Anais - Livro III 3
O processo de Pisão, a ascensão de Sejano e a decadência do senado
Entre os éduos surgiu uma agitação mais grave, na medida em que a cidade era mais rica e o reforço para reprimi-la estava distante. Sacrovir, com coortes armadas, ocupara Augustoduno, a capital do povo, junto com a mais nobre juventude da Gália, que ali se dedicava aos estudos liberais; com esse penhor ele pretendia atrair os pais e parentes desses jovens à sua causa. Ao mesmo tempo, distribuiu à mocidade armas fabricadas em segredo. Eram quarenta mil; a quinta parte deles tinha armamento de legionário, os demais portavam venábulos, facas e outras armas próprias dos caçadores. Somaram-se a eles escravos destinados à gladiatura, cobertos, ao modo do povo, por uma armadura completa de ferro: chamam-nos cruppellários, inábeis para desferir golpes, mas impenetráveis para recebê-los. Essas tropas cresciam com o apoio das cidades vizinhas, ainda não numa adesão declarada, mas com zelo individual de cada um, e também por causa da rivalidade entre os generais romanos, dois dos quais reivindicavam a guerra para si. Logo Varrão, debilitado pela velhice, cedeu o lugar a Sílio, que estava no vigor da idade.
Em Roma, entretanto, diziam que não só os tréveros e os éduos, mas sessenta e quatro cidades da Gália haviam se revoltado, que os germanos tinham sido tomados como aliados e que as Espanhas estavam vacilantes; tudo, como é próprio do boato, era acreditado em proporções maiores. Os melhores cidadãos lamentavam, preocupados com a república; muitos, por ódio ao presente e desejo de mudança, regozijavam-se até com os próprios perigos e censuravam Tibério por, em meio a tamanha convulsão, gastar seu empenho com as denúncias dos delatores. "Seria Sacrovir também acusado de lesa-majestade no senado? Surgiram enfim homens que contêm com as armas as cartas sangrentas. Até a guerra é uma boa troca por uma paz miserável." Tanto mais empenhadamente Tibério se compôs numa atitude de despreocupação, sem mudar de lugar nem de semblante, mas agindo como de costume durante aqueles dias, fosse pela profundeza de sua reserva, fosse porque verificara que os fatos eram moderados e mais leves do que o boato divulgava.
Enquanto isso Sílio, avançando com duas legiões, enviou à frente uma força auxiliar e devastou os distritos dos séquanos que, situados na extremidade do território e limítrofes dos éduos, estavam associados a eles em armas. Logo dirigiu-se a Augustoduno em marcha acelerada, rivalizando entre si os porta-estandartes e protestando até o soldado raso para que não se esperasse o repouso habitual nem o intervalo das noites: que apenas tivessem o inimigo diante deles e fossem vistos por ele; isso bastava para a vitória. A doze milhas de distância apareceram Sacrovir e suas tropas em terreno aberto. Na frente ele colocara os homens de armadura de ferro, nas alas as coortes, na retaguarda os semiarmados. Ele próprio, montado num cavalo notável, percorria as primeiras fileiras, recordando as antigas glórias dos gauleses e os reveses que tinham infligido aos romanos, quão honrosa era a liberdade para os vencedores e quão mais intolerável a servidão para os vencidos pela segunda vez.
Isso não durou muito nem foi ouvido por homens alegres: pois aproximava-se a linha das legiões, e os habitantes da cidade, desordenados e ignorantes da arte militar, não dispunham bem nem dos olhos nem dos ouvidos. Sílio, por sua vez, embora a esperança já assegurada dispensasse os motivos para arengar, gritava ainda assim que era vergonhoso para eles, vencedores das Germânias, serem conduzidos contra gauleses como contra um inimigo de verdade. "Há pouco uma única coorte derrotou os turônios rebeldes, uma única ala de cavalaria os tréveros, poucos esquadrões deste mesmo exército os séquanos. Quanto mais ricos em dinheiro e mais cheios de prazeres, tanto mais incapazes de guerra são os éduos: vencei-os e poupai os que fugirem." A isso seguiu-se um clamor imenso, a cavalaria envolveu os flancos e a infantaria atacou a frente, sem demora nos lados. Os homens de ferro causaram um pouco de demora, pois as lâminas resistiam às lanças e às espadas; mas os soldados, agarrando machados e picaretas como se rompessem uma muralha, golpeavam as armaduras e os corpos; alguns derrubavam aquela massa inerte com varas ou forcados, e os caídos, sem nenhum esforço para se levantar, eram deixados ali como mortos. Sacrovir foi primeiro a Augustoduno, depois, por medo de ser entregue, retirou-se com os mais fiéis a uma casa de campo vizinha. Ali ele morreu por sua própria mão, e os demais por golpes mútuos: a casa, incendiada sobre eles, consumiu a todos.
Só então Tibério escreveu ao senado sobre o início e o desfecho da guerra; não tirou nem acrescentou nada à verdade, mas atribuiu o êxito à lealdade e ao valor dos legados, e à própria política. Ao mesmo tempo acrescentou as razões pelas quais nem ele nem Druso tinham partido para essa guerra, exaltando a grandeza do império e dizendo que não convinha aos príncipes, sempre que uma ou outra cidade se agitasse, abandonar a capital, de onde parte o governo de tudo. Agora, como não era movido pelo medo, iria examinar e resolver a situação. Os senadores decretaram votos por seu retorno seguro, súplicas e outras honras. Só Cornélio Dolabela, procurando superar os demais, chegou ao extremo de uma adulação absurda ao propor que ele entrasse em Roma em ovação, vindo da Campânia. Em seguida veio uma carta do imperador, declarando que não era tão carente de glória, depois de ter subjugado os povos mais ferozes e recebido ou recusado tantos triunfos na juventude, a ponto de buscar agora, já mais velho, a recompensa vazia de um passeio nos arredores de Roma.
Por essa mesma época, ele pediu ao senado que a morte de Sulpício Quirino fosse celebrada com exéquias públicas. Quirino em nada pertencia à antiga e patrícia família dos Sulpícios, tendo nascido no município de Lanúvio: mas, infatigável na milícia e por meio de serviços vigorosos, alcançou o consulado sob o divino Augusto e, depois, tendo tomado de assalto fortalezas dos homonadenses pela Cilícia, obteve as insígnias do triunfo; foi designado conselheiro de Caio César, então no governo da Armênia. Cortejara também Tibério, que estava em Rodes: e Tibério revelou isso então no senado, louvando os serviços prestados a si mesmo e acusando Marco Lólio, a quem incriminava por ter sido o instigador da depravação e das discórdias de Caio César. Mas para os demais a memória de Quirino não era agradável, por causa dos perigos que, como relatei, ele tramara contra Lépida, e pela velhice sórdida e prepotente.
No fim do ano, um delator atacou Clutório Prisco, cavaleiro romano, que, depois de um poema célebre em que lamentara a morte de Germânico, fora premiado com dinheiro pelo imperador; acusava-o de ter composto, durante a doença de Druso, algo que, se este morresse, seria divulgado com maior recompensa. Clutório lera esse texto, por vaidade, na casa de Públio Petrônio, diante de Vitélia, sogra dele, e de muitas mulheres ilustres. Quando o delator surgiu, e os demais, aterrorizados, prestaram testemunho, só Vitélia afirmou nada ter ouvido. Mas mais crédito se deu aos que o acusavam até a perdição, e pela sentença de Hatério Agripa, cônsul designado, decretou-se ao réu o suplício extremo.
Em sentido contrário, Mânio Lépido começou a falar deste modo: "Se, senadores, olharmos apenas para isto, com que voz nefanda Clutório Prisco corrompeu a própria mente e os ouvidos dos homens, nem o cárcere nem a forca, nem mesmo os tormentos dos escravos seriam suficientes contra ele. Mas, se os crimes e atrocidades não têm medida, a moderação do príncipe, os exemplos dos antepassados e os vossos limitam os castigos e os remédios, e as palavras vãs diferem dos crimes, os ditos das más ações; há lugar para uma sentença pela qual nem o delito deste fique impune, nem nós tenhamos de nos arrepender da clemência ou da severidade. Muitas vezes ouvi nosso príncipe queixar-se quando alguém, ao dar-se a morte, antecipou sua misericórdia. A vida de Clutório está intacta: poupado, não será perigo para a república; morto, não servirá de exemplo. Seus escritos, tão cheios de insensatez, são igualmente vazios e fugazes; nada de grave ou sério se deve temer de quem, sendo ele próprio o denunciante de suas torpezas, não cativa os ânimos dos homens, mas das mulherezinhas. Que ele se retire da cidade, contudo, e, perdidos os bens, seja banido com interdição de água e fogo: é o que proponho, como se ele estivesse sujeito à lei de lesa-majestade."
Só Rubélio Blando, dentre os ex-cônsules, concordou com Lépido: os demais seguiram a sentença de Agripa, e Prisco foi levado ao cárcere e logo executado. Tibério censurou isso no senado com os rodeios que lhe eram habituais, ao mesmo tempo exaltando a dedicação dos que vingavam com vigor ofensas, ainda que pequenas, ao príncipe, deplorando punições tão precipitadas de meras palavras, louvando Lépido e sem acusar Agripa. Por isso fez-se um senatusconsulto para que os decretos dos senadores não fossem levados ao erário antes do décimo dia, e esse prazo de vida fosse concedido aos condenados. Mas o senado não tinha liberdade para se arrepender, nem Tibério se abrandava com o intervalo de tempo.
Seguem-se os cônsules Caio Sulpício e Décio Hatério, ano tranquilo quanto aos assuntos externos, mas que em casa receava uma severidade contra o luxo, o qual rompera desmesuradamente em tudo aquilo em que se esbanja dinheiro. Mas outros gastos, ainda que mais graves, ficavam geralmente ocultos pela dissimulação dos preços; os aparatos da gula e da glutonaria, divulgados por conversas constantes, geraram o temor de que um príncipe apegado à antiga frugalidade reagisse com dureza. Pois, quando Caio Bíbulo deu início, os outros edis também declararam que a lei suntuária era desprezada, que os preços proibidos dos artigos cresciam a cada dia e que o mal não podia ser contido com remédios moderados; e os senadores, consultados, transferiram a questão inteira ao príncipe. Mas Tibério, depois de ponderar muitas vezes consigo se tais paixões tão desenfreadas podiam ser reprimidas, se a repressão não traria mais dano à república, quão indigno seria tocar no que não conseguisse impor, ou, se imposto, exigiria a ignomínia e a infâmia de homens ilustres, por fim redigiu ao senado uma carta cujo teor foi este.
"Talvez, senadores, em outros assuntos fosse mais conveniente que eu fosse interrogado em vossa presença e dissesse o que julgo proveitoso à república: nesta deliberação foi melhor que meus olhos se afastassem, para que, ao apontardes vós os rostos e o temor de cada um que fosse acusado de luxo vergonhoso, eu não os visse também e como que os flagrasse. Pois, se aqueles homens enérgicos, os edis, tivessem antes deliberado comigo, não sei se eu não os teria aconselhado a deixar antes em paz vícios tão fortes e amadurecidos do que conseguir isto: tornar público em que torpezas somos impotentes. Eles, contudo, cumpriram seu dever, como desejo que os demais magistrados também desempenhem suas funções: a mim, no entanto, nem é honroso calar nem é fácil falar, porque não exerço o papel de edil, pretor ou cônsul. Algo maior e mais elevado se exige do príncipe; e, embora cada um atribua a si o mérito das boas decisões, é de um só o ódio de todos os erros. Pois o que devo começar a proibir primeiro e reduzir ao antigo costume? Os espaços infinitos das casas de campo? O número e as nações de escravos? O peso da prata e do ouro? Os prodígios de bronze e de pintura? As vestes usadas indistintamente por homens e mulheres, ou aquele luxo próprio das mulheres, pelo qual, por causa de pedras preciosas, nossa riqueza é transferida a povos estrangeiros ou inimigos?
"Não ignoro que nos banquetes e nas rodas se censura tudo isso e se pede uma medida: mas, se alguém sancionasse uma lei e estabelecesse penas, esses mesmos gritariam que a cidade está sendo subvertida, que se prepara a ruína dos mais ilustres, que ninguém está livre de incriminação. Ora, nem mesmo as doenças do corpo, antigas e agravadas com o tempo, se contêm senão por meios duros e ásperos: o ânimo, ao mesmo tempo corrompido e corruptor, doente e ardente, não se apaga com remédios mais leves do que as paixões com que se inflama. Tantas leis criadas pelos antepassados, tantas que o divino Augusto promulgou, umas abolidas pelo esquecimento, outras, o que é mais vergonhoso, pelo desprezo, tornaram o luxo mais ousado. Pois, se desejas o que ainda não é proibido, temes que venha a ser proibido; mas, se transgrediste impunemente o que era proibido, não há mais medo nem vergonha. Por que então antigamente prevalecia a frugalidade? Porque cada um se moderava a si mesmo, porque éramos cidadãos de uma só cidade; e nem havia os mesmos estímulos enquanto dominávamos só a Itália. Com as vitórias externas aprendemos a consumir os bens alheios, com as guerras civis até os nossos. Quão pequena é essa questão de que os edis nos advertem! Quão insignificante, se olhardes para o resto! Mas, por Hércules, ninguém aponta que a Itália depende de recursos estrangeiros, que a vida do povo romano se decide a cada dia nas incertezas do mar e das tempestades. E, se os recursos das províncias não socorrerem os senhores, os escravos e os campos, serão por certo nossos bosques e nossas casas de campo que nos sustentarão. É esta a preocupação, senadores, que o príncipe carrega; negligenciada, ela arrastará a república à ruína completa. O resto deve ser curado no íntimo de cada um: que a nós a vergonha, aos pobres a necessidade, aos ricos a saciedade nos leve a melhorar. Ou, se algum dos magistrados promete tanta diligência e severidade que possa fazer frente a isso, a esse eu louvo e confesso que me alivia de parte de meus trabalhos: mas, se querem denunciar os vícios e, depois de obtida a glória dessa ação, criam inimizades e as deixam para mim, crede, senadores, que também eu não sou ávido de hostilidades; e, ainda que as enfrente graves e muitas vezes injustas pela república, recuso por direito as vãs e inúteis, que não serão de proveito nem para mim nem para vós."
Ouvida a carta do imperador, dispensou-se os edis de tal preocupação; e o luxo da mesa, exercido com gastos pródigos desde o fim da guerra de Áccio até as armas com que Sérvio Galba alcançou o poder, ao longo de cem anos, aos poucos caiu em desuso. Apraz-me investigar as causas dessa mudança. Antigamente famílias ricas de nobres, ou notáveis pela fama, arruinavam-se pelo gosto da magnificência. Pois ainda então era permitido cortejar e ser cortejado pela plebe, pelos aliados e pelos reinos; e quem mais se destacava por riquezas, casa e aparato era tido como mais ilustre pelo nome e pela clientela. Depois que se passou às matanças e a grandeza da fama levava à morte, os demais voltaram-se para vias mais sensatas. Ao mesmo tempo, homens novos dos municípios, das colônias e até das províncias, admitidos com frequência no senado, trouxeram a frugalidade doméstica e, embora a maioria, por sorte ou por esforço, chegasse a uma velhice abastada, manteve-se ainda assim o ânimo anterior. Mas o principal promotor de costumes austeros foi Vespasiano, ele próprio de hábito e alimentação à moda antiga. Daí a deferência para com o príncipe e o amor de imitá-lo prevaleceram, mais fortes do que a pena das leis e o medo. A menos que haja em todas as coisas como que um ciclo, de modo que, assim como se alternam as estações, também se alternem os costumes; nem tudo era melhor entre os antigos, mas também nossa idade produziu muito digno de louvor e de arte para a posteridade imitar. Que esses embates honrosos com os antepassados permaneçam entre nós.
Tibério, tendo ganhado fama de moderação por ter contido os delatores que ameaçavam, enviou ao senado uma carta em que pedia o poder tribunício para Druso. Esse é o nome do mais alto grau, que Augusto inventou para não assumir o título de rei ou de ditador e, ainda assim, com alguma denominação, sobressair-se a todos os demais poderes. Em seguida escolheu Marco Agripa como sócio desse poder e, morto este, designou Tibério Nero, para que não houvesse incerteza quanto ao sucessor. Assim julgava conter as más esperanças dos outros; ao mesmo tempo confiava na moderação de Nero e na própria grandeza. Seguindo então esse exemplo, Tibério elevou Druso ao supremo poder, depois de, em vida de Germânico, ter mantido um juízo imparcial entre os dois. Mas, no início da carta, depois de invocar os deuses para que favorecessem seus planos em prol da república, relatou com moderação, sem exageros falsos, os costumes do jovem. Disse que ele tinha esposa e três filhos, e a idade na qual ele próprio fora chamado pelo divino Augusto a assumir esse encargo. E não o tomava agora apressadamente, mas depois de oito anos de experiência, reprimidas as sedições, encerradas as guerras, como triunfador e duas vezes cônsul, partícipe de uma tarefa já conhecida.
Os senadores já tinham antecipado em suas mentes o discurso, e por isso a adulação foi mais rebuscada. Não inventaram, contudo, senão decretar estátuas dos príncipes, altares aos deuses, templos, arcos e outras coisas de costume, salvo que Marco Silano, por uma ofensa ao consulado, buscou honrar os príncipes e propôs, como sentença, que nos monumentos públicos ou privados, para registro das datas, não se inscrevessem os nomes dos cônsules, mas os dos que exercessem o poder tribunício. E Quinto Hatério, tendo proposto que os senatusconsultos daquele dia fossem fixados na cúria em letras de ouro, virou objeto de ridículo, velho que só colheria a infâmia de uma adulação repugnantíssima.
Entre isso, prorrogada a Júnio Bleso a província da África, Sérvio Maluginense, flâmine de Júpiter, pediu que lhe coubesse a Ásia por sorteio, afirmando que era falso o dito corrente de que não era lícito aos flâmines de Júpiter sair da Itália, e que seu direito não diferia em nada do dos flâmines de Marte e de Quirino: ora, se estes haviam governado províncias, por que isso era vedado aos flâmines de Júpiter? Nenhum plebiscito existia a respeito, nada se encontrava nos livros das cerimônias. Muitas vezes os pontífices haviam realizado os ritos de Júpiter, quando o flâmine era impedido por doença ou por dever público. Durante setenta e cinco anos, depois da morte de Cornélio Mérula, ninguém fora nomeado em seu lugar, e ainda assim os ritos religiosos não haviam cessado. Se por tantos anos era possível não nomear ninguém sem dano algum aos cultos, quanto mais fácil seria ausentar-se por um comando proconsular de um único ano? Antigamente, por rivalidades privadas, conseguira-se que os pontífices máximos proibissem os flâmines de ir às províncias: agora, por dádiva dos deuses, o sumo pontífice era também o supremo dos homens, não sujeito a emulação, a ódio nem a afetos privados.
Como, contra isso, o áugure Lêntulo e outros discutissem de modos variados, chegou-se a aguardar a sentença do pontífice máximo. Tibério, adiando o exame sobre o direito do flâmine, moderou as cerimônias decretadas em razão do poder tribunício de Druso, censurando expressamente a insolência da proposta e as letras de ouro, contrárias ao costume pátrio. Leram-se também as cartas de Druso, as quais, embora moldadas à modéstia, foram recebidas como sumamente arrogantes. "A isto tudo se chegou: que nem mesmo o jovem, tendo recebido tamanha honra, vá aos deuses da cidade, entre no senado, ou ao menos inicie os auspícios em solo pátrio. Há, é claro, uma guerra, ou ele está retido em parte distante do mundo: ele percorre justamente agora as praias e os lagos da Campânia. Assim se forma o reitor do gênero humano, isso ele aprende primeiro dos conselhos paternos. Que um imperador velho receie, sim, o olhar dos cidadãos e alegue a idade cansada e os trabalhos já cumpridos: mas a Druso, que impedimento, senão a arrogância?"
Mas Tibério, firmando para si a força do principado, oferecia ao senado a imagem da antiguidade ao remeter ao exame dos senadores as petições das províncias. Crescia, com efeito, pelas cidades gregas, a licença e a impunidade de estabelecer asilos; os templos enchiam-se dos piores entre os escravos; com o mesmo refúgio acolhiam-se os devedores contra os credores e os suspeitos de crimes capitais, e nenhum poder era forte o bastante para conter as sedições de um povo que protegia os crimes dos homens como se fossem cultos dos deuses. Decidiu-se, então, que as cidades enviassem seus títulos e legados. E algumas abriram mão por espontânea vontade do que haviam usurpado falsamente; muitas confiavam em superstições antigas ou em serviços prestados ao povo romano. E grande foi o espetáculo daquele dia em que o senado examinou os benefícios dos antepassados, os pactos dos aliados, até os decretos dos reis que tinham vigorado antes do poder de Roma, e os ritos religiosos das próprias divindades, com liberdade, como antigamente, de confirmar ou alterar.
Os primeiros de todos foram os efésios. Lembravam que, ao contrário do que o vulgo cria, Diana e Apolo não tinham nascido em Delos: havia entre eles o rio Cencreu e o bosque de Ortígia, onde Latona, prestes a dar à luz, apoiando-se numa oliveira que ainda então permanecia, gerou aquelas divindades; e que, por aviso dos deuses, o bosque fora consagrado, e que o próprio Apolo, depois de matar os Ciclopes, ali evitara a ira de Júpiter. Depois o pai Líber, vencedor na guerra, perdoara as suplicantes Amazonas que se haviam refugiado junto ao altar. A partir daí, por concessão de Hércules, quando ele dominava a Lídia, aumentou-se a solenidade do templo; e seu direito não foi diminuído sob o domínio dos persas; depois os macedônios e, em seguida, nós o preservamos.
Depois desses, os magnésios apoiavam-se nas disposições de Lúcio Cipião e Lúcio Sila, dos quais um, derrotado Antíoco, e o outro, expulso Mitrídates, honraram a lealdade e o valor dos magnésios, concedendo que o templo de Diana Leucófrine fosse refúgio inviolável. Em seguida os afrodisienses e os estratonicenses apresentaram um decreto do ditador César, por antigos serviços ao seu partido, e outro recente do divino Augusto, sendo louvados por terem suportado a invasão dos partos sem nada mudar de sua constância para com o povo romano. Mas a cidade dos afrodisienses mantinha o culto de Vênus, a dos estratonicenses o de Júpiter e de Trívia. Mais antigamente expuseram os hierocesarienses, que tinham entre si uma Diana persa, cujo templo fora consagrado pelo rei Ciro; e mencionavam Perpena, Isáurico e muitos outros nomes de generais que haviam atribuído a mesma santidade não só ao templo, mas a duas milhas em redor. Depois os cíprios, a respeito de três templos, dos quais o mais antigo fora erguido à Vênus de Pafos por seu fundador Aérias, o segundo por seu filho Amato à Vênus de Amatunte, e o terceiro a Júpiter de Salamina por Teucro, fugido da ira de seu pai Telamão.