mares, tinha duas frotas a protegê-la, em Miseno e em Ravena; a costa vizinha da Gália era guardada por navios de proa armada, capturados na vitória de Áccio, que Augusto enviara à cidade de Forojúlio com forte tripulação de remadores. Mas a principal força ficava junto ao Reno, defesa comum contra germanos e gauleses: oito legiões. As Hispânias, recém-subjugadas, mantinham três. Os mauros o rei Juba recebera como dádiva do povo romano. O resto da África era guardado por duas legiões, e o Egito por igual número; depois, começando da Síria até o rio Eufrates, por todo aquele imenso golfo de terras, eram contidas por quatro legiões, tendo como vizinhos o ibero, o albano e outros reis que se protegem com nossa grandeza contra os impérios estrangeiros. A Trácia, Reometalces e os filhos de Cótis a guardavam; a margem do Danúbio era retida por duas legiões na Panônia e duas na Mésia, com outras tantas postadas na Dalmácia, as quais, pela posição da região, ficavam à retaguarda daquelas e, caso a Itália pedisse socorro repentino, não ficavam longe para ser chamadas, ainda que a cidade tivesse soldado próprio: três coortes urbanas e nove pretorianas, recrutadas em geral na Etrúria e na Úmbria, ou no antigo Lácio e nas colônias romanas mais antigas. Já em pontos adequados das províncias havia triremes aliadas, cavalaria e coortes auxiliares, com força não muito menor; mas seria incerto enumerá-las, pois iam de um lado para outro conforme a necessidade do momento, ora crescendo em número, ora diminuindo.
Acho conveniente passar em revista também as outras partes da república, de que modo foram administradas até aquele dia, já que aquele ano trouxe o começo da mudança para pior no principado de Tibério. Em primeiro lugar, os negócios públicos e os mais importantes negócios privados eram tratados perante os senadores, e dava-se aos primeiros a liberdade de discutir; aos que escorregavam para a adulação, ele próprio continha. Distribuía as honras observando a nobreza dos antepassados, o renome na guerra e os talentos brilhantes na vida civil, de modo que ficasse claro não haver outros melhores. Os cônsules tinham seu prestígio, os pretores o seu; também os magistrados menores exerciam seu poder; e as leis, exceto nos processos de lesa-majestade, estavam em bom uso. Já os tributos sobre o trigo, os impostos indiretos e os demais rendimentos públicos eram movidos por companhias de cavaleiros romanos. Os próprios bens, César os confiava aos homens mais provados, e a alguns desconhecidos apenas pela fama; e, uma vez nomeados, eram mantidos sem qualquer limite, de modo que a maioria envelhecia nos mesmos cargos. A plebe, é verdade, era atormentada pela carestia, mas nisso não havia culpa do príncipe: ele até saiu ao encontro da esterilidade das terras e dos temporais do mar, tanto quanto o gasto e o cuidado permitiam. E providenciava para que as províncias não fossem perturbadas por novos encargos e para que suportassem os antigos sem ganância ou crueldade dos magistrados: açoites no corpo e confiscos de bens não havia.
Raros eram os campos de César na Itália, modestos os escravos, e dentro de poucos libertos se continha sua casa; e, se alguma vez tinha disputa com um particular, recorria ao foro e à lei. Tudo isso ele manteve, não de modo afável, mas rude e quase sempre temido, até que a morte de Druso fizesse tudo virar; pois, enquanto Druso viveu, o sistema permaneceu, porque Sejano, ainda no começo de seu poder, queria ganhar fama de bom conselheiro, e havia um vingador a temer, que não escondia o ódio e a toda hora se queixava de que, vivo ainda o filho, outro era chamado para ajudar no governo. E quanto faltava para que fosse chamado colega? As primeiras esperanças de dominação são árduas; uma vez que tenhas entrado, os apoios e os auxiliares aparecem. Já se erguera o acampamento por vontade do prefeito, já se lhe haviam dado os soldados nas mãos; via-se a sua estátua entre os monumentos de Cneu Pompeu; seus netos seriam do mesmo sangue da família dos Drusos: depois disso, só restava pedir-lhe moderação, que se contentasse. E não raras vezes, nem diante de poucos, lançava tais palavras; e até os seus segredos, corrompida a esposa, eram revelados.
Então Sejano, julgando que devia apressar-se, escolhe um veneno cuja ação gradual fizesse parecer doença fortuita. Foi dado a Druso por Lígdo, um eunuco, como se soube oito anos depois. Quanto a Tibério, durante todos os dias da doença, fosse por não ter medo ou para mostrar firmeza de ânimo, mesmo morto e ainda não sepultado o filho, entrou no senado. E, como os cônsules estivessem sentados em assentos comuns por aparência de luto, advertiu-os da sua dignidade e do seu lugar; e ao senado, desfeito em lágrimas, sufocando o gemido, reanimou-o ao mesmo tempo com um discurso contínuo: não ignorava que poderiam censurá-lo por se apresentar aos olhos do senado com dor tão recente; mal os mais enlutados toleravam as palavras dos parentes, mal suportavam ver a luz do dia; e não se deviam condenar por fraqueza; mas ele buscara consolos mais firmes no seio da república. E, lamentando a extrema velhice de Augusta, a idade ainda tenra dos netos e a sua própria já em declínio, pediu que os filhos de Germânico, único alívio dos males presentes, fossem trazidos. Os cônsules saíram, animaram com palavras os jovens e, conduzindo-os, colocaram-nos diante de César. Tomando-os pela mão, disse: "Senadores, entreguei estes, privados do pai, ao tio deles, e roguei-lhe que, embora tivesse prole própria, não os tratasse de modo diferente do seu próprio sangue, mas os amparasse, os elevasse e os moldasse para si e para a posteridade. Tirado Druso, volto minhas preces a vós e, diante dos deuses e da pátria, vos conjuro: recebei e guiai os bisnetos de Augusto, nascidos de antepassados ilustríssimos, cumpri o vosso e o meu dever. Para vós, Nero e Druso, estes senadores estão em lugar de pais. Tal é o vosso nascimento que o vosso bem e o vosso mal dizem respeito à república."
Isso foi ouvido com grande pranto e, em seguida, com votos auspiciosos; e, se tivesse posto fim ao discurso, teria enchido os ânimos dos ouvintes de compaixão por ele e de admiração. Mas, voltando às promessas vãs e tantas vezes ridicularizadas de devolver a república e de que os cônsules ou algum outro assumisse o governo, tirou a credibilidade até do que era verdadeiro e honesto. À memória de Druso decretaram-se as mesmas honras que a Germânico, com muitas acrescidas, como costuma fazer a adulação posterior. O funeral foi notável sobretudo pela procissão das imagens, quando se viam, em longa fila, Eneias, origem da gente Júlia, e todos os reis dos albanos, e Rômulo, fundador da cidade, depois a nobreza sabina, Ato Clauso e os demais retratos dos Cláudios.
Ao relatar a morte de Druso, expus o que foi registrado pelos autores mais numerosos e de maior crédito; mas não omitirei um boato daqueles tempos, tão forte que ainda não se apagou. Corrompida Lívia para o crime, Sejano teria prendido com adultério também o ânimo do eunuco Lígdo, pois esse Lígdo, pela idade e pela beleza, era caro ao senhor e estava entre os principais servos; depois, quando entre os cúmplices se combinaram o lugar e o tempo do envenenamento, Sejano teria chegado a tal audácia que inverteu o plano e, com uma denúncia oculta, acusando Druso de querer envenenar o pai, advertiu Tibério a evitar a primeira taça que lhe fosse oferecida quando jantasse na casa do filho. Enganado por essa trama, o velho, depois de iniciar o banquete, teria recebido a taça e a entregado a Druso; e este, sem saber, bebendo-a com avidez juvenil, aumentou a suspeita, como se, por medo e vergonha, infligisse a si mesmo a morte que tramara para o pai.
Esses boatos, espalhados entre o povo, além de não serem confirmados por nenhum autor seguro, podem ser refutados de pronto. Pois quem, mesmo de prudência mediana, e muito menos Tibério, treinado em tão grandes assuntos, ofereceria a morte a um filho sem ouvi-lo, e isso com a própria mão e sem volta para o arrependimento? Não atormentaria antes o ministro do veneno, não buscaria o autor, não usaria, enfim, com um único filho ainda não convicto de crime algum, daquela hesitação e demora que tinha até com estranhos? Mas, como Sejano era tido por inventor de todos os crimes, pelo excessivo afeto de César por ele e pelo ódio dos demais a ambos, criam-se coisas até fabulosas e monstruosas, pois a fama é sempre mais atroz a respeito da morte dos poderosos. Aliás, a sequência do crime, revelada por Apicata, esposa de Sejano, ficou patente pelos tormentos de Eudemo e de Lígdo. E nenhum escritor surgiu tão hostil que o imputasse a Tibério, embora investigassem e exagerassem todo o resto. Meu motivo para registrar e refutar o boato foi afastar, com exemplo claro, os ouvidos dizeres falsos, e pedir àqueles em cujas mãos cair o nosso trabalho que não prefiram coisas divulgadas e inacreditáveis, avidamente aceitas, ao que é verdadeiro e não foi deturpado em fábula.
Quando Tibério elogiava o filho diante da tribuna, o senado e o povo assumiam o porte e as vozes da dor mais por simulação do que de bom grado, e em segredo se alegravam de que a casa de Germânico reflorescesse. Esse começo de prestígio, e a mãe Agripina, que mal escondia a esperança, aceleraram a ruína. Pois Sejano, quando vê que a morte de Druso ficou impune para os assassinos, sem luto público, ousado nos crimes e, porque os primeiros tinham dado certo, revolvia consigo de que modo derrubaria os filhos de Germânico, cuja sucessão era certa. E não se podia espalhar veneno entre os três, pela notável fidelidade dos guardiões e pela castidade inviolável de Agripina. Assim, passou a atacar a altivez dela, a atiçar o velho ódio de Augusta e a recente cumplicidade de Lívia, para que, diante de César, acusassem Agripina de, soberba com a fecundidade e apoiada no favor popular, ambicionar o trono. E isso por meio de hábeis acusadores, entre os quais escolhera Júlio Postumo, muito apto a seus planos pelo adultério com Mutília Prisca e por estar entre os íntimos da avó, pois Prisca, forte no ânimo de Augusta, tornava a velha, por natureza ansiosa pelo poder, inconciliável com a nora. Também os mais próximos de Agripina eram induzidos a estimular, com conversas perversas, o seu espírito orgulhoso.
Tibério, entretanto, sem interromper o cuidado dos assuntos, tomando os negócios como consolo, tratava do direito dos cidadãos e das súplicas dos aliados; e, por proposta dele, fizeram-se decretos do senado para socorrer as cidades de Cíbira, na Ásia, e de Égio, na Acaia, abaladas por terremoto, com a remissão do tributo por três anos. E Víbio Sereno, procônsul da Hispânia Ulterior, condenado por violência pública, foi deportado para a ilha de Amorgo pela atrocidade de seus costumes. Carsídio Sacerdote, acusado de ter ajudado com trigo o inimigo Tacfarinas, é absolvido, e do mesmo crime também Caio Graco. A este, ainda criança de colo, o pai Semprônio levara como companheiro de exílio para a ilha de Cercina. Ali, criado entre desterrados e gente ignorante das artes liberais, depois se sustentava pela África e pela Sicília trocando mercadorias ordinárias; e, mesmo assim, não escapou dos perigos da grande fortuna. E, se Élio Lâmia e Lúcio Aprônio, que tinham governado a África, não o tivessem protegido, inocente, teria sido arrastado à ruína pelo renome da família infausta e pelas desgraças paternas.
Esse ano também teve embaixadas das cidades gregas, pedindo os de Samos e os de Cós que se confirmasse o antigo direito de asilo dos templos de Juno e de Esculápio, respectivamente. Os de Samos apoiavam-se num decreto dos anfictiões, que tinham a decisão suprema de todas as questões na época em que os gregos, com as cidades fundadas pela Ásia, dominavam a costa do mar. E não era menor a antiguidade entre os de Cós, e a isso se somava um mérito ligado ao lugar: pois tinham acolhido cidadãos romanos no templo de Esculápio, quando, por ordem do rei Mitrídates, eles eram massacrados em todas as ilhas e cidades da Ásia. Depois, após várias e quase sempre vãs queixas dos pretores, César por fim levou ao senado a questão da insolência dos histriões: muitas coisas sediciosas eram tentadas por eles em público e torpes pelas casas; a antiga farsa osca, diversão das mais frívolas para o vulgo, chegara a tal ponto de infâmia e de poder que devia ser contida pela autoridade dos senadores. Então os histriões foram expulsos da Itália.
O mesmo ano aflige César com outro luto, extinguindo-se um dos filhos gêmeos de Druso, e não menos pela morte de um amigo. Foi este Lucílio Longo, companheiro de todas as suas tristezas e alegrias e único entre os senadores a acompanhá-lo no retiro de Rodes. Assim, embora homem de origem nova, os senadores lhe decretaram um funeral de censor e uma estátua no foro de Augusto com dinheiro público, pois ainda então tudo era tratado por eles, a ponto de o procurador da Ásia, Lucílio Capitão, acusado pela província, ter defendido sua causa, afirmando o príncipe com veemência que não lhe dera autoridade senão sobre os escravos e os bens da casa imperial: que, se usurpara o poder de pretor e se valera de soldados, desprezara as instruções dele; que ouvissem os aliados. Assim, conhecido o caso, o réu é condenado. Por essa punição, e porque no ano anterior se vingara de Caio Silano, as cidades da Ásia decretaram um templo a Tibério, à mãe dele e ao senado. E permitiu-se construí-lo; e Nero rendeu graças por isso aos senadores e ao avô, em meio às alegres emoções dos ouvintes, que, com a memória recente de Germânico, julgavam ver nele aquele rosto e ouvir aquela voz. E havia no jovem uma modéstia e uma aparência dignas de um príncipe, mais agradáveis por causa do conhecido ódio de Sejano e do perigo que ele corria.
Por volta do mesmo tempo, César discorreu sobre a escolha de um flâmine de Júpiter no lugar de Sérvio Maluginense, falecido, e ao mesmo tempo sobre a proposta de uma nova lei. Pois, pelo antigo costume, nomeavam-se ao mesmo tempo três patrícios nascidos de pais casados pelo rito da confarreação, e dentre eles um era escolhido; mas já não havia, como antes, essa quantidade, abandonado o hábito da confarreação ou conservado entre poucos (e ele apresentava várias causas disso, a principal a negligência dos homens e das mulheres; somava-se a dificuldade da própria cerimônia, evitada de propósito), e porque saía do poder paterno quem alcançasse esse flaminado, e também a mulher que passava para a autoridade do flâmine. Assim, devia-se remediar por decreto do senado ou por lei, como Augusto adaptara certas coisas daquela rude antiguidade ao uso presente. Então, tratadas as questões religiosas, decidiu-se nada mudar na instituição dos flâmines; mas promulgou-se uma lei pela qual a flamínica de Júpiter, nas funções sagradas, ficava sob a autoridade do marido, mas no resto agisse pelo direito comum das mulheres. E o filho de Maluginense foi nomeado sucessor do pai. E, para que crescesse a dignidade dos sacerdotes e fosse neles mais pronto o ânimo para assumir as cerimônias, decretou-se à virgem Cornélia, que era escolhida no lugar de Escância, dois milhões de sestércios, e que, toda vez que Augusta entrasse no teatro, tivesse assento entre as Vestais.
Sob o consulado de Cornélio Cetego e Viselio Varrão, os pontífices, e a exemplo deles os demais sacerdotes, ao fazerem votos pela saúde do príncipe, recomendaram também Nero e Druso aos mesmos deuses, não tanto por afeto aos jovens quanto por adulação, igualmente perigosa, num tempo de costumes corrompidos, se nula ou se excessiva. Pois Tibério, nunca brando com a casa de Germânico, então de fato se afligiu sem paciência por verem os jovens igualados à sua velhice, e, chamados os pontífices, perguntou-lhes se tinham concedido aquilo às preces ou às ameaças de Agripina. E eles, embora negassem, foram repreendidos com moderação; pois grande parte eram parentes do próprio Tibério ou os primeiros da cidade. No senado, contudo, advertiu num discurso que para o futuro ninguém exaltasse à soberba, com honras prematuras, os ânimos volúveis dos jovens. Pois Sejano insistia e acusava a cidade de estar dividida como numa guerra civil: havia quem se dissesse do partido de Agripina, e, se não se resistisse, seriam mais; e não havia outro remédio para a discórdia que crescia senão derrubar um ou outro dos mais audazes.
Por essa causa, ataca Caio Sílio e Tício Sabino. A amizade de Germânico foi funesta a ambos, e a Sílio também por ter sido, durante sete anos, comandante de um enorme exército, ter conquistado na Germânia as honras do triunfo e ter vencido na guerra de Sacróvir: quanto maior a massa com que caía, mais terror se espalhava nos outros. Muitos criam que o ressentimento fora aumentado pela falta de moderação dele próprio, que se gabava sem medida de que seu soldado se mantivera na obediência quando outros escorregavam para a sedição; e de que o império não teria durado a Tibério se também aquelas legiões tivessem desejado a novidade. César julgava que com isso se destruía a sua própria fortuna e que ele era incapaz de retribuir tão grande mérito. Pois os benefícios são agradáveis enquanto parecem poder ser pagos; quando ultrapassam muito, em vez de gratidão se retribuem com ódio.