A Origem das Espécies - Capítulo VIII: Instinto 5
Instinto
Pensarão, de fato, que tenho uma confiança excessiva no princípio da seleção natural ao não admitir que fatos tão admiráveis e bem estabelecidos aniquilem de imediato a teoria. No caso mais simples dos insetos estéreis todos de uma só casta, que, como creio, foram tornados diferentes dos machos e das fêmeas férteis pela seleção natural, podemos concluir, por analogia com as variações comuns, que as sucessivas, pequenas e vantajosas modificações não surgiram primeiro em todas as operárias do mesmo ninho, mas apenas em algumas poucas, e que, pela sobrevivência das comunidades cujas fêmeas produziam mais operárias com a modificação vantajosa, todas as operárias acabaram, por fim, adquirindo essa característica. Segundo essa visão, deveríamos ocasionalmente encontrar no mesmo ninho insetos estéreis que apresentam gradações de estrutura, e isso de fato encontramos, e nem raramente, considerando como poucos insetos estéreis fora da Europa foram examinados com cuidado. O Sr. F. Smith mostrou que as operárias de várias formigas britânicas diferem surpreendentemente umas das outras em tamanho e às vezes em cor, e que as formas extremas podem ser ligadas por indivíduos retirados do mesmo ninho. Eu mesmo comparei gradações perfeitas desse tipo. Às vezes acontece de as operárias de tamanho maior ou menor serem as mais numerosas, ou de tanto as grandes quanto as pequenas serem numerosas, enquanto as de tamanho intermediário são escassas. A Formica flava tem operárias maiores e menores, com algumas poucas de tamanho intermediário, e, nessa espécie, como observou o Sr. F. Smith, as operárias maiores têm olhos simples (ocelos) que, embora pequenos, podem ser claramente distinguidos, ao passo que as menores têm os ocelos rudimentares. Tendo dissecado com cuidado vários exemplares dessas operárias, posso afirmar que os olhos são muito mais rudimentares nas operárias menores do que se explicaria apenas por seu tamanho proporcionalmente menor. E creio plenamente, embora não me atreva a afirmar com tanta certeza, que as operárias de tamanho intermediário têm os ocelos numa condição exatamente intermediária. De modo que aqui temos dois grupos de operárias estéreis no mesmo ninho, diferindo não só em tamanho, mas em seus órgãos da visão, e ainda assim ligados por alguns poucos membros numa condição intermediária. Posso fazer um desvio acrescentando que, se as operárias menores tivessem sido as mais úteis à comunidade, e fossem continuamente selecionados aqueles machos e fêmeas que produziam cada vez mais operárias menores, até que todas as operárias estivessem nessa condição, teríamos então uma espécie de formiga com operárias quase na mesma condição das de Myrmica. Pois as operárias de Myrmica não têm sequer rudimentos de ocelos, embora os machos e as fêmeas desse gênero tenham ocelos bem desenvolvidos.
Posso dar mais um caso: eu esperava com tanta confiança encontrar ocasionalmente gradações de estruturas importantes entre as diferentes castas de operárias da mesma espécie que aceitei de bom grado a oferta do Sr. F. Smith de numerosos exemplares de um mesmo ninho da formiga-de-correição (Anomma) da África Ocidental. O leitor talvez aprecie melhor o grau de diferença entre essas operárias se eu der, não as medidas reais, mas uma ilustração rigorosamente exata: a diferença era a mesma que se víssemos um grupo de operários construindo uma casa, dos quais muitos tivessem um metro e sessenta de altura e muitos quase cinco metros, mas devemos supor, além disso, que os operários maiores tivessem cabeças quatro vezes maiores, em vez de três, do que as dos homens menores, e mandíbulas quase cinco vezes maiores. As mandíbulas, ademais, das formigas operárias dos vários tamanhos diferiam de modo admirável em formato e na forma e no número dos dentes. Mas o fato importante para nós é que, embora as operárias possam ser agrupadas em castas de tamanhos diferentes, elas passam de modo imperceptível umas às outras, assim como a estrutura tão distinta de suas mandíbulas. Falo com confiança sobre este último ponto, pois Sir J. Lubbock fez para mim, com a câmara clara, desenhos das mandíbulas que dissequei das operárias dos vários tamanhos. O Sr. Bates, em seu interessante O Naturalista no Rio Amazonas, descreveu casos análogos.
Diante desses fatos, acredito que a seleção natural, atuando sobre as formigas férteis, ou pais, poderia formar uma espécie que produzisse regularmente operárias todas de grande tamanho com uma só forma de mandíbula, ou todas de tamanho pequeno com mandíbulas bem diferentes, ou, por fim, e esta é a maior dificuldade, um conjunto de operárias de um tamanho e estrutura e, simultaneamente, outro conjunto de operárias de tamanho e estrutura diferentes. Uma série gradual teria se formado primeiro, como no caso da formiga-de-correição, e depois as formas extremas teriam sido produzidas em número cada vez maior, pela sobrevivência dos pais que as geravam, até que nenhuma com estrutura intermediária fosse mais produzida.
Uma explicação análoga foi dada pelo Sr. Wallace para o caso igualmente complexo de certas borboletas malaias que aparecem regularmente sob duas ou até três formas fêmeas distintas, e por Fritz Müller para certos crustáceos brasileiros que também aparecem sob duas formas macho bem distintas. Mas não é preciso discutir esse assunto aqui.
Já expliquei como, acredito, surgiu o admirável fato de duas castas bem definidas de operárias estéreis existirem no mesmo ninho, ambas muito diferentes entre si e de seus pais. Podemos ver como sua produção pode ter sido útil a uma comunidade social de formigas, pelo mesmo princípio segundo o qual a divisão do trabalho é útil ao homem civilizado. As formigas, no entanto, trabalham por instintos herdados e por órgãos ou ferramentas herdados, enquanto o homem trabalha por conhecimento adquirido e instrumentos fabricados. Mas devo confessar que, com toda a minha fé na seleção natural, eu jamais teria previsto que esse princípio pudesse ser eficaz a um grau tão elevado, se o caso desses insetos estéreis não me tivesse levado a essa conclusão. Por isso discuti esse caso com alguma extensão, ainda que totalmente insuficiente, para mostrar o poder da seleção natural, e também porque esta é de longe a mais séria dificuldade especial que minha teoria encontrou. O caso é também muito interessante, pois prova que, nos animais como nas plantas, qualquer grau de modificação pode ser alcançado pelo acúmulo de numerosas, pequenas e espontâneas variações que sejam de algum modo vantajosas, sem que o exercício ou o hábito tenham entrado em jogo. Pois hábitos peculiares, restritos às operárias estéreis, por mais longamente que fossem seguidos, não poderiam afetar os machos e as fêmeas férteis, que são os únicos a deixar descendentes. Surpreende-me que ninguém tenha apresentado esse caso demonstrativo dos insetos estéreis contra a conhecida doutrina do hábito herdado, defendida por Lamarck.
Summary
Tentei mostrar neste capítulo, de forma breve, que as qualidades mentais dos nossos animais domésticos variam e que essas variações são herdadas. De maneira ainda mais breve, procurei mostrar que os instintos variam ligeiramente em estado natural. Ninguém vai contestar que os instintos têm a maior importância para cada animal. Por isso, não há dificuldade real em que, sob condições de vida em mudança, a seleção natural acumule, em qualquer grau, ligeiras modificações de instinto que sejam de algum modo úteis. Em muitos casos, o hábito, ou o uso e o desuso, provavelmente entraram em jogo. Não pretendo que os fatos apresentados neste capítulo reforcem em alto grau a minha teoria, mas, no meu melhor julgamento, nenhum dos casos difíceis a destrói. Por outro lado, há fatos que tendem a corroborar a teoria da seleção natural: o de que os instintos nem sempre são absolutamente perfeitos e estão sujeitos a erros; o de que não se pode demonstrar que algum instinto tenha sido produzido para o bem de outros animais, embora os animais tirem proveito dos instintos alheios; e o de que o princípio da história natural, “Natura non facit saltum”, aplica-se tanto aos instintos quanto à estrutura corporal, sendo claramente explicável pelas concepções acima e, de outro modo, inexplicável.
Essa teoria também se fortalece com alguns poucos outros fatos relativos aos instintos, como aquele caso comum de espécies muito aparentadas, mas distintas, que, habitando partes distantes do mundo e vivendo sob condições de vida bastante diferentes, ainda assim conservam com frequência quase os mesmos instintos. Por exemplo, pelo princípio da hereditariedade conseguimos entender como o sabiá da América do Sul tropical reveste o ninho de lama, da mesma maneira peculiar que faz o nosso sabiá britânico; como os calaus da África e da Índia têm o mesmo instinto extraordinário de emparedar e aprisionar as fêmeas num buraco de árvore, deixando apenas um pequeno orifício no reboco pelo qual os machos as alimentam, junto com os filhotes depois que nascem; e como as carriças machos (Troglodytes) da América do Norte constroem “ninhos de macho” para dormir, tal como os machos das nossas carriças, um hábito totalmente diferente do de qualquer outra ave conhecida. Por fim, talvez não seja uma dedução lógica, mas, para a minha imaginação, é muito mais satisfatório olhar para instintos como o do jovem cuco que expulsa seus irmãos adotivos, as formigas que escravizam outras, as larvas dos icneumonídeos que se alimentam dentro do corpo vivo de lagartas, não como instintos especialmente concedidos ou criados, mas como pequenas consequências de uma lei geral que conduz ao progresso de todos os seres orgânicos, a saber: multiplicar-se, variar, deixar viver o mais forte e morrer o mais fraco.