Capítulos

Meditações

Autoria e Data de Composição

As Meditações são as notas pessoais de Marco Aurélio Antonino, imperador romano de 161 a 180 d.C. Marco Aurélio não escreveu o livro para publicar. São anotações privadas, em grego, que ele fazia para si mesmo durante os últimos anos da vida, em boa parte nas campanhas militares contra os povos germânicos no Danúbio. O título original é incerto. Em grego a obra costuma aparecer como Ta eis heauton, isto é, Para si mesmo, o que descreve bem o gênero: um diário de exercícios morais, não um tratado. A divisão em doze livros é editorial e provavelmente posterior. O Livro I é uma lista de dívidas de gratidão; os Livros II e III trazem notas de lugar e tempo (entre os Quados, junto ao rio Granúa, e em Carnunto), o que ancora a redação por volta dos anos 170 a 180.

Marco Aurélio foi discípulo do estoicismo romano, em especial de Epicteto, cujas lições ele cita e elogia. As Meditações são, junto com os escritos de Epicteto e de Sêneca, uma das principais fontes que sobreviveram do estoicismo tardio. A transmissão do texto é frágil: depende de poucos manuscritos medievais e da primeira edição impressa, publicada em 1559 por Xylander a partir de um manuscrito hoje perdido. O texto usado aqui é uma tradução para o português a partir da tradição inglesa, com a numeração corrente de livro e parágrafo.

Conteúdo do Livro

    Os doze livros

  • Livro I: dívidas de gratidão, o que Marco Aurélio aprendeu com parentes, mestres e com o imperador Antonino Pio(Meditações 1)
  • Livro II: escrito entre os Quados, junto ao rio Granúa; o exercício matinal de aceitar a gente difícil e de lembrar que somos feitos para cooperar(Meditações 2)
  • Livro III: escrito em Carnunto; a brevidade da vida, o uso do tempo que resta e a divindade plantada dentro de cada um(Meditações 3)
  • Livro IV: o retiro interior, a razão comum a todos, a morte como mudança de elementos e a harmonia com o Universo(Meditações 4)
  • Livro V: levantar de manhã para fazer o trabalho de um ser humano; agir e calar, em vez de cobrar mérito(Meditações 5)
  • Livro VI: a substância dócil do universo, o dever cumprido em qualquer circunstância e vingar-se não se tornando igual a quem fez o mal(Meditações 6)
  • Livro VII: tudo se repete e tudo está entrelaçado; um só universo, uma só razão comum a todos os seres pensantes(Meditações 7)
  • Livro VIII: não se perturbar, fixar os olhos na tarefa presente e ser um homem bom como a natureza exige(Meditações 8)
  • Livro IX: quem comete injustiça é injusto consigo mesmo; aceitar a morte com bom ânimo e ser benevolente com quem erra(Meditações 9)
  • Livro X: a alma que se reconcilia com o seu destino e tudo recebe da Natureza como das mãos de um amigo(Meditações 10)
  • Livro XI: as propriedades da alma racional, que vê a si mesma e se torna o que escolhe ser; lições de Epicteto e de Sócrates(Meditações 11)
  • Livro XII: a despedida; o homem como cidadão da grande cidade do mundo, que deixa a vida em paz quando a Natureza o dispensa do palco(Meditações 12)

As Ideias Centrais

O núcleo das Meditações é o programa estoico aplicado à própria vida. Marco Aurélio repete poucas teses e volta a elas de muitos ângulos. A primeira é que existe uma razão que governa o cosmos, que ele chama de Natureza, providência, Zeus ou os deuses, e que tudo o que acontece vem dela e serve ao todo. A segunda é que o ser humano tem dentro de si uma parte que comanda, a faculdade racional, e que só ela é propriamente sua: o corpo e o sopro de vida são apenas administrados. A terceira é que o bem e o mal não estão nas coisas externas, mas no uso que a mente faz delas, de modo que insulto, dor, doença e morte não podem ferir quem não consente. A quarta é que os homens nascem uns para os outros e devem cooperar, porque participam da mesma razão. A quinta, recorrente até a obsessão, é a brevidade da vida e a aceitação serena da morte como simples mudança natural.

Diálogo com o Cristianismo

As Meditações são um caso instrutivo de proximidade e distância entre o estoicismo e a fé cristã. Vários pontos soam quase evangélicos. A ideia de uma razão divina que penetra todas as coisas, o Logos estoico, está por trás do vocabulário que o cristianismo herdou da filosofia grega, embora o prólogo de João, ao chamar Cristo de o Verbo, dê ao Logos um sentido pessoal que o estoicismo não tem. O preceito de não pagar o mal com o mal e de não se tornar igual a quem nos fez o mal está perto do ensino de Jesus sobre não resistir ao malfeitor e amar o inimigo. A exortação a corrigir quem erra com brandura, e a lembrar que quem peca peca antes contra si mesmo, ecoa o modo como o Evangelho trata o pecador. A fraternidade universal, a tese de que todo ser racional é parente nosso e de que fomos feitos para cuidar uns dos outros, encontra um paralelo no amor ao próximo, ainda que fundado em outra base.

“A melhor forma de se vingar é não se tornar igual a quem fez o mal.”

Marco Aurélio, Meditações 6:6

Os Padres da Igreja conheceram esse parentesco e o trataram com cautela. Justino Mártir, no século II, sustentou que o mesmo Logos divino que se encarnou em Cristo havia espalhado sementes da verdade entre os gregos, de modo que filósofos como Sócrates teriam participado parcialmente da razão que é Cristo. Sob essa ótica, as boas intuições morais de um estoico não seriam acaso, mas reflexo do Verbo. Tertuliano, por outro lado, desconfiava dessa aproximação e perguntava o que Atenas tinha a ver com Jerusalém. As duas reações atravessam toda a história da relação entre o cristianismo e a filosofia pagã, e as Meditações ficam bem no centro dessa tensão.

Onde Marco Aurélio Não é Cristão

A semelhança de tom esconde diferenças de fundo que é preciso marcar com honestidade. O deus das Meditações não é um Pai pessoal que cria, chama e redime. Marco Aurélio oscila entre falar dos deuses e falar de uma Natureza impessoal, e mais de uma vez deixa a alternativa em aberto: ou há providência, ou há átomos. Não há criação a partir do nada, não há aliança, não há promessa de redenção. A esperança cristã da ressurreição está ausente: a morte é dissolução nos elementos ou passagem a um estado que ele não conhece, e a sua resposta a isso é a aceitação resignada, não a esperança. A virtude depende inteiramente do esforço da razão; não há graça, não há perdão de pecados nem um Salvador. O ideal estoico da impassibilidade, da alma intocada por prazer e por dor, está longe da compaixão que chora com os que choram e do Deus que sofre na cruz. E há uma ironia histórica que não se deve esconder: foi sob o governo de Marco Aurélio que ocorreram perseguições a cristãos, entre elas os mártires de Lyon, em 177, e a morte do próprio Justino Mártir em Roma. O imperador que escreveu sobre tolerância e fraternidade universal não estendeu essa tolerância à Igreja.

“Há um só universo feito de todas as coisas, um só deus que penetra tudo, uma só substância, uma só lei, uma só razão comum a todos os seres pensantes.”

Marco Aurélio, Meditações 7:9

Essa frase mostra bem o limite. Marco Aurélio chega a um só deus que penetra tudo, uma intuição monoteísta notável para um pagão, mas o seu deus é a própria ordem racional do mundo, não um criador distinto da criação. Ler nessas linhas o Deus da Bíblia seria projetar nelas o que o texto não diz. O que elas oferecem é o ponto mais alto a que a razão pagã chegou sozinha, e por isso mesmo o melhor lugar para medir a distância entre essa razão e a Revelação.

Relevância para o Cristão de Hoje

Para o leitor cristão, as Meditações valem como espelho e como aviso. Como espelho, mostram quanto da sabedoria moral o ser humano alcança pela razão e pela consciência, sem a Revelação: a vaidade das honras, o domínio de si, a paciência com os outros, a serenidade diante da morte. Muito do que Marco Aurélio escreve um cristão pode subscrever, e a tradição cristã sempre soube colher esse bem onde quer que ele estivesse. Como aviso, mostram a fronteira dessa sabedoria. O estoico ensina a aceitar o inevitável, mas não conhece a esperança; ensina a dominar a paixão, mas não a ser transformado pela graça; ensina o dever para com o próximo, mas não o amor que se entrega na cruz. As Meditações levam o leitor ao limiar de uma vida reta e o deixam ali. O cristão lê esse diário como quem ouve um homem honesto e cansado fazer o melhor que a razão permite, e reconhece, na falta que o texto não nomeia, o lugar exato onde a fé tem algo a oferecer que a filosofia não tinha.