Capítulos

Baruc

Autoria e Data de Composição

O livro é atribuído a Baruc filho de Nerias, secretário e discípulo do profeta Jeremias (cf. Jr 36:4–32). O texto situa sua composição na Babilônia, durante o exílio do século VI a.C. No entanto, o consenso entre estudiosos modernos é que o livro é pseudoepigráfico: foi escrito muito depois, provavelmente durante o século II a.C. ou início do século I a.C.

Os argumentos para a datação tardia incluem: dependência literária de Daniel, Isaías 40–55 e partes de Jeremias em uma forma que pressupõe compilação tardia; o estado teológico e literário da confissão de Br 1:15–3:8, que espelha de perto Dn 9:4–19 e pode ser derivada ou paralela a ela; e o contexto histórico implícito de Br 3:9–4:4, que se aproxima da espiritualidade do período macabeu.

A composição do livro é provavelmente não unitária. A maioria dos especialistas identifica pelo menos duas ou três seções de origem distinta, reunidas em uma coletânea:

  • Br 1:1–3:8 (prosa: confissão e oração): possivelmente originalmente em hebraico ou aramaico, com traços linguísticos que sugerem tradução do semítico.
  • Br 3:9–5:9 (poesia: elogio da Sabedoria e consolação): provavelmente composta em grego ou traduzida muito livremente; datada por alguns entre 160 e 130 a.C.
  • Br 6 (Carta de Jeremias): tratada por muitos estudiosos como obra independente, incorporada ao livro apenas na tradição grega.

A Carta de Jeremias (Capítulo 6)

O capítulo 6 é designado "Carta de Jeremias" nas edições da Septuaginta e da Vulgata. Em algumas tradições canônicas (como algumas igrejas orientais e a Bíblia etíope) ele circulou como texto independente. O conteúdo é um longo argumento contra a idolatria, estruturado em dez seções, cada uma terminando com variações da frase "não são deuses".

Jerônimo, no século IV, já classificou a carta como pseudoepígrafe. J. Alberto Soggin escreve que "o livro não é uma carta, nem pode ser derivado de Jeremias". A composição é datada entre os séculos IV e II a.C., com incerteza. Não há original hebraico ou aramaico identificado; o texto mais antigo preservado é em grego, embora alguns argumentem que certos semitismos sugerem tradução de um original semítico.

Status Deuterocanônico

Baruc não está no cânon hebraico (Tanakh) nem no cânon protestante. O livro não foi incluído pelos rabinos em nenhuma lista de Escrituras sagradas. Martinho Lutero o classificou como apócrifo e o excluiu do Antigo Testamento.

O livro integra a Septuaginta (LXX), onde aparece associado a Jeremias, Lamentações e a Carta de Jeremias. O Concílio de Trento (1546) declarou Baruc (incluindo o cap. 6) canônico para a Igreja Católica Romana. Igrejas Ortodoxas também o reconhecem.

Manuscritos

Não foram encontrados fragmentos das seções Br 1–5 nos Manuscritos do Mar Morto. No entanto, um fragmento grego da Carta de Jeremias (Br 6) foi identificado em Qumran como 7Q2 (Caverna 7), datado de antes de 100 a.C. Trata-se da evidência manuscrita mais antiga do texto. Os manuscritos mais antigos do livro completo são os grandes unciais gregos: Codex Vaticanus, Sinaiticus e Alexandrinus (sécs. IV–V d.C.).

Conteúdo Principal

    Prólogo e Contexto (Br 1:1–14)

  • Baruc lê o livro ao rei Jeconias e aos exilados na Babilônia; coleta para o templo de Jerusalém(Br 1:1)
  • Oferta enviada a Jerusalém para o altar; pedido de orações pelos reis da Babilônia(Br 1:10)
  • Confissão de Pecados e Oração (Br 1:15–3:8)

  • Confissão coletiva: Israel reconhece que o exílio é consequência da desobediência à lei de Deus(Br 1:15)
  • O Senhor cumpriu as ameaças da Torah; lamento pelos sofrimentos do povo(Br 2:1)
  • Apelo à misericórdia divina: "Por tua honra, tira-nos do exílio"(Br 2:11)
  • Oração final da confissão: pedido de perdão para os mortos e para os vivos que erraram(Br 3:1)
  • Elogio da Sabedoria e da Lei (Br 3:9–4:4)

  • Exortação a Israel: por que estão no exílio? Porque abandonaram a fonte da sabedoria(Br 3:9)
  • Quem encontrou a Sabedoria? Nem os grandes da terra, nem os guerreiros a acharam(Br 3:15)
  • Somente Deus conheceu a Sabedoria; ele a deu a Israel como lei eterna(Br 3:36)
  • A Sabedoria é o livro dos mandamentos de Deus; quem a guardar viverá(Br 4:1)
  • Consolação e Esperança para Jerusalém (Br 4:5–5:9)

  • Encorajamento ao povo: Deus não os abandonou; o inimigo passará(Br 4:5)
  • Jerusalém fala aos filhos dispersos: tive alegria em vós, e luto com vossa partida(Br 4:21)
  • Jerusalém, olha para o oriente: teus filhos voltam reunidos, da palavra do Santo(Br 4:36)
  • Jerusalém, troca o luto pelo manto da glória de Deus para sempre(Br 5:1)
  • Carta de Jeremias: Contra a Idolatria (Br 6)

  • Carta atribuída a Jeremias aos exilados: aviso contra a adoração dos ídolos babilônicos(Br 6:1)
  • Os ídolos têm língua mas não falam; ouro e prata mas são criações de artesãos(Br 6:8)
  • Os ídolos não podem resgatar ninguém; animais os superam, pois ao menos fogem para se salvar(Br 6:26)
  • As sacerdotisas dos templos pagãos: prática de prostituição ritual; os ídolos não as protegem(Br 6:44)
  • Conclusão: melhor ser um rei justo do que um ídolo de ouro; não temais os ídolos(Br 6:69)

Paralelos e Recepção

A seção Br 3:9–4:4 apresenta paralelos claros com Jó 28 (busca pela Sabedoria) e com Si 24 (identificação da Sabedoria com a Torah). A confissão de Br 1:15–2:10 é tão próxima de Dn 9:7–14 que estudiosos debatem se uma derivou da outra ou se ambas dependem de uma fonte litúrgica comum.

A consolação de Br 4:36–5:9 tem paralelos com o Sl 126 e com Is 60; a ideia de Jerusalém como mãe que lamenta e depois se alegra com o retorno dos filhos influenciou a espiritualidade judaica e cristã pós-exílica.