Sobre A Imitação de Cristo

A Imitação de Cristo (De Imitatione Christi) é um manual de devoção cristã em quatro livros. Foi composta em latim nos Países Baixos, provavelmente entre cerca de 1418 e 1427, e circulou de início de forma anônima. Depois da Bíblia, tornou-se um dos textos cristãos mais lidos, copiados e traduzidos do Ocidente: mais de dois mil editores e edições saíram ao longo de seis séculos.

A obra nasce da Devotio Moderna, movimento de renovação espiritual surgido no fim do século XIV na região do rio IJssel, ligado a Geert Grote e aos Irmãos da Vida Comum. O programa da Devotio Moderna era prático, não especulativo: menos disputa teológica, mais reforma interior, leitura meditada e exercício diário das virtudes. Esse tom marca cada página da Imitação. O texto é ascético e voltado à vida monástica, mas foi adotado também por leigos.

A autoria foi disputada por séculos. Até o século XVII, o texto era atribuído sem grande controvérsia a Tomás de Kempis (Thomas a Kempis, c. 1380-1471), cônego regular agostiniano do mosteiro de Monte Santa Inês, perto de Zwolle. A partir do século XVII abriu-se uma longa polêmica: eruditos franceses defenderam Jean Charlier de Gerson, chanceler da Universidade de Paris, enquanto beneditinos italianos sustentaram Giovanni Gersen, suposto abade de Vercelli no século XIII. Hoje a atribuição majoritária volta a Tomás de Kempis, sem que o debate esteja encerrado de todo.

A recepção atravessou as fronteiras confessionais. A Imitação foi leitura formadora entre os primeiros jesuítas e peça central da espiritualidade católica, mas também moldou figuras protestantes: John Wesley, fundador do metodismo, publicou em 1735 uma tradução inglesa intitulada The Christian's Pattern, e relatos atribuem ao texto influência sobre a conversão de John Newton. Lutero, por outro lado, dificilmente a teria em alta conta, já que ela mantém referências ao purgatório, à intercessão dos santos e ao valor das obras, pontos que sua doutrina da justificação pela fé contestava.

Os quatro livros

Os livros I e II trazem avisos para a vida espiritual e para a vida interior: a renúncia a si mesmo, a humildade, o desprezo das vaidades, o recolhimento. O livro III, de longe o mais extenso, é construído como diálogo entre Cristo e a alma, sobre a consolação interior. O livro IV é uma exortação à sagrada comunhão e ao Santíssimo Sacramento.

Passagens que marcaram a tradição

Alguns trechos resumem o método e o tom da obra. Cada citação leva à passagem completa.

A abertura. O ponto de partida não é o saber, mas o seguir: quem acompanha Cristo não anda em trevas.

Humildade antes da especulação. De que vale disputar sobre a Trindade se falta a humildade, e com ela o que agrada a Deus. A frase condensa a desconfiança da Devotio Moderna diante da pura especulação.

A escuta interior. O livro III abre com a alma que se cala para ouvir o Senhor que fala por dentro, longe do ruído do mundo.

O convite ao Sacramento. O livro IV recebe as palavras de Cristo como dirigidas a quem está cansado e oprimido, e funda nelas a aproximação à comunhão.

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