A Origem das Espécies - Capítulo VI: Dificuldades da Teoria 2

Dificuldades da Teoria

Visto que alguns membros de classes que respiram na água, como os Crustáceos e os Moluscos, estão adaptados a viver em terra; e visto que temos aves e mamíferos voadores, insetos voadores dos tipos mais diversos, e antes tivemos répteis voadores, é concebível que os peixes voadores, que hoje planam por longas distâncias no ar, erguendo-se e virando levemente com a ajuda de suas nadadeiras agitadas, possam ter se modificado em animais perfeitamente alados. Se isso tivesse ocorrido, quem teria imaginado que, num estágio inicial de transição, eles haviam sido habitantes do oceano aberto, e que tinham usado seus órgãos de voo incipientes exclusivamente, até onde sabemos, para escapar de serem devorados por outros peixes?
Quando vemos qualquer estrutura altamente aperfeiçoada para um hábito específico, como as asas de uma ave para o voo, devemos lembrar que os animais que exibiam os graus iniciais de transição da estrutura raramente terão sobrevivido até os dias de hoje, pois terão sido suplantados por seus sucessores, que se tornaram aos poucos mais perfeitos pela seleção natural. Além disso, podemos concluir que estados de transição entre estruturas adequadas a hábitos de vida muito diferentes raramente terão se desenvolvido, num período inicial, em grande número e sob muitas formas subordinadas. Assim, voltando à nossa ilustração imaginária do peixe voador, não parece provável que peixes capazes de verdadeiro voo tivessem se desenvolvido sob muitas formas subordinadas, para capturar presas de muitos tipos e de muitas maneiras, em terra e na água, antes que seus órgãos de voo tivessem chegado a um alto grau de perfeição, a ponto de lhes dar uma vantagem decidida sobre outros animais na batalha pela vida. Por isso, a chance de descobrir, em estado fóssil, espécies com graus de transição de estrutura será sempre menor, por terem existido em menor número, do que no caso de espécies com estruturas plenamente desenvolvidas.
Vou dar agora dois ou três exemplos, tanto de hábitos diversificados quanto de hábitos modificados, nos indivíduos de uma mesma espécie. Em qualquer dos casos, seria fácil para a seleção natural adaptar a estrutura do animal a seus hábitos modificados, ou exclusivamente a um de seus vários hábitos. É difícil, porém, decidir, e para nós é irrelevante, se em geral os hábitos mudam primeiro e a estrutura depois, ou se leves modificações de estrutura levam a hábitos modificados; ambos provavelmente ocorrem muitas vezes quase ao mesmo tempo. Quanto aos casos de hábitos modificados, basta apenas mencionar o dos muitos insetos britânicos que hoje se alimentam de plantas exóticas, ou exclusivamente de substâncias artificiais. De hábitos diversificados poderiam ser dados inúmeros exemplos: muitas vezes observei na América do Sul um papa-moscas tirano (Saurophagus sulphuratus) pairando sobre um ponto e depois seguindo para outro, como um peneireiro, e em outras vezes ficando parado à margem da água, e então mergulhando nela como um martim-pescador atrás de um peixe. No nosso próprio país, o chapim-real (Parus major) pode ser visto escalando galhos quase como um trepador; às vezes, como um picanço, mata pequenas aves com golpes na cabeça; e muitas vezes o vi e o ouvi martelando as sementes do teixo num galho, quebrando-as assim como faz uma trepadeira-azul. Na América do Norte, o urso-negro foi visto por Hearne nadando durante horas de boca bem aberta, capturando assim insetos na água, quase como uma baleia.
Como às vezes vemos indivíduos que seguem hábitos diferentes dos próprios de sua espécie e das outras espécies do mesmo gênero, podemos esperar que esses indivíduos ocasionalmente deem origem a novas espécies, com hábitos anômalos e com a estrutura modificada, de forma leve ou considerável, em relação à de seu tipo. E casos assim ocorrem na natureza. Pode-se dar exemplo mais notável de adaptação do que o do pica-pau para escalar árvores e capturar insetos nas frestas da casca? Mesmo assim, na América do Norte pica-paus que se alimentam em grande parte de frutas, e outros com asas alongadas que perseguem insetos em pleno voo. Nas planícies do Prata, onde mal cresce uma árvore, um pica-pau (Colaptes campestris) que tem dois dedos na frente e dois atrás, uma língua longa e pontiaguda, penas da cauda pontudas e rígidas o bastante para sustentar a ave em posição vertical sobre um poste, mas não tão rígidas quanto nos pica-paus típicos, e um bico reto e forte. O bico, no entanto, não é tão reto nem tão forte quanto nos pica-paus típicos, mas é forte o suficiente para perfurar a madeira. Por isso esse Colaptes, em todas as partes essenciais de sua estrutura, é um pica-pau. Mesmo em caracteres tão insignificantes como a coloração, o tom áspero da voz e o voo ondulado, seu estreito parentesco de sangue com o nosso pica-pau comum se declara com clareza. Ainda assim, posso afirmar, não com base nas minhas próprias observações, mas também nas do preciso Azara, que em certas regiões extensas ele não escala árvores e faz seu ninho em buracos nas barrancas! Em certas outras regiões, contudo, esse mesmo pica-pau, como informa o senhor Hudson, frequenta árvores e perfura buracos no tronco para o ninho. Posso mencionar, como outra ilustração dos hábitos variados desse gênero, que De Saussure descreveu um Colaptes mexicano que perfura buracos em madeira dura para estocar bolotas.
Os petréis são as mais aéreas e oceânicas das aves, mas, nos enseios calmos da Terra do Fogo, o Puffinuria berardi, por seus hábitos gerais, por seu espantoso poder de mergulho, por sua maneira de nadar e de voar quando obrigado a alçar voo, seria confundido por qualquer um com um alca ou um mergulhão. Mesmo assim, é essencialmente um petrel, mas com muitas partes de sua organização profundamente modificadas em relação a seus novos hábitos de vida. O pica-pau do Prata, por sua vez, teve a estrutura apenas levemente modificada. No caso do melro-d'água, o observador mais perspicaz, examinando seu corpo morto, jamais suspeitaria de seus hábitos subaquáticos. Ainda assim, essa ave, aparentada à família dos tordos, vive de mergulhar, usando as asas debaixo d'água e agarrando pedras com os pés. Todos os membros da grande ordem dos insetos himenópteros são terrestres, exceto o gênero Proctotrupes, que Sir John Lubbock descobriu ter hábitos aquáticos. Ele entra na água com frequência e mergulha valendo-se não das pernas, mas das asas, e permanece até quatro horas sob a superfície. Mesmo assim, não exibe nenhuma modificação de estrutura de acordo com seus hábitos anormais.
Quem acredita que cada ser foi criado tal como o vemos hoje deve ter sentido surpresa, vez ou outra, ao encontrar um animal cujos hábitos e estrutura não estão em concordância. O que pode ser mais evidente do que o fato de os pés palmados dos patos e gansos serem feitos para nadar? Mesmo assim, gansos das terras altas com pés palmados que raramente se aproximam da água, e ninguém, exceto Audubon, viu a fragata, que tem os quatro dedos palmados, pousar na superfície do oceano. Por outro lado, mergulhões e galeirões são eminentemente aquáticos, embora seus dedos sejam apenas debruados por uma membrana. O que parece mais evidente do que o fato de os dedos longos e sem membrana dos Grallatores serem feitos para caminhar sobre pântanos e plantas flutuantes? A galinha-d'água e o codornizão são membros dessa ordem, mas a primeira é quase tão aquática quanto o galeirão, e o segundo é quase tão terrestre quanto a codorniz ou a perdiz. Nesses casos, e muitos outros poderiam ser dados, os hábitos mudaram sem uma mudança correspondente de estrutura. Pode-se dizer que os pés palmados do ganso das terras altas se tornaram quase rudimentares em função, embora não em estrutura. Na fragata, a membrana profundamente reentrante entre os dedos mostra que a estrutura começou a mudar.
Quem acredita em atos de criação separados e incontáveis pode dizer que, nesses casos, aprouve ao Criador fazer com que um ser de um tipo ocupasse o lugar de outro pertencente a um tipo diferente. Mas isso me parece apenas reformular o fato em linguagem digna. Quem acredita na luta pela existência e no princípio da seleção natural reconhecerá que todo ser orgânico se empenha constantemente em aumentar em número, e que, se algum ser varia ainda que minimamente, seja nos hábitos ou na estrutura, e assim ganha vantagem sobre algum outro habitante do mesmo país, ele tomará o lugar desse habitante, por mais diferente que esse lugar seja do seu próprio. Por isso não lhe causará surpresa que existam gansos e fragatas de pés palmados vivendo em terra seca e raramente pousando na água, que existam codornizões de dedos longos vivendo em prados em vez de pântanos, que existam pica-paus onde mal cresce uma árvore, que existam tordos mergulhadores e himenópteros mergulhadores, e petréis com os hábitos das alcas.