Anais - Livro IV 2
O poder de Sejano, as delações e o retiro de Tibério em Capri
Sílio tinha por esposa Sósia Gala, odiada pelo príncipe por causa de seu afeto a Agripina. Decidiu-se atacar os dois, mas adiar Sabino por algum tempo, e soltou-se contra eles o cônsul Varrão, que, alegando como pretexto uma inimizade herdada do pai, servia aos ódios de Sejano para a própria desonra. O réu pediu uma breve demora, até que o acusador deixasse o consulado, mas César se opôs. Argumentava que era costume os magistrados levarem a julgamento um cidadão privado, e que não se devia enfraquecer o direito de um cônsul, sobre cuja vigilância repousava a defesa do Estado contra qualquer dano. Era próprio de Tibério encobrir crimes recém-inventados com palavras antigas. E assim, com muita solenidade, como se Sílio fosse processado segundo as leis, ou Varrão fosse um cônsul de verdade, ou aquilo fosse uma república, reuniram-se os senadores, em silêncio o réu, ou, se tentava esboçar a defesa, sem ocultar de quem partia a ira que o esmagava. Acusavam-no de ter por muito tempo dissimulado sua cumplicidade na guerra de Sacrovir, de ter manchado a vitória pela ganância e de ter na esposa uma sócia. Sem dúvida estavam presos à acusação de extorsão, mas tudo foi conduzido como um processo de lesa-majestade, e Sílio se antecipou à condenação iminente com uma morte voluntária.
Mesmo assim houve violência contra seus bens, não para que o dinheiro fosse devolvido aos provinciais tributários, dos quais nenhum reclamava, mas a doação de Augusto lhe foi arrancada, calculando-se item por item o que o fisco exigia. Essa foi a primeira manifestação do rigor de Tibério para com o dinheiro alheio. Sósia foi mandada ao exílio por proposta de Asínio Galo, que sugeria confiscar metade dos bens e deixar metade aos filhos. Mânio Lépido, ao contrário, votou por conceder a quarta parte aos acusadores, conforme exigia a lei, e o restante aos filhos. Constato que esse Lépido foi, para aqueles tempos, homem ponderado e sábio: muitas das cruéis sugestões da adulação alheia ele desviou para melhor. E ainda assim não lhe faltava equilíbrio, pois manteve junto a Tibério prestígio e favor constantes. Por isso sou levado a duvidar se a inclinação dos príncipes por uns e a aversão por outros dependem, como tudo o mais, do destino e da sorte com que nascemos, ou se há algo em nossas próprias decisões, e se é possível seguir um caminho entre a obstinação que rompe com tudo e a servilidade vergonhosa, livre de ambição e de perigos. Já Messalino Cota, de ascendência igualmente ilustre, mas de índole diversa, propôs que se decretasse, por resolução do senado, que mesmo magistrados inocentes e ignorantes das faltas alheias fossem punidos pelos crimes de suas esposas nas províncias tanto quanto pelos próprios.
Tratou-se em seguida de Calpúrnio Pisão, homem nobre e arrojado. Foi ele que, como relatei, bradara no senado que deixaria a cidade por causa das maquinações dos acusadores, e ousara, desprezando o poder de Augusta, arrastar Urgulânia a juízo e chamá-la para fora do palácio do príncipe. No momento Tibério tomou isso com civilidade, mas, num espírito que remoía rancores, embora o ímpeto da ofensa tivesse esfriado, a lembrança permanecia forte. Quinto Grânio acusou Pisão de ter mantido conversa secreta contra a majestade, e acrescentou que havia veneno em sua casa e que ele entrava na cúria cingido de uma espada. Isso foi posto de lado como atroz demais para ser verdade. Quanto aos demais crimes, que se amontoavam em grande número, o réu foi admitido a julgamento, mas o processo não chegou ao fim por causa de uma morte oportuna. Tratou-se também de Cássio Severo, um exilado, de origem baixa e vida malfeitora, mas vigoroso na oratória, que, por suas inimizades desmedidas, conseguira ser banido para Creta por decisão do senado sob juramento. E ali, repetindo as mesmas práticas, atraiu sobre si ódios novos e velhos, e, despojado dos bens e interditado de fogo e de água, envelheceu no rochedo de Serifos.
Pela mesma época o pretor Pláucio Silvano, por motivos incertos, lançou sua esposa Aprônia de uma janela. Levado diante de César por Lúcio Aprônio, seu sogro, respondeu com a mente perturbada, alegando que estava pesado de sono e por isso nada percebeu, e que a esposa se matara por vontade própria. Sem hesitar, Tibério dirigiu-se à casa, examinou o quarto, onde se viam vestígios de quem resistira e fora empurrada. Levou o caso ao senado, e, designados os juízes, Urgulânia, avó de Silvano, mandou ao neto um punhal. Isso foi tido como uma sugestão do príncipe, por causa da conhecida amizade entre Augusta e Urgulânia. O réu, depois de experimentar o ferro em vão, ofereceu as veias para serem abertas. Logo depois Numantina, sua antiga esposa, acusada de ter provocado a loucura do marido por encantamentos e feitiços, foi julgada inocente.
Esse ano enfim livrou o povo romano da longa guerra contra o númida Tacfarinas. Pois os generais anteriores, quando julgavam que seus feitos bastavam para obter as insígnias triunfais, deixavam o inimigo em paz. Já havia na cidade três estátuas laureadas, e Tacfarinas ainda saqueava a África, reforçado por auxiliares mouros que, sob o governo de Ptolomeu, filho de Juba, jovem e descuidado, haviam trocado pela guerra o comando de libertos régios e de escravos. Tinha por receptador do saque e sócio das pilhagens o rei dos garamantes, não para avançar com um exército, mas enviando tropas ligeiras cujo número, por virem de longe, o rumor ampliava. E da própria província, conforme cada um se via sem recursos ou de costumes turbulentos, mais prontamente se lançava a ele, porque César, como se já não restasse nenhum inimigo na África depois dos feitos de Bleso, ordenara que a nona legião voltasse, e o procônsul daquele ano, Públio Dolabela, não ousara retê-la, temendo mais as ordens do príncipe do que os riscos da guerra.
Por isso Tacfarinas, espalhando o boato de que também por outras nações o poder romano era dilacerado e que por isso pouco a pouco se retirava da África, e de que os que restavam podiam ser cercados se todos os que preferiam a liberdade à escravidão se empenhassem, aumentou suas forças e, assentado o acampamento, sitiou a cidade de Tubusco. Mas Dolabela, reunindo o que havia de soldados, pelo terror do nome romano e porque os númidas não conseguem suportar uma linha de infantaria, à primeira investida desfez o cerco e fortificou os pontos vantajosos. Ao mesmo tempo mandou decapitar os chefes dos musulâmios que tramavam a revolta. Depois, como várias expedições contra Tacfarinas já haviam mostrado que não se persegue um inimigo errante com um único ataque pesado, convocou o rei Ptolomeu com seu povo e preparou quatro colunas, confiadas a legados ou tribunos. Bandos de saque foram conduzidos por mouros escolhidos, e ele próprio, como conselheiro, estava presente a todas as operações.
Pouco depois chega a notícia de que os númidas haviam montado suas tendas e acampado junto a uma fortaleza meio destruída, por eles mesmos antes incendiada, chamada Auzea, confiantes no local porque era cercado por vastas florestas. Então as coortes ligeiras e a cavalaria, sem saber para que lado eram levadas, foram arrebatadas em marcha rápida. Junto com o raiar do dia, ao som das trombetas e com gritos ferozes, caíram sobre os bárbaros ainda meio adormecidos, os cavalos dos númidas presos ou dispersos por pastos distantes. Do lado romano, a infantaria cerrada, os esquadrões dispostos, tudo preparado para o combate; do lado inimigo, ao contrário, ignorando tudo, sem armas, sem ordem, sem plano, eram arrastados, mortos e capturados como rebanhos. Os soldados, irados pela lembrança das fadigas e pelo combate tantas vezes desejado e tantas vezes esquivado, saciavam-se cada um de vingança e de sangue. Espalhou-se pelos manípulos a ordem de que todos perseguissem Tacfarinas, conhecido de tantas batalhas: não haveria descanso na guerra a não ser morto o chefe. Mas ele, abatidos os guardas ao seu redor, já preso o filho, e com os romanos avançando de todos os lados, lançou-se contra os dardos e, por uma morte não invingada, escapou ao cativeiro. Esse foi o fim daquela guerra.
A Dolabela, que as pedia, Tibério negou as insígnias triunfais, em deferência a Sejano, para que a glória de seu tio Bleso não fosse ofuscada. Mas nem por isso Bleso ficou mais ilustre, e a honra negada aumentou a fama de Dolabela, pois com um exército menor trouxera prisioneiros notáveis, a morte do chefe e a reputação de ter encerrado a guerra. Seguiam-no também embaixadores dos garamantes, raramente vistos na cidade, que o povo, abalado pela morte de Tacfarinas e ciente de sua falta, enviara para dar satisfação ao povo romano. Conhecida depois a dedicação de Ptolomeu durante essa guerra, retomou-se uma honra de antigo costume, e enviou-se um dos senadores para lhe entregar um cetro de marfim e uma toga bordada, antigos presentes dos senadores, e para chamá-lo rei, aliado e amigo.
No mesmo verão um acaso feliz sufocou as sementes de uma guerra servil semeadas pela Itália. O instigador do tumulto foi Tito Curtísio, antes soldado de uma coorte pretoriana, que primeiro em reuniões clandestinas em Brundísio e nas cidades vizinhas, depois com cartazes afixados abertamente, convocava à liberdade os escravos rudes e ferozes das matas distantes, quando, como que por dom dos deuses, três birremes aportaram para uso dos que navegavam por aquele mar. E havia naquelas mesmas regiões o questor Cúrcio Lupo, a quem coubera, por antigo costume, a província dos caminhos pastoris. Este, dispondo uma força de marinheiros, dispersou a conjuração no exato momento em que começava. César mandou às pressas o tribuno Stáio com forte tropa, que arrastou para a cidade o próprio chefe e os mais audazes de seus seguidores, cidade já trêmula com a multidão de escravos que crescia sem medida, enquanto a plebe livre diminuía a cada dia.
Sob os mesmos cônsules foram levados ao senado um exemplo atroz de miséria e crueldade: o pai como réu, o filho como acusador (ambos com o nome de Víbio Sereno). Arrastado do exílio, coberto de imundície e sujeira, e então acorrentado, o pai se viu diante do filho que falava. O jovem, muito apurado no traje, de rosto animado, denunciava as ciladas armadas contra o príncipe e os instigadores de guerra mandados à Gália, sendo ao mesmo tempo delator e testemunha, e acrescentava que Cecílio Cornuto, ex-pretor, fornecera o dinheiro. Este, por cansaço das preocupações e porque o perigo era tido como ruína certa, apressou a própria morte. Mas, ao contrário, o réu, com ânimo nada abatido, voltado para o filho, sacudia as correntes, invocava os deuses vingadores para que a ele devolvessem o exílio, onde viveria longe de tais práticas, e para que o filho fosse um dia alcançado pelo castigo. Afirmava que Cornuto era inocente e fora aterrorizado por falsidades, e que isso seria fácil de perceber se outros nomes fossem revelados: pois ele não teria planejado o assassinato do príncipe e a revolução com um só cúmplice.
Então o acusador nomeou Cneu Lêntulo e Seio Tuberão, com grande vergonha de César, pois homens principais do Estado, seus amigos íntimos, Lêntulo de idade avançadíssima, Tuberão de corpo debilitado, eram chamados a juízo por tumulto hostil e por perturbar a república. Mas estes foram logo isentados. Quanto ao pai, interrogaram-se os escravos sob tortura, e o resultado do interrogatório foi desfavorável ao acusador. Este, enlouquecido pelo crime e ao mesmo tempo aterrado pelo rumor do povo, que o ameaçava com o cárcere, o rochedo ou as penas dos parricidas, deixou a cidade. Trazido de volta de Ravena, foi forçado a prosseguir a acusação, sem que Tibério ocultasse o antigo ódio contra o exilado Sereno. Pois, depois da condenação de Libão, Sereno enviara a César uma carta censurando-o por seu grande zelo ter ficado sem recompensa, e acrescentara coisas mais insolentes do que era seguro diante de ouvidos soberbos e mais propensos à ofensa. César relembrou isso oito anos depois, alegando contra ele diversas faltas no período intermediário, ainda que as torturas, pela obstinação dos escravos, tivessem resultado em contrário.
Proferidos depois os votos de que Sereno fosse punido segundo o costume dos antepassados, ele, para abrandar o ódio, interpôs seu veto. Quando Galo Asínio propôs que fosse confinado em Gíaro ou Donusa, isso também ele rejeitou, lembrando que ambas as ilhas careciam de água e que se deviam dar os meios de vida a quem se concedia a vida. Assim Sereno foi levado de volta a Amorgo. E porque Cornuto morrera por própria mão, tratou-se de abolir as recompensas dos acusadores quando alguém acusado de lesa-majestade se privasse da vida antes de concluído o julgamento. Caminhava-se para essa decisão, não tivesse César, com mais dureza e contra seu próprio costume, falado abertamente a favor dos acusadores, lamentando que as leis ficariam sem efeito e o Estado à beira do abismo: melhor subverter as leis do que afastar seus guardiões. Assim os delatores, espécie de homens criada para a ruína pública e nunca refreada o bastante nem pelas penas, eram atraídos por recompensas.
Em meio a horrores tão contínuos e tão tristes, intercalou-se uma alegria modesta: César, a pedido do irmão, que era senador, poupou Caio Comínio, cavaleiro romano, condenado por versos injuriosos contra ele. Por isso mais surpreendente parecia que, sabendo do que era melhor e da fama que acompanha a clemência, preferisse os caminhos mais sombrios. Pois não pecava por estupidez, e não é segredo quando os atos dos imperadores são celebrados de verdade e quando por alegria fingida. Mais ainda: ele próprio, em geral controlado e como que lutando com as palavras, falava de modo mais solto e mais pronto sempre que vinha em socorro de alguém. Já a Públio Suílio, antes questor de Germânico, que devia ser expulso da Itália por se ter provado que recebera dinheiro por uma decisão judicial, votou que fosse afastado para uma ilha, com tamanho empenho que se obrigou por juramento a afirmar que isso era do interesse do Estado. Isso, recebido com aspereza no momento, logo se reverteu em louvor com o regresso de Suílio, a quem a geração seguinte viu poderosíssimo, venal, e amigo do príncipe Cláudio por muito tempo com sucesso, nunca com retidão. A mesma pena foi estabelecida para o senador Cato Fírmio, sob a alegação de que acusara a irmã com falsas imputações de lesa-majestade. Cato, como relatei, atraíra Libão a ciladas e depois o arruinara com a denúncia. Lembrando esse serviço, mas alegando outros motivos, Tibério intercedeu contra o exílio dele, mas não se opôs a que fosse expulso do senado.
Não ignoro que muito do que relatei e do que ainda relatarei pode parecer pequeno e trivial demais para ser registrado. Mas que ninguém compare meus anais com os escritos daqueles que compuseram a história antiga do povo romano. Eles narravam, com livre margem para digressões, guerras imensas, assaltos a cidades, reis derrotados e capturados, ou, quando se voltavam por preferência aos assuntos internos, as discórdias dos cônsules com os tribunos, as leis agrárias e frumentárias, as lutas da plebe com os aristocratas. O meu é um trabalho restrito e sem glória: uma paz inabalável ou pouco perturbada, os assuntos tristes da cidade, e um príncipe indiferente à ampliação do império. Mesmo assim, não será inútil examinar esses fatos à primeira vista insignificantes, dos quais muitas vezes nascem os movimentos de grandes transformações.
Pois todas as nações e cidades são governadas pelo povo, pelos nobres ou por um só. Uma forma de Estado escolhida e composta a partir desses elementos é mais fácil de louvar do que de realizar, ou, se realizada, não pode ser duradoura. Por isso, como antigamente, quando a plebe era forte, ou quando os senadores prevaleciam, era preciso conhecer a natureza do povo e os modos de contê-lo com moderação, e aqueles que melhor aprenderam a índole do senado e dos aristocratas eram tidos por hábeis conhecedores dos tempos e por sábios, assim também, mudado o estado de coisas, não sendo Roma outra coisa senão o domínio de um só, é útil reunir e transmitir esses fatos, porque poucos distinguem o honesto do pior e o útil do nocivo por prudência própria, e a maioria aprende pelos resultados alheios. De resto, por mais que sejam proveitosos, oferecem pouquíssimo deleite. Pois a posição dos povos, a variedade dos combates, os fins gloriosos dos generais prendem e revigoram o ânimo de quem lê. Eu reúno ordens cruéis, acusações contínuas, amizades falsas, a ruína de inocentes e as mesmas causas levando ao mesmo fim, numa monotonia óbvia que cansa de saciedade. Além disso, os escritores antigos têm raros detratores, e a ninguém importa se exaltas com mais entusiasmo os exércitos cartagineses ou os romanos. Mas dos muitos que sob o governo de Tibério sofreram pena ou infâmia, restam descendentes. E ainda que as próprias famílias já estejam extintas, encontrarás quem, pela semelhança de caráter, julgue que as más ações alheias lhe são atiradas como reproche. Até a glória e a virtude têm inimigos, por condenarem, de perto demais, seus opostos. Mas volto ao que comecei.
Sob o consulado de Cornélio Cosso e Asínio Agripa, Cremúcio Cordo foi acusado por um crime novo e então ouvido pela primeira vez: ter, nos anais que publicara, louvado Marco Bruto e chamado Caio Cássio de o último dos romanos. Acusavam-no Sátrio Secundo e Pinário Nata, clientes de Sejano. Isso era ruinoso para o réu, e César ouvia a defesa com semblante feroz; defesa que Cremúcio, decidido a abandonar a vida, começou deste modo: 'São minhas palavras, senadores, que se acusam, de tão inocente que sou dos atos. Mas estas nem sequer atingem o príncipe ou a mãe do príncipe, que a lei de lesa-majestade abrange. Dizem que louvei Bruto e Cássio, cujos feitos, embora muitíssimos os tenham escrito, ninguém narrou sem honra. Tito Lívio, ilustre entre os primeiros pela eloquência e pela fidelidade, exaltou Cneu Pompeu com tantos louvores que Augusto o chamava de pompeiano, e isso não prejudicou a amizade entre eles. A Cipião, a Afrânio, a este mesmo Cássio, a este Bruto, em parte alguma chama de bandidos e parricidas, nomes que agora lhes são impostos, mas muitas vezes os nomeia como homens notáveis. Os escritos de Asínio Polião transmitem uma memória eminente desses mesmos homens; Messala Corvino proclamava Cássio seu general, e ambos prosperaram em riquezas e honras. Ao livro de Marco Cícero, no qual elevou Catão ao céu, que outra coisa respondeu o ditador César senão um discurso por escrito, como quem replica diante de juízes? As cartas de Antônio e os discursos de Bruto contêm contra Augusto injúrias falsas, é certo, mas cheias de aspereza; os poemas de Bibáculo e de Catulo, repletos de afrontas aos Césares, são lidos. Mas o próprio divino Júlio, o próprio divino Augusto suportaram tudo isso e o deixaram passar, e não saberia dizer com facilidade se mais por moderação ou por sabedoria. Pois o que se despreza cai no esquecimento; se te irritas, parece que reconheces.
Não toco nos gregos, entre os quais não só a liberdade, mas também o desregramento ficou impune; ou, se alguém reagia, vingava palavras com palavras. Mas foi sobretudo livre e sem detrator falar daqueles que a morte subtraíra ao ódio ou ao favor. Acaso, com Cássio e Bruto em armas, ocupando os campos de Filipos, eu incendeio o povo em discursos para a guerra civil? Ou eles, mortos há setenta anos, assim como são reconhecidos por suas imagens, que nem o vencedor aboliu, não retêm também parte da memória junto aos escritores? A posteridade restitui a cada um a sua honra, e não faltarão, se a condenação me ameaçar, os que se lembrem não só de Cássio e de Bruto, mas também de mim.' Saindo depois do senado, encerrou a vida pela abstinência. Os senadores decretaram que os livros fossem queimados pelos edis, mas eles sobreviveram, ocultos e depois publicados. Por isso mais apraz rir da estupidez dos que, pelo poder presente, acreditam que se possa extinguir até a memória da época seguinte. Pois, ao contrário, com a punição dos talentos cresce sua autoridade, e os reis estrangeiros, ou os que usaram da mesma crueldade, nada conquistaram senão desonra para si e glória para aqueles.
De resto, o ano foi tão contínuo em acusar réus que, nos dias das festas latinas, quando Druso, prefeito da cidade, subira ao tribunal para tomar os auspícios, Calpúrnio Salviano se apresentou contra Sexto Mário. Censurado abertamente por César, isso foi a causa do exílio de Salviano. Imputou-se publicamente aos cizicenos a negligência nas cerimônias do divino Augusto, acrescentando-se acusações de violência contra cidadãos romanos. E perderam a liberdade que haviam merecido na guerra contra Mitrídates, quando, sitiados, repeliram o rei tanto por sua própria constância quanto pelo socorro de Luculo. Já Fonteio Capitão, que governara a Ásia como procônsul, foi absolvido, ao se constatar que as acusações contra ele, feitas por Víbio Sereno, eram inventadas. Mesmo assim isso não prejudicou Sereno, a quem o ódio público tornava mais seguro. Pois, quanto mais implacável um acusador, mais era como que sacrossanto; os fracos e obscuros é que sofriam as penas.
Pela mesma época a Espanha ulterior, enviando embaixadores ao senado, pediu que, a exemplo da Ásia, lhe fosse permitido erguer um templo a Tibério e a sua mãe. Nessa ocasião César, aliás firme em rejeitar honras e julgando que devia responder aos que, por rumor, o acusavam de ter cedido à vaidade, começou um discurso deste teor: 'Sei, senadores, que muitos sentiram falta da minha firmeza por eu não me ter oposto a esse mesmo pedido feito há pouco pelas cidades da Ásia. Por isso revelarei ao mesmo tempo a defesa de meu silêncio anterior e o que decidi para o futuro. Como o divino Augusto não proibira que se erguesse em Pérgamo um templo a si mesmo e à cidade de Roma, eu, que observo todos os seus atos e palavras como se fossem lei, segui mais prontamente um exemplo já aprovado, porque ao culto de mim se juntava a veneração ao senado. Mas, ainda que mereça perdão tê-lo aceitado uma vez, seria ambicioso e soberbo ser consagrado por todas as províncias com a imagem dos deuses; e a honra de Augusto se desvanecerá se for vulgarizada por adulações indistintas.