Capítulos

Um senador romano de toga escreve com estilete numa tábua de cera, um rolo de papiro na outra mão

Anais - Livro I

A morte de Augusto e a ascensão de Tibério; os motins das legiões na Panônia e na Germânia

Sobre a obra

Os Anais são a última obra de Públio Cornélio Tácito (c. 56 a c. 120 d.C.), senador e considerado o maior historiador de Roma. Escritos por volta de 116 d.C., cobrem o período de 14 a 68 d.C., da morte de Augusto à de Nero. Dos dezesseis livros originais sobrevivem I a VI e XI a XVI, e mesmo esses chegaram incompletos: o V ficou reduzido a um fragmento, falta o começo do XI e o XVI se interrompe no meio de uma frase.

Este é o Livro I, o começo da obra. Ele narra a morte de Augusto em 14 d.C., a maneira como Tibério assumiu o poder, e os motins que estouraram quase ao mesmo tempo nas legiões da Panônia e nas do Reno. É o livro que estabelece o método e o tom de tudo o que vem depois.

O programa do historiador

Tácito abre com um resumo brutalmente curto de toda a história romana anterior, de Rômulo a Augusto, e declara que escreverá sem ira e sem partidarismo, porque não tem motivo nem para amar nem para odiar os imperadores que vai julgar. A declaração é célebre e, ao mesmo tempo, discutida: a narrativa que se segue é visivelmente hostil a Tibério, e o próprio Tácito trabalha por insinuação, alinhando boatos ao lado dos fatos sem sempre separar os dois.

Vale ler o Livro I sabendo disso. Tácito é uma fonte de primeira ordem porque era senador, tinha acesso a atas do senado e a memórias de contemporâneos, e escreve cerca de um século depois dos fatos narrados neste livro. Mas ele é um autor com tese, e a tese é que o principado corrompeu a classe dirigente romana.

(Anais - Livro I 1:1)

A morte de Augusto e a transição de poder

Augusto morre em Nola, e Tácito registra que a notícia da morte e a da posse de Tibério chegaram juntas, o que ele apresenta como sinal de que a sucessão já estava arranjada. O primeiro ato do novo reinado é o assassinato de Agripa Póstumo, neto de Augusto, e Tácito anota que ninguém quis assumir a ordem.

O passo mais famoso do livro é o duplo balanço do reinado de Augusto. Tácito reproduz primeiro o que diziam os que o elogiavam, depois, ponto por ponto, o que diziam os que o criticavam: que a paz custara guerras civis, proscrições e o esvaziamento das instituições da república. Ele não arbitra. Em seguida descreve Tibério recusando o poder diante do senado em termos ambíguos, enquanto o senado insistia, numa cena que Tácito trata como teatro de ambos os lados.

(Anais - Livro I 1:9-10)

Os motins das legiões

Morto o imperador, os exércitos testaram o sucessor. Na Panônia, o soldado Percênio organizou o motim em torno de queixas concretas: serviço militar longo demais, salário de dez asses por dia, veteranos assentados em terras ruins. Druso, filho de Tibério, foi enviado para negociar, e um eclipse da lua ajudou a quebrar a resolução dos amotinados, que o interpretaram como sinal divino.

No Reno o caso foi mais grave, porque as legiões da Germânia ofereceram o império a Germânico, sobrinho e filho adotivo de Tibério, e ele recusou. A repressão que se seguiu foi feita em parte pelos próprios soldados sobre seus companheiros. Tácito narra ainda a saída de Agripina, mulher de Germânico, do acampamento, levando consigo o filho pequeno que os soldados chamavam de Calígula por causa das botinas militares que usava, cena que envergonhou a tropa e ajudou a encerrar a revolta.

(Anais - Livro I 2:16-17)

(Anais - Livro I 3:40-44)

A Germânia e os ossos de Varo

Germânico levou as legiões à ofensiva além do Reno, contra a coalizão liderada por Armínio, o mesmo chefe querusco que destruíra três legiões romanas na floresta de Teutoburgo em 9 d.C. No caminho o exército chegou ao campo da derrota e enterrou os restos dos mortos, seis anos depois. Tácito descreve os ossos espalhados, as caveiras pregadas em troncos e os altares onde tribunos tinham sido sacrificados.

A campanha teve vitórias táticas e nenhum ganho territorial duradouro. O retorno do exército de Cecina, cercado em terreno alagado, é uma das passagens militares mais tensas dos Anais.

(Anais - Livro I 4:61-62)

O retorno da lei de lesa-majestade

No fim do livro Tácito registra a reativação da lei de lesa-majestade, que sob a república punia traição militar e sob o principado passou a alcançar palavras, escritos e gestos considerados ofensivos ao imperador. Ele nota que Tibério, consultado sobre os primeiros casos, permitiu que a lei seguisse seu curso. É o mecanismo que dominará os livros seguintes e alimentará a rede de delatores.

(Anais - Livro I 4:72-73)

Relevância histórica

Os Anais não são obra cristã e não mencionam cristãos neste livro. O valor da leitura é outro: aqui está descrito, por dentro, o império em que o cristianismo nasceria uma geração depois. Tibério, o imperador cujo décimo quinto ano de reinado o Evangelho de Lucas usa para datar o início da pregação de João Batista, é o personagem central. Os motins mostram que o poder real estava nas legiões, e as leis de lesa-majestade mostram como funcionava um processo político romano, o mesmo tipo de máquina judicial diante da qual Paulo apelaria a César.

A menção explícita a Cristo aparece no Livro XV, no relato da perseguição de Nero após o incêndio de 64.

(Anais - Livro XV 3:44)