A Origem das Espécies - Capítulo XIV: Afinidades Mútuas dos Seres Orgânicos 7
Afinidades, Morfologia, Embriologia
Qualquer mudança na estrutura e na função que possa ser efetuada por pequenos estágios está ao alcance da seleção natural; assim, um órgão tornado, por hábitos de vida alterados, inútil ou prejudicial para um propósito poderia ser modificado e usado para outro. Um órgão poderia, também, ser retido para apenas uma das suas funções antigas. Órgãos originalmente formados com o auxílio da seleção natural, quando se tornam inúteis, podem muito bem ser variáveis, pois as suas variações já não podem ser contidas pela seleção natural. Tudo isso concorda bem com o que vemos na natureza. Além disso, seja qual for o período da vida em que o desuso ou a seleção reduza um órgão (e isso em geral acontecerá quando o ser chegou à maturidade e exerce plenamente as suas capacidades de ação), o princípio da hereditariedade em idades correspondentes tenderá a reproduzir o órgão no seu estado reduzido na mesma idade madura, mas raramente o afetará no embrião. Assim podemos entender o tamanho maior dos órgãos rudimentares no embrião em relação às partes vizinhas, e o seu tamanho relativo menor no adulto. Se, por exemplo, o dedo de um animal adulto foi usado cada vez menos ao longo de muitas gerações, por causa de alguma mudança de hábitos, ou se um órgão ou glândula foi exercitado cada vez menos na sua função, podemos inferir que ele se reduziria em tamanho nos descendentes adultos desse animal, mas conservaria quase o seu padrão original de desenvolvimento no embrião.
Resta, porém, esta dificuldade. Depois que um órgão deixou de ser usado e, em consequência, se reduziu bastante, como ele pode ser reduzido ainda mais de tamanho até restar o mais ínfimo vestígio; e como pode, por fim, ser totalmente apagado? Dificilmente o desuso continua a produzir algum efeito adicional depois que o órgão já se tornou sem função. Aqui é necessária alguma explicação adicional que eu não posso dar. Se, por exemplo, fosse possível provar que toda parte da organização tende a variar em maior grau na direção da diminuição do que do aumento de tamanho, então conseguiríamos entender como um órgão que se tornou inútil seria tornado, independentemente dos efeitos do desuso, rudimentar, e por fim totalmente suprimido; pois as variações na direção da diminuição de tamanho já não seriam contidas pela seleção natural. O princípio da economia de crescimento, explicado num capítulo anterior, pelo qual os materiais que formam qualquer parte, se não forem úteis ao seu possuidor, são poupados na medida do possível, talvez entre em jogo ao tornar rudimentar uma parte inútil. Mas esse princípio quase necessariamente se limitará aos estágios iniciais do processo de redução; pois não podemos supor que uma minúscula papila, por exemplo, que representa numa flor masculina o pistilo da flor feminina, e que é formada apenas de tecido celular, pudesse ser reduzida ou absorvida ainda mais para economizar nutrientes.
Por fim, como os órgãos rudimentares, por quaisquer passos que tenham sido rebaixados à sua atual condição inútil, são o registro de um estado anterior das coisas, e foram retidos unicamente pelo poder da hereditariedade, podemos entender, na visão genealógica da classificação, por que os sistematas, ao colocar os organismos nos seus devidos lugares no sistema natural, muitas vezes acharam as partes rudimentares tão úteis quanto, ou às vezes até mais úteis do que, partes de grande importância fisiológica. Os órgãos rudimentares podem ser comparados às letras de uma palavra, ainda conservadas na grafia, mas tornadas inúteis na pronúncia, e que servem de pista para a sua derivação. Na visão da descendência com modificação, podemos concluir que a existência de órgãos numa condição rudimentar, imperfeita e inútil, ou totalmente atrofiados, longe de apresentar uma dificuldade estranha, como sem dúvida apresentam na velha doutrina da criação, poderia até ter sido prevista de acordo com as visões aqui explicadas.
Summary
Neste capítulo tentei mostrar que a disposição de todos os seres orgânicos, ao longo de todo o tempo, em grupos dentro de grupos; que a natureza das relações pelas quais todos os organismos vivos e extintos se unem, por linhas de afinidade complexas, radiantes e sinuosas, em umas poucas grandes classes; as regras seguidas e as dificuldades encontradas pelos naturalistas em suas classificações; o valor atribuído aos caracteres, quando constantes e disseminados, sejam eles de alta importância ou da mais trivial, ou, como no caso dos órgãos rudimentares, de nenhuma importância; a ampla diferença de valor entre caracteres analógicos ou adaptativos e caracteres de afinidade verdadeira; e outras regras semelhantes; tudo isso decorre naturalmente se admitirmos a ascendência comum das formas aparentadas, junto com sua modificação por meio da variação e da seleção natural, com as contingências da extinção e da divergência de caráter. Ao considerar essa visão da classificação, é preciso ter em mente que o elemento da descendência tem sido usado universalmente para agrupar os sexos, as idades, as formas dimórficas e as variedades reconhecidas de uma mesma espécie, por mais que difiram entre si em estrutura. Se estendermos o uso desse elemento da descendência, a única causa de semelhança nos seres orgânicos que conhecemos com certeza, entenderemos o que se quer dizer com o Sistema Natural: ele é genealógico em sua tentativa de disposição, com os graus de diferença adquirida marcados pelos termos variedades, espécies, gêneros, famílias, ordens e classes.
Por essa mesma visão da descendência com modificação, a maior parte dos grandes fatos da morfologia se torna inteligível, seja quando olhamos para o mesmo padrão exibido pelas diferentes espécies de uma mesma classe em seus órgãos homólogos, qualquer que seja a função a que sejam aplicados, seja quando olhamos para as homologias seriais e laterais em cada animal e planta individual.
Pelo princípio de variações ligeiras e sucessivas, que não surgem necessariamente nem em geral num período muito precoce da vida e que são herdadas num período correspondente, podemos entender os fatos principais da embriologia, a saber: a estreita semelhança, no embrião individual, das partes que são homólogas e que, quando maduras, tornam-se muito diferentes em estrutura e função; e a semelhança das partes ou órgãos homólogos em espécies aparentadas, ainda que distintas, mesmo quando, no estado adulto, estão adaptados a hábitos tão diferentes quanto possível. As larvas são embriões ativos, que se modificaram de modo especial, em maior ou menor grau, em relação a seus hábitos de vida, com suas modificações herdadas numa idade precoce correspondente. Por esses mesmos princípios, e tendo em mente que, quando os órgãos se reduzem de tamanho, seja pelo desuso, seja pela seleção natural, isso ocorrerá em geral no período da vida em que o ser tem de prover suas próprias necessidades, e tendo em mente quão forte é a força da hereditariedade, a ocorrência de órgãos rudimentares poderia até ter sido prevista. A importância dos caracteres embriológicos e dos órgãos rudimentares na classificação é compreensível pela visão de que uma disposição natural tem de ser genealógica.
Por fim, as várias classes de fatos que consideramos neste capítulo me parecem proclamar com tanta clareza que as inúmeras espécies, gêneros e famílias que povoam este mundo descendem todos, cada um dentro de sua própria classe ou grupo, de pais comuns, e que todos foram modificados no curso da descendência, que eu adotaria essa visão sem hesitação, ainda que ela não fosse sustentada por nenhum outro fato ou argumento.