Anais - Livro III 1
O processo de Pisão, a ascensão de Sejano e a decadência do senado
Sem interromper a travessia do mar de inverno, Agripina chegou à ilha de Corcira, situada em frente ao litoral da Calábria. Ali passou poucos dias para serenar o ânimo, pois estava transtornada pela dor e incapaz de suportá-la. Enquanto isso, ao saberem de sua chegada, todos os amigos mais íntimos e muitos militares, cada um que servira sob o comando de Germânico, e ainda muitos desconhecidos dos municípios vizinhos, parte julgando que era dever para com o príncipe, a maioria seguindo o exemplo daqueles, correram à cidade de Brundísio, que era o porto mais rápido e mais seguro para quem navegava. E logo que a frota foi avistada ao longe, encheram-se não só o porto e a parte do mar mais próxima, mas também as muralhas e os telhados, e todos os pontos de onde se podia avistar mais longe, com uma multidão de pessoas que lamentavam e se perguntavam umas às outras se deviam receber em silêncio ou com alguma palavra a que desembarcava. Não estava ainda bem claro o que convinha à ocasião quando a frota se aproximou aos poucos, com a remada não vigorosa, como é de costume, mas com tudo disposto para a tristeza. Depois que Agripina, com os dois filhos, segurando a urna funerária, desceu do navio e fixou os olhos no chão, foi um só gemido de todos. Não se distinguiam os parentes dos estranhos, nem os prantos dos homens dos das mulheres, a não ser que o séquito de Agripina, esgotado por longo luto, era superado pelos que vinham ao encontro, ainda recentes na dor.
O imperador tinha enviado duas coortes pretorianas, com a ordem de que os magistrados da Calábria, da Apúlia e da Campânia prestassem as últimas honras à memória de seu filho. Por isso os tribunos e centuriões carregavam as cinzas nos ombros; à frente iam os estandartes sem adornos e os feixes voltados para baixo. E sempre que atravessavam as colônias, a plebe de luto e os cavaleiros em trajes de cerimônia queimavam, conforme a riqueza do lugar, vestes, perfumes e os demais ritos fúnebres. Até os habitantes de cidades fora do percurso saíam ao encontro e, erguendo vítimas e altares aos deuses Manes, testemunhavam a dor com lágrimas e clamores. Druso avançou até Tarracina com seu irmão Cláudio e com os filhos de Germânico que estavam em Roma. Os cônsules Marco Valério e Marco Aurélio (pois já tinham assumido o cargo), o senado e grande parte do povo encheram a estrada, dispersos em grupos, cada um chorando à sua maneira. Não havia adulação, pois todos sabiam que Tibério mal conseguia disfarçar a alegria com a morte de Germânico.
Tibério e Augusta não apareceram em público, julgando indigno de sua majestade lamentar-se abertamente, ou então temendo que, se todos os olhos lhes examinassem o rosto, percebessem a falsidade. A mãe, Antônia, não encontro registrada nos historiadores nem na crônica diária dos atos como tendo prestado qualquer honra notável, embora, além de Agripina, Druso e Cláudio, todos os outros parentes estejam nomeados um a um. Talvez estivesse impedida por doença, ou seu ânimo, vencido pelo luto, não suportou a visão da magnitude do mal. Acredito mais facilmente que Tibério e Augusta, que não saíam do palácio, a tenham retido em casa, para que sua dor parecesse igual à dela e para que a avó e o tio dessem a impressão de seguir o exemplo da mãe, ficando reclusos.
O dia em que os restos mortais foram depositados no túmulo de Augusto ora era de silêncio desolador, ora agitado por lamentos. As ruas da cidade estavam cheias, e tochas brilhavam pelo Campo de Marte. Ali os soldados em armas, os magistrados sem seus símbolos de ofício e o povo organizado em tribos clamavam que a república estava arruinada, que não restava esperança alguma, com mais ousadia e franqueza do que se poderia crer de quem se lembrava de seus governantes. Nada, contudo, atingiu Tibério mais fundo do que o entusiasmo do povo a favor de Agripina, a quem chamavam de glória da pátria, único sangue de Augusto, exemplo singular dos tempos antigos, e que, voltando-se para o céu e para os deuses, pediam que sua descendência permanecesse íntegra e sobrevivesse aos perversos.
Houve quem reclamasse a pompa de um funeral público e comparasse com as honras dignas e magníficas que Augusto prestara a Druso, pai de Germânico. "O próprio imperador", diziam, "avançou no mais rigoroso do inverno até Ticino e, não se afastando do corpo, entrou em Roma junto com ele; em torno do leito estavam dispostas as imagens dos Cláudios e dos Júlios; chorou-se no foro, fez-se o elogio diante da tribuna, e acumularam-se todas as honras instituídas pelos antepassados ou inventadas pelos descendentes. A Germânico, no entanto, não couberam sequer as honras costumeiras e devidas a qualquer nobre. Admita-se que o corpo, pela distância das viagens, tenha sido queimado de qualquer modo em terras estrangeiras; mas tanto mais honras se deviam ter prestado depois quanto a sorte negara as primeiras. O irmão não foi ao seu encontro senão a um dia de viagem; o tio, nem mesmo até a porta da cidade. Onde estão aqueles costumes dos antigos, a efígie exposta sobre o leito, os cantos compostos em memória da virtude, os elogios e as lágrimas, ou ao menos a imitação da dor?"
Isso era do conhecimento de Tibério; e, para reprimir os comentários do povo, advertiu por edito que muitos ilustres romanos haviam morrido pela república, mas nenhum fora celebrado com tão ardente saudade. Isso era honroso tanto para ele quanto para todos, contanto que se observasse a medida; pois não convinham aos homens principais e a um povo imperial as mesmas coisas que às casas e às cidades modestas. O luto convinha à dor recente e os consolos vinham da tristeza; mas era preciso agora voltar o ânimo à firmeza, assim como antes o divino Júlio, perdida a única filha, e o divino Augusto, arrebatados os netos, afastaram a tristeza. Não havia necessidade de exemplos mais antigos, de quantas vezes o povo romano suportou com constância derrotas de exércitos, a morte de generais, o desaparecimento total de famílias nobres. Os príncipes são mortais, a república é eterna. Portanto, que retomassem suas atividades habituais e, como estava próximo o espetáculo dos jogos megalésios, que retomassem também os prazeres.
Encerrada então a suspensão dos negócios públicos, voltou-se às atividades, e Druso partiu para os exércitos da Ilíria, com os ânimos de todos exaltados na busca de vingança contra Pisão, e com frequentes queixas de que ele andava errante, entretanto, pelas regiões aprazíveis da Ásia e da Acaia, e com uma demora arrogante e ardilosa destruía as provas de seus crimes. Pois corria o boato de que Martina, célebre por seus envenenamentos e enviada, como eu disse, por Cneu Sêncio, morrera de repente em Brundísio, que veneno estivera escondido num nó de seus cabelos, e que não se encontrara no corpo nenhum sinal de morte provocada.
Pisão, por sua vez, enviou o filho à frente para Roma, com instruções para abrandar o príncipe, e dirigiu-se a Druso, esperando encontrá-lo não tanto irritado pela morte do irmão quanto mais favorável a si pela remoção de um rival. Tibério, para mostrar a imparcialidade de seu julgamento, recebeu o jovem com cordialidade e o cumulou da generosidade que costumava dispensar aos filhos das famílias nobres. Druso respondeu a Pisão que, se fosse verdade o que se dizia, ele seria o primeiro na dor; mas que preferia crer que eram falsidades sem fundamento e que a morte de Germânico não precisava ser a ruína de ninguém. Disse isso abertamente, evitando todo segredo. Não se duvidava de que essas palavras lhe tinham sido prescritas por Tibério, pois um jovem em geral simples e franco recorria agora a artifícios próprios da velhice.
Pisão, depois de atravessar o mar da Dalmácia e deixar os navios em Âncona, foi pelo Piceno e logo pela Via Flamínia, onde alcançou uma legião que vinha da Panônia para Roma e depois seria conduzida para guarnecer a África. Correu o boato de que ele, durante a marcha e o caminho, mostrara-se com frequência aos soldados. A partir de Nárnia, para evitar suspeitas ou porque os planos dos temerosos são incertos, navegou pelo rio Nar e logo pelo Tibre, e aumentou a ira do povo, porque atracou o navio junto ao túmulo dos Césares, e em pleno dia e numa margem cheia de gente, ele próprio com grande cortejo de clientes, e Plancina com um séquito de mulheres, avançaram com semblantes alegres. Entre os estímulos do ódio esteve sua casa que dominava o foro, enfeitada de modo festivo, e o banquete e os festins de que, pela frequência do lugar, nada ficava oculto.
No dia seguinte, Fulcínio Trião pediu aos cônsules licença para acusar Pisão. Contra ele insistiram Vitélio, Verânio e os demais companheiros de Germânico, alegando que esse não era papel de Trião e que eles próprios apresentariam, não como acusadores, mas como informantes e testemunhas dos fatos, as instruções de Germânico. Trião, abandonando a acusação por esse ponto, conseguiu permissão para acusar a vida anterior de Pisão, e pediu-se ao príncipe que assumisse a investigação. Nem mesmo o acusado recusava isso, pois temia a inclinação do povo e do senado, ao passo que Tibério, ele sabia, era firme em desprezar boatos e estava envolvido na cumplicidade da mãe. Além disso, a verdade, ou o que fosse tomado de forma maldosa, se distinguiria mais facilmente diante de um só juiz, enquanto muitos se deixavam levar pelo ódio e pela inveja. Tibério não ignorava a dificuldade da investigação nem os boatos que o atingiam. Por isso, chamando alguns poucos amigos íntimos, ouviu as ameaças dos acusadores e, de outro lado, as súplicas do acusado, e remeteu o caso inteiro ao senado.
Enquanto isso, Druso, regressando do Ilírico, embora o senado tivesse decretado que entrasse em ovação pela submissão de Marobóduo e pelos feitos do verão anterior, adiou a honra e entrou em Roma. Em seguida, o réu procurou como advogados Lúcio Arrúncio, Públio Vinício, Asínio Galo, Eserníno Marcelo e Sexto Pompeu, e, como estes se escusaram por motivos diversos, Mânio Lépido, Lúcio Pisão e Livinéio Régulo assumiram sua defesa, enquanto a cidade inteira se agitava: quanta lealdade mostrariam os amigos de Germânico, em que se apoiava a confiança do réu, se Tibério conseguiria conter e reprimir os próprios sentimentos. Nunca o povo esteve mais atento, nem se permitiu maior liberdade de palavras secretas contra o príncipe ou de um silêncio cheio de suspeita.
No dia em que o senado se reuniu, o imperador proferiu um discurso de calculada moderação. Disse que Pisão fora legado e amigo de seu pai, e que ele próprio o designara, por iniciativa do senado, como auxiliar de Germânico na administração do Oriente. Se ali ele havia exasperado o jovem com a obstinação e os conflitos, e se alegrara com sua morte, ou se a causara por crime, isso devia ser julgado com ânimo imparcial. "Pois se ele, como legado, ultrapassou os limites do dever e abandonou a obediência ao comandante, e se alegrou com a morte dele e com meu luto, eu o odiarei e o afastarei de minha casa, e vingarei as inimizades privadas não com o poder de príncipe; mas se se descobre um crime que se deva punir, qualquer que seja o morto, então dai justos consolos aos filhos de Germânico e a nós, seus pais. Ao mesmo tempo ponderai isto: se Pisão conduziu os exércitos de modo turbulento e sedicioso, se buscou por intriga o apoio dos soldados, se reaver a província pelas armas, ou se os acusadores difundiram essas coisas falsas com exagero; pois dos zelos excessivos deles eu, com razão, me indigno. Com efeito, de que serviu desnudar o corpo e permitir que fosse manuseado aos olhos do povo, e espalhar até entre estrangeiros que ele fora morto por veneno, se essas coisas ainda são incertas e devem ser investigadas? Choro, sim, meu filho e sempre o chorarei; mas não impeço o réu de apresentar tudo que possa aliviar sua inocência ou, se houve alguma injustiça de Germânico, possa prová-la, e vos rogo que, por estar minha dor ligada à causa, não tomeis as acusações lançadas como já comprovadas. Se a alguns o parentesco de sangue ou a própria lealdade fez advogados, ajudai o que corre perigo, cada um quanto vale em eloquência e diligência; ao mesmo esforço e à mesma constância exorto os acusadores. Apenas nisto colocaremos Germânico acima das leis: que se investigue sua morte na cúria e não no foro, diante do senado e não diante dos juízes; quanto ao mais, que se trate com igual moderação. Que ninguém atente para as lágrimas de Druso, nem para meu luto, nem para o que se inventa de adverso contra nós."
Decidiu-se então conceder dois dias para a apresentação das acusações e, depois de um intervalo de seis dias, três dias para que o réu se defendesse. Fulcínio começou então com acusações antigas e vazias: que Pisão tinha governado a Hispânia com ambição e avareza, coisa que, se provada, não prejudicaria o réu, caso ele se justificasse quanto aos fatos recentes, nem, se refutada, garantiria sua absolvição, caso fosse condenado por crimes maiores. Depois dele, Servéio, Verânio e Vitélio, com igual empenho, e Vitélio com muita eloquência, acusaram Pisão de, por ódio a Germânico e por desejo de revolução, ter corrompido a massa dos soldados com licenciosidade e injúrias aos aliados, a ponto de ser chamado pelos piores deles de "pai das legiões", enquanto, por outro lado, se mostrara cruel com os melhores, sobretudo com os companheiros e amigos de Germânico; por fim, que ele próprio o tinha eliminado com feitiçarias e veneno, daí os ritos e os sacrifícios abomináveis dele e de Plancina, o ataque armado à república, e que só fora levado a julgamento depois de derrotado em batalha.
A defesa fracassou em todos os pontos menos um, pois ele não podia negar nem o aliciamento dos soldados, nem que a província ficara à mercê dos piores, nem mesmo os insultos contra o comandante. Só na acusação de veneno pareceu ter-se justificado, acusação que nem mesmo os acusadores sustentavam suficientemente, alegando que, num banquete de Germânico, em que Pisão reclinava acima dele, os alimentos foram envenenados por suas mãos. De fato, parecia absurdo que ele tivesse ousado tal coisa entre os criados alheios, à vista de tantos presentes e diante do próprio Germânico; e o réu oferecia seus escravos à tortura e exigia que se interrogassem os criados. Mas os juízes eram implacáveis por razões diversas: o imperador, por causa da guerra levada à província; o senado, por nunca acreditar de todo que Germânico tivesse morrido sem traição. Quiseram exigir por escrito que se mostrassem as ordens, coisa que tanto Tibério quanto Pisão recusavam. Ao mesmo tempo, ouviam-se diante da cúria as vozes do povo, que ameaçava não conter as mãos se ele escapasse à sentença dos senadores. Já tinham arrastado as estátuas de Pisão para as escadas Gemônias e as despedaçavam, quando, por ordem do príncipe, foram protegidas e recolocadas. Foi então posto numa liteira e conduzido por um tribuno de uma coorte pretoriana, sem que se soubesse, segundo boatos diversos, se este o seguia como guarda de sua segurança ou como executor de sua morte.
Igual era o ódio contra Plancina, maior o seu favor; e por isso se considerava duvidoso quanto o imperador poderia agir contra ela. Ela própria, enquanto as esperanças de Pisão estavam em suspenso, prometia ser companheira de qualquer sorte e, se assim o exigisse, partilhar o seu fim; mas, logo que obteve o perdão pelas súplicas secretas da Augusta, começou aos poucos a separar-se do marido e a apartar sua defesa. Quando o réu compreendeu que isso lhe era fatal, hesitando se ainda devia insistir, por incentivo dos filhos endureceu o ânimo e entrou de novo no senado; e, suportando a acusação renovada, as vozes hostis dos senadores e tudo o que era adverso e cruel, com nada se aterrou mais do que ao ver Tibério sem compaixão, sem ira, obstinado e fechado, para que nenhum sentimento o atravessasse. Levado de volta para casa, como se preparasse a defesa para o dia seguinte, escreveu poucas palavras, selou-as e entregou-as a um liberto; depois cuidou do corpo como de costume. Então, já bem entrada a noite, tendo a esposa saído do quarto, mandou fechar as portas; e ao raiar do dia foi encontrado com a garganta cortada e uma espada caída no chão.
Lembro-me de ter ouvido de homens mais velhos que muitas vezes se via nas mãos de Pisão um documento que ele próprio nunca divulgou, mas que seus amigos repetidamente afirmavam conter uma carta de Tibério e ordens contra Germânico, e que ele estava decidido a apresentá-lo diante dos senadores e acusar o príncipe, se não tivesse sido enganado por Sejano com promessas vãs; e que ele não morreu por vontade própria, mas pela mão de um assassino enviado. De nenhuma das duas coisas eu daria garantia, mas tampouco devia ocultar o que foi relatado por quem viveu até minha juventude. O imperador, compondo o rosto em tristeza, queixou-se diante do senado de que se buscara com tal morte lançar ódio sobre ele, e indagou com perguntas repetidas como Pisão passara seu último dia e sua última noite. E como o homem que respondia o fazia em grande parte com prudência, em alguns pontos com pouca cautela, leu um bilhete escrito por Pisão mais ou menos nestes termos: "Esmagado por uma conspiração de meus inimigos e pelo ódio de uma acusação falsa, já que para a verdade e a minha inocência não há lugar nenhum, tomo os deuses imortais por testemunhas de que vivi, César, com lealdade para contigo e sem outra devoção senão para com tua mãe; e vos peço que cuideis de meus filhos, dos quais Cneu Pisão de modo algum se associou à minha sorte, qualquer que tenha sido, pois passou todo esse tempo em Roma, enquanto Marco Pisão me dissuadiu de voltar à Síria. Quem dera eu tivesse cedido ao filho jovem em vez de ele ao pai idoso! Por isso peço com mais empenho que o inocente não pague a pena por minha culpa. Por quarenta e cinco anos de obediência, pela colegialidade no consulado, eu, que um dia fui estimado pelo divino Augusto, teu pai, e sou teu amigo, e que nada mais pedirei depois disto, peço a salvação de meu infeliz filho." Sobre Plancina nada acrescentou.
Depois disso, Tibério absolveu o jovem Pisão da acusação de guerra civil, pois um filho não podia recusar as ordens do pai, ao mesmo tempo compadecendo-se da nobreza da casa e da queda terrível até do próprio Pisão, por mais que a tivesse merecido. Em favor de Plancina discursou com vergonha e constrangimento, alegando as súplicas da mãe, contra quem as queixas secretas de todos os homens de bem cresciam cada vez mais. "Então cabia à avó", diziam, "olhar de frente a assassina do neto, conversar com ela e arrancá-la do senado. O que as leis garantem a todos os cidadãos só a Germânico foi negado. As vozes de Vitélio e Verânio choraram por um César, enquanto o imperador e Augusta defenderam Plancina. Que ela vire então os venenos e as artes tão bem-sucedidas contra Agripina e seus filhos, e que essa exemplar avó e esse tio se fartem com o sangue de uma casa infelicíssima." Dois dias se gastaram nessa imagem de julgamento, com Tibério insistindo para que os filhos de Pisão protegessem a mãe. E como os acusadores e as testemunhas discursavam em disputa e ninguém respondia, crescia mais a compaixão do que o ódio. O primeiro a ser chamado a dar seu voto, o cônsul Aurélio Cota (pois, quando o César apresentava a questão, até os magistrados cumpriam essa função), opinou que o nome de Pisão fosse apagado dos registros, que parte de seus bens fosse confiscada e parte cedida a seu filho Cneu Pisão, que deveria mudar o prenome; que Marco Pisão, despojado da dignidade e recebendo cinco milhões de sestércios, fosse banido por dez anos, sendo poupada a vida de Plancina em consideração às súplicas de Augusta.
Muito dessa sentença foi abrandado pelo príncipe: que o nome de Pisão não fosse retirado dos registros, já que os de Marco Antônio, que fizera guerra à pátria, e de Iulo Antônio, que violara a casa de Augusto, ainda permaneciam. E livrou Marco Pisão da desonra e lhe devolveu os bens paternos, sendo bastante firme, como tantas vezes mencionei, contra o dinheiro, e mais brando agora, por vergonha da absolvição de Plancina. E quando Valério Messalino propôs a colocação de uma estátua de ouro no templo de Marte Vingador, e Cecina Severo a de um altar à Vingança, ele proibiu, dizendo que tais monumentos consagravam vitórias sobre estrangeiros, mas que os males domésticos deviam ser cobertos por um luto silencioso. Messalino tinha acrescentado que se rendessem graças a Tibério, a Augusta, a Antônia, a Agripina e a Druso por terem vingado Germânico, e omitira a menção a Cláudio. Lúcio Asprenas perguntou então a Messalino, diante do senado, se a omissão fora intencional; e só então o nome de Cláudio foi acrescentado. Quanto mais reflito sobre os fatos recentes ou antigos, mais me impressiona, em todos os assuntos, o escárnio que paira sobre os planos humanos. Pois, pela fama, pela expectativa e pela veneração, todos eram apontados para o império, menos justamente aquele que a fortuna mantinha oculto como futuro príncipe.
Poucos dias depois, o imperador propôs ao senado conferir sacerdócios a Vitélio, Verânio e Servéio. A Fulcínio prometeu apoio na busca de honras, mas advertiu-o a não arruinar sua eloquência com a violência. Esse foi o fim da vingança pela morte de Germânico, assunto sobre o qual correram boatos contraditórios não só entre os homens daquele tempo, mas também nos tempos seguintes. A tal ponto os maiores acontecimentos são duvidosos, pois uns tomam por certo qualquer coisa que ouçam, de qualquer fonte, e outros invertem a verdade em seu contrário, e ambos os erros crescem com a posteridade. Druso, por sua vez, saiu de Roma para retomar os auspícios e logo entrou em ovação. Poucos dias depois, morreu sua mãe, Vipsânia, a única de todos os filhos de Agripa a ter uma morte tranquila, pois quanto aos demais é certo que morreram pela espada, ou se creu que por veneno ou por fome.
Nesse mesmo ano, Tacfarinas, que no verão anterior fora derrotado por Camilo, como relatei, renovou a guerra na África, primeiro com pilhagens dispersas e impunes pela rapidez, depois destruindo aldeias e levando pesados despojos; por fim, não muito longe do rio Pagida, cercou uma coorte romana. Comandava o forte Décrio, ativo na ação, experiente na milícia, que julgava aquele cerco uma desonra. Tendo exortado os soldados, para dar oportunidade de combate em campo aberto, dispôs a linha de batalha diante do acampamento. E, repelida a coorte no primeiro ataque, lança-se decidido entre os dardos ao encontro dos fugitivos, repreende os porta-estandartes por um soldado romano voltar as costas a desordeiros e desertores; ao mesmo tempo recebe ferimentos e, embora atravessado num olho, manteve o rosto voltado contra o inimigo e não abandonou o combate até cair, desamparado pelos seus.
Quando isso chegou ao conhecimento de Lúcio Aprônio (pois sucedera a Camilo), mais inquieto com a desonra dos seus do que com a glória do inimigo, recorreu a um feito raro naquele tempo e tirado da antiga tradição: matou a pauladas, escolhidos por sorteio, um a cada dez da coorte desonrada. E tanto se conseguiu com essa severidade, que um destacamento de veteranos, não mais de quinhentos em número, derrotou as mesmas tropas de Tacfarinas que haviam atacado um posto chamado Tala. Nessa batalha, Rufo Hélvio, simples soldado, obteve a honra de ter salvado um cidadão, e foi recompensado por Aprônio com colares e uma lança. A esses o César acrescentou a coroa cívica, queixando-se, mais por desgosto do que ofendido, de que Aprônio não a houvesse concedido também ele, no exercício de seu direito de procônsul. Tacfarinas, contudo, abalados os númidas e avessos aos cercos, espalhou a guerra, recuando quando pressionado e voltando de novo pela retaguarda. E enquanto essa foi a tática do bárbaro, zombava impunemente do romano frustrado e exausto; mas, depois que se desviou para os lugares litorâneos, preso aos despojos, fixou-se num acampamento permanente, e Aprônio Cesiano, enviado pelo pai com cavalaria e coortes auxiliares, às quais acrescentara os mais velozes das legiões, travou um combate bem-sucedido contra os númidas e os expulsou para o deserto.