Anais - Livro I 4

A morte de Augusto e a ascensão de Tibério; os motins das legiões na Panônia e na Germânia

Germânico entregou então a Cecina quatro legiões, cinco mil auxiliares e os bandos irregulares de germanos que habitavam o lado esquerdo do Reno. Ele próprio comandava igual número de legiões e o dobro de aliados. Depois de erguer um forte sobre os vestígios da fortificação de seu pai, no monte Tauno, lançou o exército em marcha ligeira contra os catos, deixando Lúcio Aprônio encarregado das obras de estradas e pontes. Numa estiagem com rios baixos, coisa rara naquele clima, completara uma marcha rápida sem obstáculos, mas temia chuvas e cheias dos rios na volta. Caiu sobre os catos de modo tão imprevisto que todos os fracos por idade ou sexo foram logo capturados ou mortos. Os homens em idade de combate haviam atravessado a nado o rio Adrana e tentavam impedir os romanos de iniciar uma ponte. Repelidos depois por máquinas e flechas, tentaram em vão negociar a paz; alguns refugiaram-se junto a Germânico, e os demais, abandonando seus distritos e aldeias, dispersaram-se pelas florestas. Depois de incendiar Mátio, capital da tribo, e devastar o campo aberto, o César voltou-se para o Reno, sem que o inimigo ousasse atacar a retaguarda dos que se retiravam, como costumava fazer sempre que cedia mais por estratagema do que por medo. Os queruscos tiveram a intenção de socorrer os catos, mas Cecina os intimidou levando suas armas de um lado para outro; e conteve em combate vitorioso os marsos, que ousaram enfrentá-lo.
Pouco depois chegaram emissários de Segestes pedindo auxílio contra a violência de seus compatriotas, que o cercavam, pois entre eles tinha mais força Armínio, que pregava a guerra: entre os bárbaros, quanto mais audaz e pronto é um homem, mais confiável e capaz é tido nos tempos de agitação. Segestes juntara aos emissários seu filho, chamado Segimundo; mas o jovem hesitava por consciência da culpa. De fato, no ano em que a Germânia se revoltou, ele fora nomeado sacerdote junto ao altar dos úbios, rasgara as fitas sagradas e fugira para os rebeldes. Induzido, contudo, a esperar clemência de Roma, transmitiu a mensagem do pai, foi recebido com benevolência e enviado com escolta para a margem gaulesa do Reno. Valeu a Germânico fazer o exército voltar: travou-se combate contra os sitiantes e Segestes foi resgatado com numeroso grupo de parentes e clientes. Entre eles havia mulheres nobres, e entre estas a esposa de Armínio, que era também filha de Segestes, mas mostrava mais o ânimo do marido do que o do pai, sem se render às lágrimas nem suplicar com a voz, as mãos apertadas contra o peito, os olhos fixos no ventre grávido. Levavam-se também os despojos do desastre de Varo, dados como butim a muitos dos que então se entregavam. Estava ali o próprio Segestes, figura imponente e destemido pela lembrança de sua boa aliança.
Suas palavras foram nestes termos: "Não é hoje o primeiro dia de minha fidelidade e constância para com o povo romano. Desde que o divino Augusto me concedeu a cidadania, escolhi amigos e inimigos segundo os vossos interesses, não por ódio à pátria, pois até os traidores são odiados por aqueles a quem preferem, mas porque eu julgava que o mesmo convinha a romanos e germanos, e que a paz era melhor que a guerra. Por isso denunciei a Varo, que então comandava o exército, Armínio, raptor de minha filha, violador do vosso tratado. Adiado pela lentidão do general, e como havia pouca proteção nas leis, exigi que me prendessem a mim, a Armínio e aos cúmplices: aquela noite é testemunha, e quem dera tivesse sido a última para mim! O que veio depois pode ser pranteado mais do que defendido. Apesar disso, lancei cadeias sobre Armínio e suportei as que seus partidários lançaram sobre mim. E agora que tenho a oportunidade de estar contigo, prefiro o antigo ao novo, a calma à desordem, não por recompensa, mas para me livrar da pecha de perfídia, e ao mesmo tempo para ser conciliador adequado do povo germano, caso prefira o arrependimento à ruína. Pela juventude e pelo erro de meu filho peço perdão; quanto à minha filha, confesso que foi trazida aqui por necessidade. Caberá a ti decidir o que prevalece: o que ela concebeu de Armínio ou o fato de ter nascido de mim." O César, em resposta clemente, prometeu segurança aos filhos e parentes dele, e a ele próprio uma morada na antiga província. Conduziu o exército de volta e recebeu o título de imperador por proposta de Tibério. A esposa de Armínio deu à luz um filho do sexo masculino: o menino, criado em Ravena, sofreu logo depois um ultraje que relatarei no momento oportuno.
Divulgada a notícia da rendição e do bom acolhimento de Segestes, foi recebida com esperança ou com pesar, conforme cada um repugnava ou desejava a guerra. A Armínio, sobre a violência inata, o rapto da esposa e o ventre dela sujeito à escravidão deixavam-no fora de si, e ele voava por entre os queruscos exigindo armas contra Segestes, armas contra o César. Nem se continha em insultos: chamava Segestes de pai exemplar, de grande general, de exército valente, esses cujas muitas mãos haviam levado uma única mulherzinha. Diante de si, ao contrário, três legiões e outros tantos legados haviam caído; pois ele não fazia guerra por traição nem contra mulheres grávidas, mas abertamente contra homens armados. Ainda se viam, nos bosques dos germanos, os estandartes romanos que ele suspendera aos deuses pátrios. Que Segestes habitasse a margem conquistada e devolvesse ao filho o sacerdócio dos homens: os germanos jamais desculpariam o suficiente o terem visto, entre o Elba e o Reno, as varas, os machados e a toga. Outros povos, por ignorarem o domínio romano, não conheciam seus castigos nem seus tributos; que eles os tinham sacudido de cima de si, e visto que aquele Augusto, consagrado entre os deuses, e aquele Tibério, dele escolhido, se haviam retirado frustrados, que não se atemorizassem diante de um jovenzinho inexperiente nem de um exército amotinado. Se preferissem a pátria, os pais e o modo antigo a senhores e novas colônias, seguissem antes Armínio como guia para a glória e a liberdade do que Segestes para a servidão vergonhosa.
Excitados por isso, não os queruscos, mas também as tribos vizinhas, e ganhou-se para o partido Inguiômero, tio de Armínio, que tinha antiga autoridade entre os romanos; daí maior temor ao César. E para que a guerra não desabasse toda de uma vez sobre um único ponto, enviou Cecina com quarenta coortes romanas pelo território dos brúcteros até o rio Amísia, para dividir o inimigo, enquanto o prefeito Pedo conduzia a cavalaria pelas fronteiras dos frísios. Ele próprio embarcou quatro legiões e transportou-as pelos lagos; e ao mesmo tempo a infantaria, a cavalaria e a frota se reuniram junto ao rio mencionado. Os caucos, quando prometeram auxílio, foram admitidos como companheiros de armas. Os brúcteros, que queimavam seus próprios bens, foram dispersados por Lúcio Estertínio, enviado por Germânico com tropa ligeira; e em meio à carnificina e ao saque ele encontrou a águia da décima nona legião, perdida com Varo. Dali a coluna foi conduzida até os confins dos brúcteros, e devastou-se todo o território entre os rios Amísia e Lúpia, não longe da floresta de Teutoburgo, onde se dizia jazerem insepultos os restos de Varo e das legiões.
Apoderou-se então do César o desejo de prestar as últimas honras aos soldados e ao general, comovendo-se à compaixão todo o exército presente por causa dos parentes, dos amigos e, enfim, dos acasos das guerras e da sorte dos homens. Enviado Cecina à frente para explorar os recessos das florestas e lançar pontes e aterros sobre os pântanos úmidos e os campos enganosos, avançaram por lugares tristes e horríveis à vista e à memória. O primeiro acampamento de Varo, com seu amplo perímetro e a praça central medida, denunciava a obra de três legiões; depois, pela paliçada meio arruinada e pela fossa rasa, entendia-se que ali se acamparam os restos reduzidos. No meio do campo, ossos esbranquiçados, dispersos ou amontoados, conforme tinham fugido ou resistido. Ao lado jaziam fragmentos de dardos e membros de cavalos, e também cabeças pregadas em troncos de árvores. Nos bosques próximos havia altares bárbaros, junto aos quais tinham imolado tribunos e centuriões das primeiras ordens. E os sobreviventes daquele desastre, escapados do combate ou das cadeias, contavam que ali tinham caído os legados, acolá foram arrebatadas as águias; onde Varo recebeu o primeiro ferimento e onde encontrou a morte pela mão infeliz e pelo próprio golpe; de que tribunal Armínio arengou, quantos patíbulos para os cativos, quais covas, e como ele escarneceu com soberba dos estandartes e das águias.
Assim, o exército romano que estava presente, seis anos depois do desastre, sepultava os ossos das três legiões, sem que ninguém soubesse se cobria com terra restos de estranhos ou dos seus, tomando todos por irmãos, por consanguíneos, tristes e ao mesmo tempo cheios de raiva crescente contra o inimigo. Para erguer o túmulo, o César colocou o primeiro torrão de relva, prestando aos mortos a homenagem mais grata e fazendo-se companheiro da dor dos presentes. Isso não agradou a Tibério, fosse porque interpretava em pior sentido todos os atos de Germânico, fosse porque acreditava que o espetáculo dos mortos insepultos retardava o exército no combate e o tornava mais temeroso do inimigo; e porque um general dotado do augurato e das cerimônias mais antigas não devia ter tocado em coisas fúnebres.
Mas Germânico, seguindo Armínio que recuava para lugares ínvios, assim que teve oportunidade ordenou que a cavalaria avançasse e tomasse a planície que o inimigo ocupava. Armínio, depois de mandar os seus se concentrarem e se aproximarem das florestas, voltou-se de repente: logo deu o sinal de irromperem àqueles que ocultara pelos desfiladeiros. Então a cavalaria, perturbada pela nova linha de combate, e as coortes de reserva enviadas, empurradas pela massa dos que fugiam, aumentaram a confusão; e iam sendo empurrados para um pântano conhecido dos vencedores e traiçoeiro para os que o ignoravam, se o César não tivesse alinhado as legiões avançadas: daí o terror para os inimigos, a confiança para o soldado; e separaram-se com igualdade de forças. Logo, levado de volta o exército ao Amísia, transportou as legiões pela frota, como as havia trazido; parte da cavalaria recebeu ordem de buscar o Reno pela costa do Oceano; Cecina, que conduzia o seu próprio contingente, foi advertido a atravessar quanto antes as Pontes Longas, embora regressasse por caminhos conhecidos. Essa era uma trilha estreita entre vastos pântanos, aterrada antes por Lúcio Domício; o resto era lodaçal, traiçoeiro pela lama pesada ou incerto pelos riachos. Em volta, florestas em encosta suave, que Armínio então ocupou, depois de ter chegado antes por atalhos e em marcha rápida do soldado carregado de bagagens e armas. Como Cecina hesitava sobre como repor as pontes arruinadas pela idade e ao mesmo tempo repelir o inimigo, resolveu acampar no lugar, para que uns começassem a obra e outros o combate.
Os bárbaros, esforçando-se por romper os postos avançados e atacar os que faziam as obras, provocavam-nos, davam voltas em torno deles, vinham-lhes ao encontro: misturava-se o clamor dos que trabalhavam e dos que combatiam. E tudo era igualmente adverso aos romanos: o lugar de pântano profundo, instável para o passo, escorregadio para quem avançava, os corpos pesados pelas couraças; e não conseguiam arremessar os dardos no meio das águas. Aos queruscos, ao contrário, eram habituais os combates nos pântanos, tinham membros altos e lanças enormes para ferir mesmo de longe. a noite afinal livrou do combate adverso as legiões vacilantes. Os germanos, infatigáveis pelo sucesso, nem mesmo então tomaram descanso, e desviaram para as terras baixas toda a água que nascia das colinas em volta; o solo ficou inundado, submergiu-se o que estava feito da obra, e o trabalho do soldado dobrou. Aquela era a quadragésima campanha de Cecina como subordinado ou comandante, conhecedor das situações favoráveis e duvidosas, e por isso destemido. Assim, ponderando o futuro, não achou outro recurso senão conter o inimigo nas florestas, até que os feridos e a parte mais pesada da coluna passassem à frente; pois entre os montes e os pântanos estendia-se uma planície que admitia uma linha estreita. Designaram-se a quinta legião para a ala direita, a vigésima primeira para a esquerda, os soldados da primeira para conduzir a vanguarda, os da vigésima para enfrentar os que os perseguissem.
A noite foi inquieta de modos opostos, pois os bárbaros, com banquetes festivos, com canto alegre ou som feroz, enchiam o fundo dos vales e os desfiladeiros que ecoavam, enquanto entre os romanos havia fogueiras fracas, vozes entrecortadas, e eles próprios jaziam aqui e ali junto à paliçada, vagavam entre as tendas, insones mais do que vigilantes. E um sonho terrível aterrou o general: pareceu-lhe ver e ouvir Quintílio Varo, coberto de sangue e emergido dos pântanos, como que chamando-o, mas ele não obedeceu e repeliu a mão que se estendia. Ao romper do dia, as legiões enviadas às alas, por medo ou rebeldia, abandonaram a posição e ocuparam apressadas uma planície além do terreno úmido. Armínio, contudo, ainda que com ataque livre, não irrompeu logo: mas quando a bagagem ficou presa no lodo e nas fossas, os soldados perturbados em volta, incerta a ordem dos estandartes, e como em tal momento cada um se apressa por si e os ouvidos ficam surdos às ordens, mandou os germanos irromperem, gritando: "Eis Varo e as legiões de novo presas ao mesmo destino!" Ao mesmo tempo, com homens escolhidos, rompeu a coluna e feria sobretudo os cavalos. Estes, escorregando no próprio sangue e no lodo dos pântanos, atiravam fora os cavaleiros, dispersavam os que encontravam, pisoteavam os caídos. O maior esforço se dava em torno das águias, que não podiam ser levadas contra a chuva de dardos nem fincadas no solo lodoso. Cecina, enquanto sustentava a linha, foi derrubado pelo cavalo ferido por baixo dele e estava sendo cercado, se a primeira legião não se interpusesse. Ajudou a avidez dos inimigos que, deixando a matança, corriam atrás do butim, e as legiões, ao cair da tarde, conseguiram chegar a terreno aberto e firme. Mas não foi esse o fim das misérias. Era preciso erguer a paliçada, buscar terra para o aterro, perdida em grande parte aquilo com que se cava o solo ou se corta a relva; não havia tendas para os manípulos nem emplastros para os feridos. Repartindo alimentos sujos de lama ou sangue, lamentavam as trevas funestas e o único dia que ainda restava a tantos milhares de homens.
Por acaso um cavalo, que rompera as amarras e vagava aterrorizado pelo clamor, atropelou alguns dos que lhe vinham ao encontro. Daí surgiu tamanho pânico, por acreditarem que os germanos haviam irrompido, que todos correram para as portas, das quais a decumana era a mais procurada, por ficar oposta ao inimigo e mais segura para a fuga. Cecina, depois de verificar que o medo era infundado, como não conseguia deter nem reter o soldado por autoridade, por súplicas, nem mesmo pela força, lançou-se no limiar da porta e enfim, pela compaixão, fechou o caminho, pois era preciso passar por sobre o corpo do legado; e ao mesmo tempo tribunos e centuriões mostraram que o pavor era falso.
Então, reunidos no quartel-general e ordenados a ouvir suas palavras em silêncio, ele os advertiu do momento e da necessidade. Havia uma salvação, nas armas, mas estas deviam ser regradas pela prudência, e era preciso permanecer dentro da paliçada até que o inimigo se aproximasse mais, na esperança de tomá-la de assalto; depois, irromper de todos os lados: por essa investida chegariam ao Reno. Se fugissem, restavam mais florestas, pântanos mais profundos e a ferocidade dos inimigos; mas aos vencedores, honra e glória. Lembrou-lhes tudo o que lhes era caro em casa, tudo o que era honroso no acampamento; calou sobre os reveses. Em seguida, começando pelos seus, entregou os cavalos dos legados e tribunos, sem nenhum favoritismo, a cada um dos mais valentes combatentes, para que estes primeiro, e depois a infantaria, investissem contra o inimigo.
Não menos inquieto andava o germano por suas esperanças, por seu ardor e pelas opiniões divergentes dos chefes. Armínio aconselhava que deixassem os romanos sair e, depois de saírem, os cercassem de novo por terreno úmido e difícil; Inguiômero, com conselhos mais cruéis e agradáveis aos bárbaros, era por cercar a paliçada com as armas: a tomada seria rápida, mais numerosos os cativos, intacto o butim. Assim, ao nascer do dia, enchem as fossas, lançam feixes, agarram o alto da paliçada, onde havia poucos soldados e como que paralisados pelo medo. Depois que ficaram presos nas fortificações, dá-se o sinal às coortes e soaram juntos as cornetas e as trombetas. Em seguida, com gritos e ímpeto, lançam-se sobre a retaguarda dos germanos, exprobrando-lhes que ali não havia florestas nem pântanos, mas terreno igual e deuses iguais. Ao inimigo, que pensava em fácil destruição de poucos e mal armados, o som das trombetas e o brilho das armas, quanto mais inesperados, tanto mais terríveis, se abateram; e caíam, tão imprudentes na adversidade quanto tinham sido ávidos na prosperidade. Armínio, ileso, e Inguiômero, depois de grave ferimento, abandonaram o combate; a multidão foi massacrada enquanto duraram a ira e a luz do dia. de noite as legiões voltaram, e ainda que mais ferimentos e a mesma falta de víveres as fatigassem, tiveram na vitória força, cura, recursos, tudo.
Entretanto, espalhara-se a notícia de que o exército fora cercado e que uma coluna hostil de germanos marchava sobre a Gália, e, se Agripina não tivesse impedido que se destruísse a ponte sobre o Reno, houve quem, por medo, ousasse esse ato vergonhoso. Mas a mulher, de ânimo grandioso, assumiu naqueles dias as funções de general e distribuiu aos soldados, conforme cada um estava desprovido ou ferido, roupas e emplastros. Caio Plínio, escritor das guerras germânicas, relata que ela esteve junto à cabeceira da ponte dirigindo louvores e agradecimentos às legiões que regressavam. Isso penetrou mais fundo no ânimo de Tibério: tais cuidados não eram simples, e não era contra inimigos externos que se buscava a estima dos soldados. Nada restava aos comandantes, quando uma mulher visitava os manípulos, ia aos estandartes, tentava a largueza, como se fosse pouco ambicioso levar por toda parte o filho do general em traje de soldado raso e querer que o chamassem de César Calígula. tinha mais força junto aos exércitos Agripina do que os legados, do que os generais; uma mulher sufocara um motim que o nome do príncipe não conseguira deter. Sejano inflamava e agravava isso, conhecedor do caráter de Tibério, semeando para longe ódios que ele guardasse e, depois de crescidos, revelasse.
Germânico, das legiões que transportara em navios, entregou a segunda e a décima quarta a Públio Vitélio para que as conduzisse por terra, a fim de que a frota, mais leve, navegasse por um mar cheio de baixios ou encalhasse com menos dano na maré vazante. Vitélio teve primeiro uma marcha tranquila, em solo seco ou com a maré subindo brandamente; depois, pelo ímpeto do vento norte e ao mesmo tempo pela estação do equinócio, em que o Oceano mais incha, a coluna era arrastada e sacudida. E as terras se inundavam: o estreito, a costa e os campos tinham o mesmo aspecto, e não se podia distinguir o instável do firme, o raso do profundo. Os homens eram arrastados pelas ondas, tragados pelos redemoinhos; animais de carga, bagagens, corpos sem vida flutuavam por entre eles e lhes barravam o caminho. Os manípulos se misturavam, ora com o peito, ora com a cabeça acima da água, às vezes, faltando o solo sob os pés, dispersados ou submersos. A voz e os encorajamentos mútuos de nada valiam contra a onda adversa; em nada o valente diferia do covarde, o prudente do imprudente, a deliberação do acaso: tudo era envolvido pela mesma violência. Por fim Vitélio, esforçando-se para alcançar terreno mais alto, recolheu para ali a coluna. Passaram a noite sem provisões, sem fogo, grande parte deles com o corpo nu ou ferido, não menos dignos de compaixão do que os que um inimigo cerca: pois aqueles têm ao menos a oportunidade de uma morte honrosa, ao passo que estes tinham um fim sem glória. A luz devolveu a terra, e penetraram até o rio Visúrgis, aonde o César chegara com a frota. As legiões embarcaram então, enquanto corria o boato de que tinham se afogado; e não se acreditou em sua salvação antes de verem o César e o exército de volta.
Estertínio, enviado à frente para receber a rendição de Segimero, irmão de Segestes, conduzira o próprio chefe e seu filho à cidade dos úbios. A ambos se concedeu o perdão, com facilidade a Segimero e com mais hesitação ao filho, porque se dizia que ele escarnecera do corpo de Quintílio Varo. Quanto ao mais, para suprir as perdas do exército, rivalizaram a Gália, a Hispânia e a Itália, oferecendo o que cada uma tinha à mão, armas, cavalos, ouro. Germânico, depois de louvar-lhes o zelo, tomou para a guerra apenas armas e cavalos e socorreu o soldado com seu próprio dinheiro. E para também abrandar a memória do desastre com afabilidade, percorria os feridos, exaltava os feitos de cada um; examinando os ferimentos, animava uns com a esperança, outros com a glória, e a todos com a palavra e o cuidado, fortalecendo-os para si e para o combate.
Naquele ano foram decretadas insígnias triunfais a Aulo Cecina, Lúcio Aprônio e Caio Sílio pelos feitos realizados sob o comando de Germânico. O título de pai da pátria, com frequência oferecido pelo povo, Tibério recusou; e não permitiu que se jurasse pelos seus atos, embora o senado o votasse, dizendo repetidamente que todas as coisas humanas são incertas e que, quanto mais ele conquistara, tanto mais se achava em terreno escorregadio. Nem por isso, contudo, gerava crença em seu espírito cívico; pois restaurara a lei de lesa-majestade, que entre os antigos tinha o mesmo nome, mas trazia a juízo outras coisas, se alguém houvesse diminuído a majestade do povo romano por traição do exército, por sublevação da plebe ou, enfim, por administração da república: julgavam-se os atos, e as palavras ficavam impunes. Augusto foi o primeiro a tratar das difamações libelosas sob a aparência dessa lei, movido pela licença de Cássio Severo, que difamara homens e mulheres ilustres com escritos insolentes; depois Tibério, consultado pelo pretor Pompeu Macro sobre se os processos de lesa-majestade deviam ser restabelecidos, respondeu que as leis deviam ser aplicadas. A ele também irritaram versos de autores desconhecidos, divulgados contra sua crueldade e arrogância e contra sua discórdia com a mãe.
Não custará relatar, nos casos de Falânio e Rúbrio, cavaleiros romanos de fortuna modesta, as primeiras tentativas dessas acusações, para que se saiba com que começos, com que arte de Tibério se insinuou esse flagelo gravíssimo, depois foi reprimido, por fim irrompeu e tudo devorou. Contra Falânio o acusador alegava que ele admitira, entre os adoradores de Augusto que em todas as casas se reuniam à maneira de confrarias, certo Cássio, mímico de vida infame, e que, ao vender seus jardins, incluíra na venda uma estátua de Augusto. A Rúbrio se imputava como crime ter violado por perjúrio a divindade de Augusto. Quando isso chegou ao conhecimento de Tibério, escreveu aos cônsules que não se decretara o céu a seu pai para que essa honra se voltasse em ruína dos cidadãos. Cássio, o histrião, costumava tomar parte, entre outros da mesma arte, nos jogos que sua mãe consagrara em memória de Augusto; e não era contra a religião que a imagem dele, como os demais simulacros das divindades, fosse incluída na venda de jardins e casas. Quanto ao juramento, devia ser avaliado como se o homem houvesse enganado a Júpiter: as injúrias aos deuses são cuidado dos deuses.