Anais - Livro III 4
O processo de Pisão, a ascensão de Sejano e a decadência do senado
Ouviram-se também as embaixadas de outras cidades. Cansados de tamanha quantidade delas, e porque se disputava com paixão partidária, os senadores permitiram aos cônsules que examinassem cada título e, se algum abuso estivesse envolvido, levassem a questão inteira de novo ao senado. Além das cidades que mencionei, os cônsules relataram que em Pérgamo se comprovara o asilo de Esculápio, mas que as demais se apoiavam em origens obscurecidas pela antiguidade. Os de Esmirna alegavam um oráculo de Apolo, por cuja ordem teriam dedicado um templo a Vênus Estratonícide; os de Tenos invocavam outro oráculo do mesmo deus, pelo qual foram mandados consagrar uma estátua e um santuário a Netuno. Os de Sardes apresentavam algo mais recente: era doação de Alexandre, o vencedor. Os de Mileto não menos se apoiavam no rei Dario; mas em ambos os casos o culto era de Diana ou de Apolo. Pediam o mesmo privilégio os cretenses, para uma estátua do divino Augusto. Foram feitos decretos do senado que, com muita honra, ainda assim fixavam limites, e ordenou-se que os próprios suplicantes afixassem tábuas de bronze nos templos, para guardar a memória sagrada, e que, sob a aparência de religião, não caíssem em ambições egoístas.
Por esse mesmo tempo, uma doença grave de Júlia Augusta forçou o príncipe a apressar seu retorno à cidade, pois até então havia entre mãe e filho uma concórdia genuína, ou então ódios bem ocultos. Não muito antes, quando Júlia dedicava perto do teatro de Marcelo uma estátua ao divino Augusto, inscrevera o nome de Tibério abaixo do seu, e acreditava-se que ele, tomando isso como inferior à dignidade do príncipe, o tinha guardado com ofensa grave e dissimulada. Mas então o senado decretou súplicas aos deuses e os Grandes Jogos, que seriam celebrados pelos pontífices, áugures, pelo colégio dos quinze e pelo dos sete, junto com a confraria dos Augustais. Lúcio Aprônio propôs que os feciais também presidissem esses jogos. César opôs-se, distinguindo o direito próprio de cada sacerdócio e citando exemplos: nunca os feciais tinham tido tal honra. Os Augustais foram incluídos porque o sacerdócio era próprio daquela família por quem se cumpriam os votos.
Não me propus a expor todas as moções, mas só as que se destacaram pela excelência ou se notabilizaram pela infâmia, pois considero ser este o dever supremo da história: que as virtudes não fiquem silenciadas e que, para as palavras e atos perversos, haja o medo da reprovação da posteridade e da infâmia. Aliás, aqueles tempos foram tão corrompidos e aviltados pela adulação que não só os primeiros da cidade, que tinham de proteger sua glória com obséquios, mas todos os ex-cônsules, grande parte dos que haviam exercido a pretura e até muitos senadores de baixa categoria se levantavam em rivalidade para propor moções torpes e excessivas. Conta a tradição que Tibério, sempre que saía da cúria, costumava dizer em grego algo assim: 'Ó homens prontos para a servidão!' Claramente, até ele, que não queria a liberdade pública, sentia repugnância por aquela paciência tão abjeta dos que se faziam escravos.
Aos poucos, passaram então das indecências às hostilidades. Caio Silano, procônsul da Ásia, acusado de extorsão pelos aliados, foi atacado ao mesmo tempo por Mamerco Escauro, dos ex-cônsules, por Júnio Otão, pretor, e por Bruttédio Níger, edil, que lhe imputaram ter violado a divindade de Augusto e desprezado a majestade de Tibério. Mamerco lançava exemplos antigos: Lúcio Cota acusado por Cipião Africano, Sérvio Galba por Catão, o Censor, Públio Rutílio por Marco Escauro. Como se Cipião e Catão vingassem tais crimes, ou aquele Escauro, cujo bisneto, vergonha dos antepassados, este Mamerco desonrava com seu ofício infame. Júnio Otão tivera por velha profissão dirigir uma escola de primeiras letras; depois, feito senador pelo poder de Sejano, manchava com audácias descaradas seus começos obscuros. A Bruttédio, rico em qualidades honrosas e que, se seguisse o caminho reto, chegaria a tudo o que há de mais ilustre, a pressa o aguilhoava, enquanto ele se preparava para ultrapassar os iguais, depois os superiores, por fim suas próprias esperanças. Isso arruinou também muitos homens bons que, desprezando o que é lento mas seguro, se apressam por sucessos prematuros, ainda que à custa da ruína.
Aumentaram o número dos acusadores Gélio Publícola e Marco Pacônio, um questor de Silano, o outro seu legado. Não se duvidava que o réu fosse culpado de crueldade e de extorsão de dinheiro; mas acumulavam-se muitas acusações perigosas até para um inocente, pois, além de tantos senadores adversos, ele tinha de responder sozinho aos oradores mais eloquentes de toda a Ásia, escolhidos justamente para acusar, sem prática na arte de falar, e sob o próprio temor que enfraquece até a eloquência exercitada, enquanto Tibério não se continha em pressioná-lo com a voz e o olhar, ele mesmo o interrogando sem cessar, sem que se pudesse refutar ou esquivar, e muitas vezes era preciso até confessar, para que as perguntas não tivessem sido feitas em vão. Também os escravos de Silano foram comprados pelo agente público para serem interrogados sob tortura. E, para que nenhum dos seus o ajudasse no perigo, juntavam-se acusações de traição, um vínculo e uma necessidade de calar. Assim, depois de pedir um intervalo de poucos dias, ele abandonou a própria defesa, ousando enviar a César um memorial em que misturava censura e súplicas.
Tibério, para que o que preparava contra Silano fosse aceito de modo mais escusável sob a forma de exemplo, mandou ler a acusação do divino Augusto contra Voleso Messala, também procônsul da Ásia, e o decreto do senado contra ele. Em seguida pediu o parecer de Lúcio Pisão. Este, após muito louvar a clemência do príncipe, sentenciou que se deveria interditar a Silano a água e o fogo e relegá-lo à ilha de Giaro. Os demais concordaram, exceto Cneu Lêntulo, que, com a anuência de Tibério, propôs que os bens maternos de Silano fossem separados, já que era filho de Átia, e devolvidos ao filho.
Mas Cornélio Dolabela, levando a adulação ainda mais longe, depois de censurar os costumes de Caio Silano, acrescentou que ninguém de vida desonrosa e coberto de infâmia recebesse uma província por sorteio, e que isso o príncipe julgasse. Pois as leis punem os crimes cometidos: quanto mais brando para os próprios magistrados, melhor para os aliados, seria prevenir que se pecasse? Contra isso discorreu César: não lhe eram desconhecidas as coisas que se diziam de Silano, mas não se deve decidir por rumor. Muitos nas províncias agiram ao contrário do que dele se esperava ou temia; alguns se erguem a coisas melhores pela grandeza das responsabilidades, outros se embotam. O príncipe não pode abranger tudo com seu conhecimento, nem convém que seja arrastado pela ambição alheia. Por isso as leis se estabelecem sobre fatos, porque o futuro é incerto. Assim instituíram os antepassados: que, havendo primeiro o delito, as penas seguissem. Não revertam o que foi sabiamente descoberto e sempre aprovado: bastam os encargos aos príncipes, basta também o poder. Os direitos diminuem sempre que cresce a autoridade, e não se deve usar o império onde se pode agir pelas leis. Quanto mais raro era em Tibério tal apreço popular, com tanto mais alegre ânimo foi recebido. E ele, prudente em moderar quando não impelido pela própria ira, acrescentou que Giaro era uma ilha inóspita e sem habitação humana: que concedessem à família Júnia e a um homem antes da mesma ordem que se retirasse antes para Citno. Isso, acrescentou, pedia também Torquata, irmã de Silano, virgem de antiga santidade. Sobre esse parecer fez-se a votação.
Depois foram ouvidos os de Cirene e, com a acusação de Ancário Prisco, Césio Cordo foi condenado por extorsão. A Lúcio Ênio, cavaleiro romano, acusado de traição por ter convertido uma efígie do príncipe em prata de uso comum, César proibiu que fosse recebido entre os réus, com a oposição aberta de Atéio Capitão, como que em nome da liberdade. Pois não se deveria, dizia ele, arrancar dos senadores o poder de decidir, nem deixar impune tamanho malefício. Que o príncipe fosse lento diante da própria dor; quanto às injúrias à república, que não as relevasse com generosidade. Tibério entendeu isso conforme realmente era, mais do que pelas palavras com que se dizia, e persistiu em vetar. Capitão ficou mais marcado pela infâmia, porque, conhecedor do direito humano e divino, desonrara uma carreira pública brilhante e suas boas qualidades privadas.
Surgiu depois uma questão religiosa: em que templo se deveria colocar a oferenda que os cavaleiros romanos haviam prometido à Fortuna Equestre pela saúde de Augusta. Pois, embora houvesse na cidade muitos santuários dessa deusa, nenhum tinha tal sobrenome. Descobriu-se que havia em Âncio um templo assim chamado, e que todas as cerimônias nas cidades da Itália, os templos e as imagens dos deuses estavam sob a jurisdição e a autoridade de Roma. Assim, a oferenda foi colocada em Âncio. E, já que se tratava de assuntos religiosos, César apresentou a resposta antes adiada a Sérvio Maluginense, flâmine Dial, e leu o decreto dos pontífices: sempre que a doença atacasse o flâmine Dial, ele poderia, com a permissão do pontífice máximo, ausentar-se por mais de duas noites, contanto que não fosse nos dias de sacrifício público nem mais de duas vezes no mesmo ano. Essas regras, estabelecidas pelo príncipe Augusto, mostravam bem que aos flâmines Diais não se concedia ausência de um ano nem a administração de províncias. Citava-se também o exemplo de Lúcio Metelo, pontífice máximo, que retivera o flâmine Aulo Postúmio. Assim, a sorte da Ásia recaiu sobre o ex-cônsul mais próximo de Maluginense em antiguidade.
Por esses mesmos dias, Lépido pediu ao senado licença para restaurar e ornamentar, com o próprio dinheiro, a basílica de Paulo, monumento da família Emília. Ainda existia então o costume da munificência pública; nem Augusto impedira que Tauro, Filipe e Balbo aplicassem os despojos do inimigo ou as riquezas abundantes em adornar a cidade e na glória da posteridade. Seguindo esse exemplo, Lépido, embora de fortuna modesta, renovou o esplendor dos antepassados. Mas o teatro de Pompeu, consumido por um incêndio fortuito, César prometeu reconstruir, porque ninguém da família era capaz de restaurá-lo, mantido contudo o nome de Pompeu. Ao mesmo tempo, exaltou Sejano com louvores, como se pelo trabalho e vigilância dele tamanha força das chamas tivesse ficado contida na destruição de um só edifício; e os senadores decretaram uma estátua a Sejano, a ser colocada junto ao teatro de Pompeu. E não muito depois, ao honrar Júnio Bleso, procônsul da África, com as insígnias triunfais, César disse que o fazia em honra de Sejano, de quem Bleso era tio. Ainda assim, os feitos de Bleso foram dignos de tal honra.
Pois Tacfarinas, embora muitas vezes repelido, tendo recomposto suas forças no interior da África, chegara a tal arrogância que enviou embaixadores a Tibério, exigindo por conta própria uma sede para si e seu exército, ou então ameaçando com guerra interminável. Dizem que nunca César se doeu mais por afronta a si e ao povo romano do que pelo fato de um desertor e salteador agir como inimigo regular. Nem mesmo a Espártaco, depois de tantas derrotas de exércitos consulares e de queimar impunemente a Itália, embora a república vacilasse sob as imensas guerras de Sertório e de Mitridates, se concedeu que fosse recebido sob acordo de fidelidade; muito menos, no auge mais glorioso do povo romano, um ladrão como Tacfarinas seria comprado com a paz e a concessão de terras. Ele encarregou Bleso de atrair os demais com a esperança de depor as armas sem castigo, mas de capturar o próprio chefe por qualquer meio. E muitos foram acolhidos por esse perdão. Logo se combateram as artes de Tacfarinas de modo não muito diferente.
Pois, como ele era inferior em força militar mas melhor em pilhar, atacava e escapava em vários bandos e ao mesmo tempo armava emboscadas, prepararam-se três incursões e outras tantas colunas. Uma delas, comandada pelo legado Cornélio Cipião, ficou onde havia pilhagem contra os leptitanos e refúgio entre os garamantes. Por outro lado, para que as aldeias dos cirtenses não fossem saqueadas impunemente, o filho de Bleso conduziu uma força própria; no meio, com tropas escolhidas, o próprio general, instalando fortins e fortificações em pontos adequados, tornara tudo apertado e perigoso para os inimigos, pois, para onde quer que se voltassem, alguma parte do soldado romano estava à frente, no flanco e muitas vezes na retaguarda; e muitos foram assim mortos ou cercados. Então dividiu o exército tripartido em mais destacamentos e pôs à frente centuriões de valor provado. E não retirou as tropas ao fim do verão, como era costume, nem as alojou em quartéis de inverno na velha província, mas, como se estivesse no limiar da guerra, com os fortins dispostos, por meio de tropas ligeiras e conhecedoras dos desertos, fazia recuar Tacfarinas, que mudava de acampamento em acampamento, até que, capturado o irmão dele, retornou, embora mais cedo do que convinha aos aliados, deixando para trás aqueles por quem a guerra renasceria. Mas Tibério, interpretando-a como concluída, concedeu também a Bleso que fosse saudado imperador pelas legiões, antiga honra para com os generais que, bem conduzida a república, eram aclamados pela alegria e impulso do exército vitorioso; e havia vários imperadores ao mesmo tempo, sem superioridade sobre os demais. Augusto concedera essa palavra a alguns, e então Tibério a deu a Bleso pela última vez.
Morreram naquele ano homens ilustres: Asínio Saloníno, distinto por ter como avós Marco Agripa e Asínio Polião, irmão de Druso e destinado a casar com a neta de César; e Capitão Atéio, de quem falei, que alcançou lugar de destaque na cidade por seus estudos de direito civil, embora seu avô fosse centurião sob Sula e seu pai, de categoria pretoriana. Augusto acelerara seu consulado para que, pela dignidade dessa magistratura, ele se sobrepusesse a Labeão Antístio, que sobressaía nas mesmas artes. Pois aquela época produziu ao mesmo tempo dois ornamentos da paz: mas Labeão, de liberdade incorrupta e por isso de fama mais celebrada, e a submissão de Capitão era mais aprovada pelos que dominavam. Para um, ter ficado preso à pretura ganhava recomendação da injustiça sofrida; para o outro, ter alcançado o consulado fazia nascer o ódio da inveja.
E Júnia, sobrinha de Catão, esposa de Caio Cássio e irmã de Marco Bruto, completou seu último dia no sexagésimo quarto ano após a batalha de Filipos. Seu testamento foi muito comentado entre o povo, porque, possuindo grandes riquezas e tendo nomeado com honra quase todos os nobres, omitiu César. Isso foi tomado com civilidade, e ele não impediu que o funeral fosse honrado com um elogio diante da tribuna e com as demais solenidades. Foram levadas à frente as imagens de vinte famílias ilustríssimas: os Mânlios, os Quíncios e outros nomes da mesma nobreza. Mas brilhavam acima de todas Cássio e Bruto, justamente porque suas efígies não eram exibidas.