Anais - Livro I 5

A morte de Augusto e a ascensão de Tibério; os motins das legiões na Panônia e na Germânia

Pouco depois, Cépio Crispino, questor do próprio Grânio Marcelo, pretor da Bitínia, acusou-o de lesa-majestade, com Romano Hispão subscrevendo a denúncia. Crispino inaugurou um modo de vida que mais tarde a miséria dos tempos e a audácia dos homens tornaram célebre. Pobre, obscuro e inquieto, insinuou-se com delações secretas na confiança da crueldade do príncipe e logo passou a ameaçar todos os cidadãos mais ilustres. Tendo conquistado poder junto a um e ódio de todos os demais, deu o exemplo que outros seguiram: de pobres tornaram-se ricos, de desprezados tornaram-se temíveis, e trouxeram a ruína primeiro aos outros e por fim a si mesmos. Acusava Marcelo de ter feito comentários hostis sobre Tibério, crime impossível de refutar, pois o acusador escolhia entre os costumes do príncipe os traços mais torpes e os lançava contra o réu. Como eram verdadeiros, acreditava-se também que tinham sido ditos. Hispão acrescentou que Marcelo havia colocado sua estátua acima das dos Césares e que, em outra estátua, depois de cortar a cabeça de Augusto, lhe havia posto a efígie de Tibério. Diante disso o imperador inflamou-se a tal ponto que, rompendo seu silêncio habitual, proclamou que naquele caso ele próprio votaria abertamente e sob juramento, para que os demais ficassem sujeitos à mesma obrigação. Restavam ainda então vestígios da liberdade que agonizava. Por isso Cneu Pisão perguntou: 'Em que ordem votarás, César? Se primeiro, terei o que seguir; se depois de todos, receio dissentir de ti sem perceber.' Tibério, abalado por essas palavras, e tanto mais arrependido quanto mais imprudentemente se exaltara, permitiu com paciência que o réu fosse absolvido das acusações de lesa-majestade. Quanto às extorsões, o assunto foi remetido aos recuperadores.
Não satisfeito com os julgamentos do senado, sentava-se nos processos a um canto do tribunal, para não afastar o pretor da cadeira curul; e muitas decisões foram tomadas em sua presença contra a corrupção e os pedidos dos poderosos. Mas, enquanto se cuidava da verdade, corrompia-se a liberdade. Entre esses casos, o senador Pio Aurélio queixou-se de que sua casa fora abalada pela carga de uma via pública e pela passagem de aquedutos, e invocava o auxílio dos senadores. Apesar da resistência dos pretores do erário, César acudiu-o e pagou a Aurélio o valor da casa, desejoso de gastar dinheiro com causas honestas, virtude que conservou por muito tempo, mesmo quando despojou-se de todas as outras. A Propércio Celer, de posição pretoriana, que pedia dispensa da ordem senatorial por causa da pobreza, concedeu um milhão de sestércios, depois de averiguar bem que a estreiteza dele era herdada do pai. Aos outros que tentavam o mesmo, ordenou que provassem sua causa ao senado, sendo áspero, pelo desejo de severidade, mesmo naquilo que fazia com razão. Por isso os demais preferiram o silêncio e a pobreza à confissão e ao benefício.
No mesmo ano o Tibre, engrossado por chuvas contínuas, inundou as partes baixas da cidade; ao recuar, seguiu-se a destruição de edifícios e de vidas. Asínio Galo então propôs que se consultassem os livros Sibilinos. Tibério recusou, ocultando igualmente as coisas divinas e as humanas; mas o remédio para conter o rio foi confiado a Ateio Capitão e a Lúcio Arrúncio. Decidiu-se que a Acaia e a Macedônia, que pediam alívio de seus encargos, fossem por ora liberadas do governo proconsular e transferidas a César. Druso presidiu os jogos de gladiadores que oferecera em nome de seu irmão Germânico e no próprio, embora se deleitasse demais com o derramamento de sangue, ainda que de gente vil; o que era assustador para o povo, e dizia-se que o pai o havia repreendido. Por que o próprio Tibério se absteve do espetáculo, explicavam de várias maneiras; uns por aversão à multidão, alguns por causa de seu temperamento sombrio e do medo da comparação, que Augusto comparecera com afabilidade. Não acreditaria que se concedeu ao filho ocasião para ostentar crueldade e provocar a aversão do povo, embora isso também tenha sido dito.
Mas a licença do teatro, iniciada no ano anterior, irrompeu então com mais gravidade, com a morte não de gente do povo, mas também de soldados e de um centurião, e com o ferimento de um tribuno de coorte pretoriana, enquanto tentavam impedir os insultos aos magistrados e as desordens da plebe. Tratou-se dessa sedição diante dos senadores, e propunham-se opiniões para que os pretores tivessem o direito de açoitar os atores. O tribuno da plebe Hatério Agripa interpôs veto e foi repreendido por um discurso de Asínio Galo, calando-se Tibério, que oferecia ao senado essas imagens de liberdade. Ainda assim o veto prevaleceu, porque o divino Augusto certa vez respondera que os atores eram isentos de açoites, e não era lícito a Tibério infringir suas decisões. Muitas coisas foram decretadas sobre o valor da remuneração e contra a desordem dos partidários; entre elas, as mais notáveis: que nenhum senador entrasse na casa dos pantomimos, que cavaleiros romanos não os escoltassem quando saíam em público nem os assistissem em outro lugar que não o teatro, e que os pretores tivessem o poder de punir com o exílio a falta de comedimento dos espectadores.
Permitiu-se aos hispânicos, a pedido seu, que se erguesse um templo a Augusto na colônia de Tarraco, e o exemplo foi dado a todas as províncias. Quando o povo pediu a supressão do imposto de um por cento sobre as mercadorias à venda, instituído depois das guerras civis, Tibério declarou por edito que o tesouro militar dependia desse recurso; e, ainda, que o Estado não daria conta do encargo, a menos que os veteranos fossem dispensados no vigésimo ano de serviço. Assim foram revogadas para o futuro as decisões mal tomadas na sedição recente, pelas quais haviam imposto o limite de dezesseis anos de serviço.
Discutiu-se depois no senado, por iniciativa de Arrúncio e Ateio, se, para moderar as cheias do Tibre, deviam ser desviados os rios e lagos que o engrossam; e ouviram-se embaixadas dos municípios e das colônias. Os florentinos pediam que o Clânis não fosse retirado de seu leito habitual e desviado para o rio Arno, pois isso lhes traria a ruína. Os habitantes de Interamna argumentaram de modo semelhante: arruinar-se-iam os campos mais férteis da Itália se o rio Nar (pois era esse o plano) fosse dividido em vários canais e transbordasse. Nem os reatinos se calaram, recusando que se obstruísse o lago Velino onde ele deságua no Nar, pois irromperia sobre as terras vizinhas; a natureza, diziam, havia provido muito bem aos interesses dos mortais, ao dar aos rios suas próprias bocas, seus cursos, sua origem e seu fim; deviam-se respeitar também as crenças dos aliados, que consagraram ritos, bosques e altares aos rios de sua pátria; e mais: o próprio Tibre não queria de modo algum correr com menor glória, privado dos rios vizinhos. Fosse pelas súplicas das colônias, fosse pela dificuldade das obras, fosse pela superstição, prevaleceu a opinião de Pisão, que julgara que nada se devia mudar.
Prorrogou-se a Popeio Sabino a província da Mésia, com o acréscimo da Acaia e da Macedônia. Isso também era próprio do caráter de Tibério: prolongar os comandos e manter muitos homens, até o fim da vida, nos mesmos exércitos ou nas mesmas jurisdições. Atribuem-se várias causas: uns dizem que, por aversão a nova preocupação, conservava como permanente o que uma vez aprovara; alguns, que era por inveja, para que não fossem muitos a desfrutar do cargo; quem julgue que, assim como o engenho dele era astuto, era também ansioso o seu juízo; pois não buscava as virtudes eminentes e, por outro lado, odiava os vícios: dos melhores temia perigo para si, dos piores temia a desonra pública. Por essa hesitação chegou por fim a tal ponto que confiou províncias a certos homens que não permitiria que saíssem da cidade.
Sobre as eleições consulares, que então pela primeira vez ocorreram sob aquele príncipe e em seguida, mal me atreveria a afirmar algo: tão diferentes são as versões, não entre os autores, mas nos próprios discursos dele. Ora, omitindo os nomes dos candidatos, descrevia a origem, a vida e o serviço militar de cada um, de modo que se entendesse quem eram; às vezes, suprimindo até essa indicação, exortava os candidatos a não perturbarem as eleições com a corrupção, e prometia para isso o seu cuidado. Na maioria das vezes declarava que se haviam apresentado diante dele aqueles cujos nomes ele dera aos cônsules; que outros também podiam candidatar-se, se confiassem em seu prestígio ou em seus méritos: belo nas palavras, mas vazio ou capcioso na realidade, e quanto maior a imagem de liberdade que os encobria, tanto mais haviam de irromper numa servidão mais hostil.