Capítulos

A República - Livro IX
O retrato do homem tirânico, a prova de que o justo é o mais feliz e a hierarquia dos três prazeres
Sobre a obra
A República é um diálogo de Platão (c. 428 a 348 a.C.), filósofo ateniense discípulo de Sócrates. A obra investiga o que é a justiça e desenha uma cidade ideal como modelo. A maioria dos estudiosos data a composição entre cerca de 380 e 370 a.C.
A obra completa tem dez livros. Este é o Livro IX, onde a investigação chega ao seu ponto culminante. Depois de descrever os tipos de regime e de alma em decadência, Platão fecha a comparação retratando o pior deles e provando, por três caminhos, que o justo é mais feliz que o injusto.
O que este livro discute
O livro abre com o retrato do homem tirânico. Sócrates descreve como ele nasce dos desejos sem lei, aqueles que afloram nos sonhos. O tirano é escravo dos próprios apetites. Vive em medo, desconfiança e carência, incapaz de governar a si mesmo. Por isso, conclui Sócrates, ele é o mais infeliz dos homens, ainda que pareça poderoso.
Em seguida vêm as três provas de que o justo vive melhor que o injusto. A primeira parte do retrato do tirano: o homem mais justo é o mais livre e feliz, o mais injusto é o mais escravizado e miserável. A segunda parte da divisão da alma em três partes, cada uma com seu prazer próprio: o amante do lucro, o amante da honra e o amante da sabedoria, e só o filósofo, que conhece os três prazeres, pode julgá-los. A terceira distingue prazeres verdadeiros de prazeres falsos, e mostra que apenas o prazer ligado à razão e à verdade preenche de modo duradouro.
No fim, Sócrates afirma que a cidade ideal talvez não exista em lugar nenhum da terra. Mas existe, diz ele, como um modelo nos céus, que o homem prudente pode contemplar e segundo o qual pode ordenar a sua própria alma. A cidade justa torna-se assim uma cidade interior, construída dentro de si.
Relevância para a fé cristã
A tese central deste livro, a de que o justo é o mais feliz mesmo quando aparenta o contrário, e a de que a verdadeira felicidade está na ordem da alma sob o governo da razão, antecipa parte da reflexão cristã sobre a beatitude, a vida feliz como fim último do ser humano. A ideia de que o desordenado é escravo dos próprios desejos ecoa em descrições cristãs do pecado como servidão.
A felicidade ou a infelicidade de uma cidade ou de um indivíduo não depende da quantidade de ouro ou de poder, mas da justiça ou da injustiça que neles reina.Platão, A República, Livro IX
Agostinho retoma e radicaliza esse percurso. Ele concede que a vida feliz, a vita beata, é o que todos buscam, mas conclui que ela não se encontra dentro de si nem na razão por si mesma: encontra-se apenas em Deus. A felicidade plena, para ele, é alegrar-se em Deus, e fora disso a busca da alma fracassa. A cidade nos céus como modelo interior foi aproximada, com cautela, da cidadania celeste de que fala Filipenses 3:20, embora as duas imagens nasçam de mundos distintos.
Cabe a ressalva honesta. Platão funda a felicidade na razão natural, sem graça, sem pecado no sentido cristão e sem comunhão com um Deus pessoal. A sua cidade nos céus é um padrão racional contemplado pela mente, não a Jerusalém celeste habitada por Deus. A convergência está na intuição de que a verdadeira felicidade está na ordem reta da alma, não na semelhança entre o céu de Platão e o céu cristão.
Para o retrato do homem tirânico e a tese do justo feliz, ver: