Anais - Livro III 2
O processo de Pisão, a ascensão de Sejano e a decadência do senado
Em Roma, enquanto isso, Lépida, que além da glória dos Emílios tinha como bisavôs Lúcio Sula e Cneu Pompeu, foi acusada de simular um parto atribuído a Públio Quirino, homem rico e sem filhos. Acrescentavam-se acusações de adultérios, de envenenamentos e de consultas feitas por caldeus contra a casa de César. Defendia a ré seu irmão Mânio Lépido. Quirino, ainda hostil mesmo depois do repúdio declarado, lhe havia angariado certa compaixão, por mais infame e culpada que ela fosse. Ninguém perceberia com facilidade a intenção do príncipe naquele julgamento: tanto ele alternou e misturou os sinais de ira e de clemência. Primeiro pediu ao senado que não se tratasse das acusações de lesa-majestade; logo depois induziu Marco Servílio, um ex-cônsul, e outras testemunhas a expor o que parecera querer rejeitar. E ele mesmo transferiu para os cônsules os escravos de Lépida, que estavam sob custódia militar, mas não permitiu que fossem interrogados sob tortura sobre o que dizia respeito à sua própria casa. Dispensou também Druso, cônsul designado, de pronunciar a sentença em primeiro lugar; o que alguns julgavam ato cortês, para que os demais não fossem obrigados a concordar, e que outros atribuíam à crueldade, pois Druso não teria cedido senão para cumprir o dever de condenar.
Nos dias dos jogos que interromperam o julgamento, Lépida entrou no teatro com mulheres ilustres e, com lamento choroso, invocando seus antepassados e o próprio Pompeu, cujos monumentos e estátuas ali presentes eram contemplados, despertou tanta compaixão que a multidão, desfeita em lágrimas, gritava maldições cruéis contra Quirino, a cuja velhice, falta de filhos e casa obscuríssima se destinava como vítima aquela que antes fora prometida como esposa a Lúcio César e nora ao divino Augusto. Depois, pela tortura dos escravos, vieram à luz seus crimes, e prevaleceu a sentença de Rubélio Blando, pela qual ela foi privada da água e do fogo. Druso concordou, ainda que outros tivessem proposto pena mais branda. Em seguida concedeu-se a Escauro, que tivera dela uma filha, que os bens não fossem confiscados. Só então Tibério revelou que ele próprio também apurara, pelos escravos de Públio Quirino, que Lépida tentara matá-lo com veneno.
As desgraças das casas ilustres (pois em intervalo não muito distante os Calpúrnios haviam perdido Pisão e os Emílios, Lépida) tiveram algum consolo com a restituição de Décimo Silano à família Júnia. Vou recordar sua queda em poucas palavras. Assim como a fortuna foi forte para o divino Augusto nos assuntos do Estado, em casa ela lhe foi adversa, por causa da impudicícia da filha e da neta, as quais ele expulsou da cidade, punindo seus adúlteros com a morte ou o exílio. Pois, ao chamar uma falta comum entre homens e mulheres pelo nome grave de religiões ofendidas e majestade violada, ele ultrapassava a clemência dos antigos e as suas próprias leis. Mas relatarei o fim desses outros, junto com os demais fatos daquela época, se, concluído o que me propus, prolongar a vida para novos trabalhos. Décimo Silano, adúltero da neta de Augusto, embora não tivesse sofrido punição maior do que ser excluído da amizade de César, compreendeu que aquilo significava exílio, e só ousou apelar ao senado e ao príncipe sob o reinado de Tibério, confiando no poder de seu irmão Marco Silano, que se destacava pela nobreza ilustre e pela eloquência. Mas Tibério, a Silano que lhe agradecia, respondeu diante dos senadores que ele também se alegrava por seu irmão ter regressado de longa peregrinação, e que isso era justo e lícito, pois não fora expulso por decreto do senado nem por lei; quanto a ele, contudo, as ofensas de seu pai permaneciam intactas, e o regresso de Silano não dissolvia o que Augusto havia querido. Depois disso, ele viveu na cidade sem alcançar nenhuma magistratura.
Propôs-se em seguida moderar a lei Pápia Popeia, que Augusto, já idoso, sancionara depois das leis Júlias para reforçar as penas contra os celibatários e enriquecer o erário. Nem por isso os casamentos e a criação de filhos se tornaram frequentes, tão forte era o atrativo de não ter herdeiros; aumentava, no entanto, a multidão dos que corriam perigo, pois toda casa era arruinada pelas interpretações dos delatores, e, assim como antes se sofria com os crimes, agora se sofria com as leis. Esse fato me leva a discorrer mais a fundo sobre as origens do direito e os modos pelos quais se chegou a esta multidão infinita e variedade de leis.
Os primeiros mortais, sem nenhum apetite mau ainda, viviam sem vergonha, sem crime e, por isso, sem pena ou coerções. Não havia necessidade de recompensas, quando o que é honesto era buscado por sua própria natureza; e, onde nada se desejava contra os costumes, nada era proibido pelo medo. Mas, depois que se perdeu a igualdade e, no lugar da moderação e do pudor, avançaram a ambição e a violência, surgiram as tiranias, que se mantiveram para sempre entre muitos povos. Alguns, desde o início, ou quando se cansaram dos reis, preferiram as leis. Estas, a princípio, eram simples, enquanto os espíritos dos homens eram rudes; a fama celebrou sobretudo as dos cretenses, que Minos estabeleceu, as dos espartanos, que Licurgo redigiu, e logo as que Sólon, já mais elaboradas e numerosas, escreveu para os atenienses. A nós, Rômulo governou como lhe aprouve; depois Numa vinculou o povo às religiões e ao direito divino, e algumas coisas foram instituídas por Tulo e Anco. Mas o principal legislador foi Sérvio Túlio, a cujas leis até os reis deviam obedecer.
Expulso Tarquínio, o povo, contra as facções dos senadores, criou muitos meios para defender a liberdade e firmar a concórdia; foram nomeados os decênviros e, reunido o que havia de excelente em toda parte, compuseram-se as Doze Tábuas, último exemplo de direito equânime. Pois as leis que se seguiram, ainda que às vezes voltadas contra os malfeitores por algum delito, foram, com mais frequência, impostas pela força em meio à discórdia das ordens, para alcançar honras ilícitas, expulsar homens ilustres e outros fins perversos. Daí os Gracos e os Saturninos, agitadores da plebe, e o não menos pródigo Druso, que distribuía em nome do senado; corrompidos pela esperança ou iludidos por meio do veto dos tribunos, os aliados. E nem mesmo durante a guerra Itálica, e depois a Civil, deixou-se de aprovar leis numerosas e contraditórias, até que Lúcio Sula, ditador, abolindo ou alterando as anteriores e acrescentando outras, garantiu um repouso que não durou muito, logo perturbado pelas propostas sediciosas de Lépido e, não muito depois, pela licença devolvida aos tribunos de agitar o povo como quisessem. E então passaram-se leis não só para o interesse comum, mas contra indivíduos, e, quando a república estava corruptíssima, as leis foram numerosíssimas.
Então Cneu Pompeu, eleito cônsul pela terceira vez para corrigir os costumes, e mais pesado nos remédios do que eram os males, autor e ao mesmo tempo destruidor de suas próprias leis, perdeu pelas armas o que pelas armas defendia. Seguiram-se vinte anos contínuos de discórdia: não havia costume nem direito; os piores atos ficavam impunes e muitos honestos levavam à ruína. Por fim, em seu sexto consulado, César Augusto, seguro de seu poder, aboliu o que havia ordenado durante o triunvirato e nos deu as leis com que pudéssemos viver em paz sob um príncipe. A partir daí os grilhões ficaram mais duros: impuseram-se vigias, e, pela lei Pápia Popeia, atraídos por recompensas, de modo que, se alguém deixasse de cumprir os deveres da paternidade, o povo, como pai de todos, ficasse com os bens vagos. Mas a vigilância penetrava mais fundo, e Roma, a Itália e os cidadãos onde quer que estivessem eram atingidos, e a condição de muitos foi arruinada. E o terror ameaçava a todos, até que Tibério, para estabelecer um remédio, escolheu por sorteio cinco ex-cônsules, cinco ex-pretores e outros tantos do restante do senado, junto aos quais desfizeram-se muitos dos nós da lei, o que serviu por então de alívio moderado.
Por esse mesmo tempo, recomendou aos senadores Nero, um dos filhos de Germânico, já entrado na juventude, e pediu, não sem o riso dos que ouviam, que fosse dispensado do encargo de assumir o vigintivirato e que pleiteasse a questura cinco anos antes do permitido pelas leis. Alegava que decretos iguais haviam sido feitos para ele e para o irmão, a pedido de Augusto. Mas não duvido de que, mesmo então, houvesse quem em segredo zombasse de tais súplicas; e, no entanto, os Césares estavam apenas no início de sua grandeza, o antigo costume estava mais presente aos olhos, e o vínculo entre padrasto e enteado era mais frágil do que o do avô para com o neto. Acrescentou-se o pontificado, e, no dia em que Nero entrou pela primeira vez no foro, deu-se um donativo à plebe, muito alegre por ver já adulto um descendente de Germânico. A alegria aumentou ainda com o casamento de Nero e Júlia, filha de Druso. E, assim como isso foi recebido com rumor favorável, recebeu-se com ânimo adverso que Sejano fosse destinado como sogro ao filho de Cláudio. Parecia que ele havia manchado a nobreza da família e elevado ainda mais Sejano, já suspeito de ambição excessiva.
No fim do ano, morreram homens notáveis, Lúcio Volúsio e Salústio Crispo. Volúsio era de família antiga, que, no entanto, nunca passara da pretura; ele mesmo trouxe o consulado, exerceu também o poder censório ao escolher as decúrias dos cavaleiros e foi o primeiro a acumular as riquezas com que aquela casa floresceu imensamente. Crispo, de origem equestre, foi adotado por Caio Salústio, o mais brilhante historiador dos feitos romanos, neto de sua irmã, e tomou seu nome. E ele, embora tivesse acesso fácil às honras, imitou Mecenas e, sem alcançar a dignidade senatorial, superou em poder muitos triunfadores e ex-cônsules, afastado do hábito dos antigos pelo refinamento e pela elegância, e mais próximo do luxo pela abundância e fartura. Havia, contudo, sob isso um vigor de espírito à altura dos maiores negócios, tanto mais penetrante quanto mais ostentava sono e indolência. Assim, vivo Mecenas, foi o segundo em favor, depois o principal, em quem se apoiavam os segredos dos imperadores, e cúmplice da morte de Póstumo Agripa; em idade avançada, manteve mais a aparência do que a força da amizade do príncipe. O mesmo acontecera a Mecenas, pois raramente o destino do poder é duradouro, ou talvez a saciedade tome conta deles, depois que dão tudo, ou destes, quando já nada lhes resta que possam desejar.
Segue-se o quarto consulado de Tibério e o segundo de Druso, notável pelo colegiado de pai e filho. Pois, três anos antes, a mesma honra de Germânico com Tibério não fora agradável ao tio nem ligada por vínculo natural tão estreito. No início desse ano, Tibério, sob pretexto de restabelecer a saúde, retirou-se para a Campânia, preparando aos poucos uma ausência longa e contínua, ou para que Druso, afastado o pai, cumprisse sozinho os deveres do consulado. E aconteceu que um assunto pequeno, transformado em grande disputa, deu ao jovem ocasião de conquistar simpatia. Domício Corbulão, ex-pretor, queixou-se ao senado de que Lúcio Sula, jovem nobre, não lhe cedera o lugar num espetáculo de gladiadores. A favor de Corbulão estavam a idade, o costume dos pais e a preferência dos mais velhos; contra ele se esforçavam Mamerco Escauro, Lúcio Arruncio e outros parentes de Sula. Disputavam com discursos e citavam exemplos dos antepassados que haviam punido com decretos severos a irreverência da juventude, até que Druso falou de modo apto a acalmar os ânimos; e Corbulão recebeu reparação por meio de Mamerco, que era ao mesmo tempo tio e padrasto de Sula e o mais eloquente orador daquela época. O mesmo Corbulão, gritando que muitas estradas pela Itália estavam interrompidas e intransitáveis pela fraude dos empreiteiros e pela negligência dos magistrados, encarregou-se de bom grado da execução dessa tarefa; o que se mostrou não tão útil ao público quanto ruinoso a muitos, contra cujo dinheiro e fama ele se enfurecia com condenações e leilões.
Não muito depois, em carta enviada ao senado, Tibério informou que a África estava de novo agitada por uma incursão de Tacfarinas, e que os senadores deviam escolher, como procônsul, alguém versado na arte militar, de corpo robusto e à altura da guerra. Sexto Pompeu, aproveitando a ocasião para alimentar seu ódio contra Marco Lépido, acusou-o de ser indolente, pobre e indigno de seus antepassados, e por isso digno de ser excluído até do sorteio da Ásia, com a oposição do senado, que considerava Lépido brando, e não covarde, e que sua estreiteza herdada do pai e sua nobreza vivida sem mancha deviam ser tidas por honra, e não por vergonha. Assim, Lépido foi enviado à Ásia, e quanto à África decidiu-se que César escolhesse a quem deveria confiá-la.
Em meio a isso, Severo Cecina propôs que nenhum magistrado a quem coubesse uma província fosse acompanhado pela esposa, repetindo antes longamente como vivera em harmonia com sua esposa, que lhe dera seis filhos, e como observara em casa o que propunha para o público, mantendo-a na Itália, embora ele próprio tivesse cumprido quarenta campanhas em várias províncias. Pois não fora em vão que se decidira, no passado, que as mulheres não fossem levadas aos aliados ou a povos estrangeiros: havia no séquito das mulheres coisas que retardam a paz pelo luxo e a guerra pelo medo, e que transformam uma coluna romana à semelhança de uma marcha bárbara. O sexo não só é fraco e incapaz de esforços, mas, se tem liberdade, é cruel, ambicioso e ávido de poder; circula entre os soldados, tem os centuriões à mão; havia pouco uma mulher presidira ao exercício das coortes e ao desfile das legiões. Que pensassem eles mesmos: quantas vezes alguns são acusados de extorsão, mais coisas são imputadas às esposas; a estas logo se ligam os piores dos provinciais, por estas os negócios são assumidos e resolvidos; cortejam-se as saídas de dois, há dois pretórios, e mais teimosas e desmedidas são as ordens das mulheres, que antes restringidas pelas leis Ópias e outras, agora, soltas dos vínculos, governam as casas, os foros e até os exércitos.
Isso foi ouvido com a aprovação de poucos: a maioria protestava que não havia proposta sobre o assunto e que Cecina não era censor digno de questão tão grave. Logo Valério Messalino, cujo pai era Messala e em quem havia uma imagem da eloquência paterna, respondeu que muito da dureza dos antigos havia mudado para melhor e mais agradável; pois não se cercava a cidade com guerras, como no passado, nem as províncias eram hostis. E poucas coisas se concediam às necessidades das mulheres, que não pesavam nem mesmo aos lares dos cônjuges, muito menos aos aliados; quanto ao resto, tudo era comum com o marido, e nisso não havia nenhum obstáculo à paz. As guerras, claro, deviam ser enfrentadas por homens sem encargos; mas, aos que voltam após o trabalho, que consolo mais honesto que o da esposa? Mas algumas caíram na ambição ou na avareza. E daí? Entre os próprios magistrados, não estavam muitos sujeitos a diversas paixões? Nem por isso, contudo, se deixava de enviar alguém à província. Maridos foram muitas vezes corrompidos pelos vícios das esposas; serão então íntegros todos os celibatários? As leis Ópias agradaram no passado, conforme exigiam as circunstâncias da república; depois algo se afrouxou e abrandou, porque foi conveniente. Em vão se transfere nossa covardia para outros nomes: pois a culpa é do marido, se a mulher passa da medida. Além disso, por causa do ânimo fraco de um ou de outro, mal se arrancam dos maridos as companheiras nas coisas prósperas e adversas. Ao mesmo tempo, um sexo por natureza fraco fica abandonado e exposto ao próprio luxo e aos desejos alheios. Mesmo com a vigilância presente, os casamentos mal se mantêm intactos: que será se, por muitos anos, forem esquecidos à maneira de um divórcio? Que se enfrentassem assim as faltas cometidas alhures, sem esquecer os escândalos da cidade. Druso acrescentou poucas palavras sobre seu próprio matrimônio; pois os príncipes muitas vezes precisam ir às extremidades do império. Quantas vezes o divino Augusto viajara ao Ocidente e ao Oriente acompanhado por Lívia! Ele também partira para a Ilíria e, se conviesse, iria a outros povos, nem sempre de ânimo tranquilo, se fosse separado da esposa caríssima e mãe de tantos filhos comuns. Assim a proposta de Cecina foi rejeitada.
E, na sessão seguinte do senado, Tibério, em carta, censurando indiretamente os senadores por lançarem todos os cuidados sobre o príncipe, indicou Mânio Lépido e Júnio Bleso, dentre os quais se escolhesse o procônsul da África. Então ouviram-se as palavras de ambos: Lépido escusava-se com mais empenho, alegando a saúde do corpo, a idade dos filhos e a filha em idade de casar, e compreendia-se também o que ele calava, que Bleso era tio de Sejano e por isso muito poderoso. Bleso respondeu com aparência de recusa, mas não com a mesma firmeza, e não foi apoiado pelo consenso dos aduladores.
Em seguida revelou-se o que se ocultava em queixas íntimas de muitos. Crescia, com efeito, entre os piores, a liberdade de excitar impunemente injúrias e ódio contra os bons, agarrando-se a uma imagem de César; e até libertos e escravos, quando dirigiam vozes e gestos ameaçadores ao patrono ou ao senhor, eram temidos. Por isso, o senador Caio Céstio expôs que os príncipes eram, de fato, semelhantes aos deuses, mas que nem os deuses ouvem senão as preces justas dos suplicantes, e que ninguém se refugia no Capitólio ou em outros templos da cidade para usar tal abrigo na prática de crimes. As leis estavam abolidas e completamente subvertidas, quando, no foro, no limiar da cúria, Ânia Rufila, a quem ele condenara por fraude diante de um juiz, lhe lançava injúrias e ameaças, sem que ele próprio ousasse recorrer ao direito, por causa da efígie do imperador erguida contra ele. Outros gritavam coisas semelhantes, e alguns ainda mais atrozes, e suplicavam a Druso que desse um exemplo de punição, até que ele mandou que ela fosse trazida, condenada e mantida na prisão pública.
E Considio Equo e Célio Cursor, cavaleiros romanos, foram punidos, por proposta do príncipe e decreto do senado, por terem atacado o pretor Mágio Ceciliano com falsas acusações de lesa-majestade. Ambos os fatos eram atribuídos ao crédito de Druso: por ele, presente na cidade entre as reuniões e conversas das pessoas, a política secreta do pai era suavizada. E nem mesmo o luxo desagradava tanto num jovem: que se inclinasse antes para esse lado, passando o dia em construções e a noite em banquetes, do que, solitário e privado de todos os prazeres, exercesse uma vigilância sombria e maus desígnios.
Pois nem Tibério nem os acusadores se cansavam. E Ancário Prisco acusara Césio Cordo, procônsul de Creta, de extorsão, acrescentando a acusação de lesa-majestade, que era então o complemento de todas as acusações. César retirou Antístio Veter, um dos primeiros homens da Macedônia, absolvido de adultério, censurando os juízes, para responder por lesa-majestade, como turbulento e envolvido nos planos de Rescupóris, quando este, na época em que matou o irmão Cótis, planejara guerra contra nós. Assim, interditou-se a água e o fogo ao réu, e estabeleceu-se que ele fosse mantido numa ilha não acessível nem à Macedônia nem à Trácia. Pois a Trácia, dividido o reino entre Remetalces e os filhos de Cótis, cujo tutor, por causa da infância deles, era Trebeleno Rufo, estava em discórdia, não habituada ao nosso domínio, e culpava tanto Remetalces quanto Trebeleno por deixarem impunes as injúrias dos concidadãos. Os celaletas, os odrusas e os dios, nações poderosas, pegaram em armas, sob chefes diferentes e iguais entre si pela obscuridade; o que foi a causa de não se unirem numa guerra terrível. Uns perturbam a região próxima, outros atravessam o monte Hemo para sublevar os povos distantes; a maioria, e os mais disciplinados, cerca o rei e a cidade de Filipópolis, fundada pelo macedônio Filipe.
Quando isso foi conhecido por Públio Veleio, que comandava o exército mais próximo, ele envia cavaleiros auxiliares e coortes de tropas ligeiras contra os que vagavam pilhando ou em busca de reforços, enquanto ele mesmo conduz o grosso da infantaria para levantar o cerco. E ao mesmo tempo tudo correu bem: massacrados os saqueadores, surgida a discórdia entre os sitiantes, oportuna a investida do rei e a chegada da legião. Não se deveria chamar de batalha ou combate aquilo em que homens semiarmados e dispersos foram trucidados sem sangue nosso.
No mesmo ano, povos das Gálias, por causa do tamanho das dívidas, começaram uma rebelião, cujos instigadores mais ferozes foram Júlio Floro entre os tréveros e Júlio Sacrovir entre os éduos. Ambos tinham nobreza e bons feitos dos antepassados, pelos quais lhes fora antes concedida a cidadania romana, quando isso era raro e prêmio apenas do mérito. Eles, em conversas secretas, reunindo os mais ferozes ou aqueles a quem a miséria e o medo de seus crimes davam a maior necessidade de delinquir, combinaram que Floro sublevaria os belgas e Sacrovir, os gauleses mais próximos. Assim, em assembleias e reuniões, discursavam de modo sedicioso sobre a continuidade dos tributos, o peso dos juros, a crueldade e a soberba dos governantes, e sobre como os soldados estavam descontentes ao saber da morte de Germânico. Era ocasião excelente para recuperar a liberdade, se considerassem como eles próprios estavam prósperos, quão pobre era a Itália, quão pouco belicosa a plebe da cidade, e que nada havia de forte nos exércitos a não ser o que era estrangeiro.
Quase nenhuma comunidade ficou intacta às sementes desse movimento; mas os primeiros a se revoltar foram os andecavos e os turões. Destes, os andecavos foram contidos pelo legado Acílio Aviola, que convocou uma coorte que estava de guarnição em Lugduno. Os turões foram dominados por soldados legionários, que Visélio Varrão, legado da Germânia Inferior, enviara, sob o comando do mesmo Aviola e de alguns chefes das Gálias, que prestaram auxílio para dissimular sua defecção e manifestá-la em momento mais oportuno. Também Sacrovir se destacou, de cabeça descoberta, incitando o combate em favor dos romanos para, como dizia, mostrar seu valor; mas os prisioneiros afirmavam que ele se dera a reconhecer para não ser atingido pelos dardos. Consultado sobre isso, Tibério desprezou a informação e alimentou a guerra com sua hesitação.
Enquanto isso, Floro insistia em seus planos e tentava induzir uma ala de cavaleiros, recrutada entre os tréveros e mantida em nosso serviço e disciplina, a iniciar a guerra com o massacre dos comerciantes romanos; poucos cavaleiros foram corrompidos, mas a maioria permaneceu no dever. Outra multidão de endividados ou clientes pegou em armas e dirigia-se aos desfiladeiros chamados Arduena, quando as legiões, que Visélio e Caio Sílio haviam lançado de ambos os exércitos por caminhos opostos, os detiveram. E Júlio Indo, da mesma cidade, em desavença com Floro e por isso mais ávido de prestar serviço, foi enviado à frente com tropa escolhida e dispersou aquela multidão desordenada. Floro, frustrando os vencedores com esconderijos incertos, por fim, ao ver os soldados que ocupavam as saídas de fuga, matou-se com a própria mão. E esse foi o fim do tumulto dos tréveros.