Capítulos

Um senador romano de toga escreve com estilete numa tábua de cera, um rolo de papiro na outra mão

Anais - Livro III

O processo de Pisão, a ascensão de Sejano e a decadência do senado

Sobre a obra

Os Anais são a última obra de Públio Cornélio Tácito (c. 56 a c. 120 d.C.), senador e considerado o maior historiador de Roma. Escritos por volta de 116 d.C., cobrem o período de 14 a 68 d.C., da morte de Augusto à de Nero. Dos dezesseis livros originais sobrevivem I a VI e XI a XVI, e mesmo esses chegaram incompletos: o V ficou reduzido a um fragmento, falta o começo do XI e o XVI se interrompe no meio de uma frase.

Este é o Livro III, que cobre os anos de 20 a 22 d.C. Ele abre com o retorno das cinzas de Germânico a Roma e o processo de Pisão, segue com a revolta na Gália e o debate do senado sobre leis, luxo e o direito de asilo dos templos gregos, e mostra Sejano ganhando terreno enquanto o senado se acostuma a obedecer.

O processo de Pisão

Agripina desembarcou em Brundísio com a urna do marido, e Tácito descreve o cortejo até Roma como uma manifestação política. Cneu Calpúrnio Pisão, acusado de envenenar Germânico, de corromper a disciplina do exército e de tentar retomar à força a província da Síria, foi julgado diante do senado. A acusação de veneno não se sustentou; as outras se sustentaram. Antes do fim do processo Pisão foi encontrado morto, degolado, e a versão oficial foi suicídio.

O ponto sensível é o que Tibério sabia. Tácito insinua que Pisão tinha instruções do imperador e sugere que ele foi silenciado, mas registra a insinuação como rumor corrente e não a prova. O leitor precisa distinguir o que Tácito narra do que ele deixa pairar.

(Anais - Livro III 1:10-18)

O bronze que confirma o relato

Este é um dos raros casos em que um documento oficial romano pode ser confrontado com Tácito. No fim dos anos 1980 apareceram na Bética, no sul da Espanha, fragmentos de várias cópias em bronze do senatus consultum de Cn. Pisone patre, o decreto do senado datado de 10 de dezembro de 20 d.C. que registra a sentença contra Pisão e seus cúmplices. As peças foram reunidas e publicadas nos anos 1990.

O resultado é misto e vale enunciar com precisão. O decreto confirma o essencial: o processo existiu, as acusações e as penas são as que Tácito descreve, e a memória de Pisão foi objeto de sanções. Ao mesmo tempo, o texto oficial é abertamente laudatório de Tibério e da casa imperial, e diverge de Tácito em ênfase, em ordem dos fatos e em detalhes de procedimento. O bronze não desmente Tácito nem o valida ponto por ponto: mostra um historiador bem informado escrevendo contra a versão oficial que ele conhecia.

Leis, luxo e províncias

O centro do livro é uma discussão sobre lei e costume. Tácito insere um resumo da história da legislação romana, dos reis às leis das Doze Tábuas e daí à multiplicação de leis sob a república tardia, com a frase que ficou: quanto mais corrompido o Estado, mais numerosas as leis. Em seguida vem o debate sobre as leis suntuárias, que o senado prefere não aplicar.

Nas províncias, a revolta de Júlio Floro e Júlio Sacróvir entre os gauleses, em 21 d.C., nasce de dívidas e da dureza do fisco romano, e é esmagada rapidamente. Na África, a guerra contra Tacfarinas se arrasta. O senado também revisa o direito de asilo reivindicado pelos templos gregos, e um dos casos julgados é o de Éfeso, cuja embaixada defende a antiguidade do santuário de Diana, a Ártemis dos efésios que aparece no episódio do motim dos ourives em Atos.

(Anais - Livro III 2:27)

(Anais - Livro III 3:61)

Sejano e a servidão do senado

Élio Sejano, prefeito do pretório, já aparece neste livro em posição de influência, unindo sua família à casa imperial pelo noivado da filha com um filho de Cláudio. O retrato completo dele, com a concentração das coortes pretorianas num quartel único e o domínio sobre Tibério, vem no começo do Livro IV. Aqui está o solo em que isso cresce.

Esse solo é a bajulação do senado, e Tácito o resume numa cena curta: sempre que saía da cúria, Tibério costumava dizer em grego que aqueles homens estavam prontos para a servidão. Tácito comenta que até ele, que não queria a liberdade pública, se enjoava de tanta submissão. O livro fecha com o funeral de Júnia, irmã de Bruto e mulher de Cássio, em que as imagens dos dois tiranicidas foram omitidas do cortejo, e Tácito observa que por isso mesmo brilhavam mais.

(Anais - Livro III 4:65)

(Anais - Livro III 4:76)

Relevância histórica

Os Anais não são obra cristã, e este livro não menciona cristãos. O interesse é o retrato de como Roma julgava e governava nos anos em que Jesus vivia na Galileia. O processo de Pisão mostra por dentro um julgamento político romano, com acusação, defesa, pressão popular e uma sentença que serve ao poder, o mesmo tipo de máquina que julgaria Paulo em Cesareia. O caso de Éfeso mostra a mesma cidade e o mesmo santuário que aparecem em Atos, do lado romano do balcão.

A menção explícita a Cristo aparece no Livro XV, no relato da perseguição de Nero após o incêndio de 64.

(Anais - Livro XV 3:44)