Capítulos

Baruc
Autoria e Data de Composição
O livro é atribuído a Baruc, filho de Nerias, o escriba e secretário do profeta Jeremias mencionado em
O texto se passa na Babilônia, durante o exílio do século VI a.C., com Baruc lendo o livro em voz alta junto ao rio aos deportados. A maioria dos especialistas considera, porém, que a obra é pseudoepígrafa: a atribuição empresta o nome de uma figura prestigiosa do passado a um texto composto séculos depois, prática comum na literatura judaica do Segundo Templo (Daniel, 1 Enoque e a Sabedoria de Salomão seguem o mesmo padrão). A composição é datada entre meados do século II a.C. e meados do século I a.C., já em ambiente helenístico. O cenário exílico funciona como moldura literária, um exílio relembrado e teologicamente reprocessado, não como reportagem de testemunha ocular.
Quem defende a tradição observa que a pseudonímia atributiva não equivalia, no judaísmo antigo, a falsificação no sentido moderno: associar um texto a Baruc reivindicava a autoridade e a continuidade da escola de Jeremias, do mesmo modo que salmos eram postos sob o nome de Davi e a literatura sapiencial sob o de Salomão. A datação tardia e a transmissão grega situam o livro onde a comunidade que o leu como Escritura o produziu e usou. Esse dado delimita o que a obra é (testemunho de uma teologia do exílio amadurecida em meio helenístico) sem, por si só, decidir a questão de cânon e inspiração.
A composição também é compósita. As unidades diferem em gênero, vocabulário e teologia, e as costuras são visíveis. A transição em Br 3:9, onde o poema sobre a Sabedoria irrompe abruptamente sobre a oração penitencial, é o tipo de junta que sugere montagem de blocos pré-existentes. A crítica aponta ainda dependência literária: a oração penitencial parafraseia a confissão de
(datada de cerca de 165 a.C.), o poema sapiencial reflete a doutrina do Eclesiástico, e os poemas finais ecoam o Salmo de Salomão 11 (posterior a 63 a.C.). Quem defende a unidade redacional responde que o caráter compósito é a regra na formação dos livros bíblicos (o próprio Jeremias circulou em formas hebraica e grega de extensões distintas) e que costurar oração, hino e consolação reflete um arranjo teológico deliberado, do pecado à confissão, da Sabedoria que é a Torá, à esperança de retorno.
Estrutura literária
- Br 1:1-14 (narrativa introdutória em prosa): cenário e leitura do livro junto ao rio na Babilônia.
- Br 1:15-3:8 (oração penitencial): confissão coletiva do pecado que levou ao exílio, com possíveis traços de um original semítico.
- Br 3:9-4:4 (poema sapiencial): elogio da Sabedoria identificada com a Lei.
- Br 4:5-5:9 (poemas de consolação): encorajamento e promessa de retorno a Jerusalém.
- Br 6 (Carta de Jeremias): peça independente, anexada ao livro apenas na tradição grega.
A Sabedoria e a Lei (Br 3:9-4:4)
O poema sapiencial trabalha dentro de uma tradição já estabelecida e admite a dívida na própria estrutura. O esqueleto é a pergunta de
(onde se achará a sabedoria?), com seu inventário de lugares inacessíveis que nenhum mortal alcança. Sobre essa moldura, Baruc enxerta a Sabedoria personificada de
(presente na criação) e, sobretudo, o passo decisivo de
onde Ben Sira identifica a Sabedoria com o livro da aliança, a Lei que Moisés prescreveu. Br 4:1 repete o movimento quase como decalque: a Sabedoria é o livro dos preceitos de Deus, a Lei que subsiste para sempre.
A equação Sabedoria igual a Torá não é, portanto, invenção do autor, mas um argumento em circulação no judaísmo do Segundo Templo, refinado de mão em mão entre Jó, Provérbios, Ben Sira e Baruc. A leitura crítica vê nisso a marca de literatura derivada: um texto que cita Jó para formular a pergunta e Ben Sira para fechar a resposta é elo de uma conversa humana, não voz inaugural e sem precedentes. A leitura que valoriza a tradição responde que a literatura sapiencial é cumulativa por gênero, cada geração reformulando a herança recebida, e que a Sabedoria antes declarada inacessível torna-se aqui algo que se pode ter nas mãos e obedecer, oferecida a um Israel no exílio como caminho concreto de retorno. Ambas as leituras concordam num ponto: a análise de fontes mostra como o texto foi composto, mas não decide se a doutrina que ele afirma é verdadeira.
A Carta de Jeremias (Capítulo 6)
O capítulo 6 é designado "Carta de Jeremias" na Septuaginta e na Vulgata, e em várias tradições (a Septuaginta, as Bíblias ortodoxas) circulou contado como livro à parte. O conteúdo é uma longa polêmica contra a idolatria, estruturada em seções que terminam com variações da frase "não são deuses". A obra se apresenta como cópia de uma carta enviada por Jeremias aos deportados, mas o consenso acadêmico não a atribui ao profeta histórico: é composição posterior, situada entre o fim do século IV e o século II a.C., e nem sequer é, em rigor, uma carta (falta saudação, destinatário nominal, despedida; é um sermão com refrão). A moldura invoca sete gerações de cativeiro, número simbólico que contrasta com os setenta anos de
A sátira anti-ídolos (deuses de prata e ouro que não veem, não falam, não se defendem de ladrões nem da ferrugem, que os sacerdotes precisam vestir e que morcegos e gatos pousam por cima) elabora um veio já consolidado:
(o lenhador que com metade da árvore se aquece e com a outra fabrica um deus a quem reza),
e o
com a mesma matéria reaparecendo depois em Sabedoria 13-15. Quem lê de forma crítica vê aí dependência textual em vez de revelação independente; quem defende a obra observa que a repetição deliberada de um tópos é como o pensamento bíblico trabalha, e que a glosa tem função catequética, fixar nos exilados uma convicção monoteísta sob a pressão de uma cultura imperial sedutora.
Status Deuterocanônico
Baruc não está no cânon hebraico (Tanakh) nem no cânon protestante. O judaísmo rabínico não o incluiu em nenhuma lista de Escrituras, e Martinho Lutero o classificou como apócrifo. O livro integra a Septuaginta (LXX), onde aparece associado a Jeremias, Lamentações e à Carta de Jeremias. O Concílio de Trento (1546) declarou Baruc, incluindo o capítulo 6, canônico para a Igreja Católica Romana, e as Igrejas Ortodoxas também o reconhecem. A própria fronteira do texto inspirado foi, aqui, uma decisão tomada e refeita por comunidades distintas: judeus de Alexandria e a Igreja antiga receberam a obra, o judaísmo rabínico e a Reforma a deixaram de fora, e a arqueologia não decide a questão.
Manuscritos
Não foram encontrados fragmentos das seções Br 1-5 nos Manuscritos do Mar Morto. Um fragmento grego da Carta de Jeremias (Br 6) foi identificado na Caverna 7 de Qumran como 7Q2 (pap7QLXX EpJer), datado por volta de 100 a.C.: preserva os versículos 43-44 e é a atestação física mais antiga do texto. Ela desmente qualquer datação que fizesse da Carta uma composição da era cristã, mas prova antiguidade e uso, não canonicidade nem autoria jeremiana. Os manuscritos mais antigos do livro completo são os grandes unciais gregos: Codex Vaticanus, Sinaiticus e Alexandrinus (sécs. IV-V d.C.).
Conteúdo Principal
Prólogo e Contexto (Br 1:1-14)
- Baruc lê o livro ao rei Jeconias e aos exilados na Babilônia; coleta para o templo de Jerusalém — (Baruc 1:1)
- Oferta enviada a Jerusalém para o altar; pedido de orações pelos reis da Babilônia — (Baruc 1:10)
Confissão de Pecados e Oração (Br 1:15-3:8)
- Confissão coletiva: Israel reconhece que o exílio é consequência da desobediência à lei de Deus — (Baruc 1:15)
- O Senhor cumpriu as ameaças da Torah; lamento pelos sofrimentos do povo — (Baruc 2:1)
- Apelo à misericórdia divina: "Por tua honra, tira-nos do exílio" — (Baruc 2:11)
- Oração final da confissão: pedido de perdão para os mortos e para os vivos que erraram — (Baruc 3:1)
Elogio da Sabedoria e da Lei (Br 3:9-4:4)
- Exortação a Israel: por que estão no exílio? Porque abandonaram a fonte da sabedoria — (Baruc 3:9)
- Quem encontrou a Sabedoria? Nem os grandes da terra, nem os guerreiros a acharam — (Baruc 3:15)
- Somente Deus conheceu a Sabedoria; ele a deu a Israel como lei eterna — (Baruc 3:36)
- A Sabedoria é o livro dos mandamentos de Deus; quem a guardar viverá — (Baruc 4:1)
Consolação e Esperança para Jerusalém (Br 4:5-5:9)
- Encorajamento ao povo: Deus não os abandonou; o inimigo passará — (Baruc 4:5)
- Jerusalém fala aos filhos dispersos: tive alegria em vós, e luto com vossa partida — (Baruc 4:21)
- Jerusalém, olha para o oriente: teus filhos voltam reunidos, da palavra do Santo — (Baruc 4:36)
- Jerusalém, troca o luto pelo manto da glória de Deus para sempre — (Baruc 5:1)
Carta de Jeremias: Contra a Idolatria (Br 6)
- Carta atribuída a Jeremias aos exilados: aviso contra a adoração dos ídolos babilônicos — (Baruc 6:1)
- Os ídolos têm língua mas não falam; ouro e prata mas são criações de artesãos — (Baruc 6:8)
- Os ídolos não podem resgatar ninguém; animais os superam, pois ao menos fogem para se salvar — (Baruc 6:26)
- As sacerdotisas dos templos pagãos: prática de prostituição ritual; os ídolos não as protegem — (Baruc 6:44)
- Conclusão: melhor ser um rei justo do que um ídolo de ouro; não temais os ídolos — (Baruc 6:69)
Paralelos e Recepção
A oração penitencial de Br 1:15-2:10 é tão próxima de
que se debate se uma derivou da outra ou se ambas dependem de uma fonte litúrgica comum; a mesma estrutura de confissão coletiva aparece em
A seção Br 3:9-4:4 dialoga diretamente com
e
A consolação de Br 4:36-5:9 retoma a imagem de Jerusalém como mãe que lamenta e depois se alegra com o retorno dos filhos, motivo que ressoa com
e
e que influenciou a espiritualidade judaica e cristã pós-exílica.