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Os estandartes romanos se curvam diante de Cristo

Evangelho de Nicodemos

Relato apócrifo do processo, da crucificação e da ressurreição de Jesus, escrito como se fosse o registro oficial guardado no pretório de Pilatos. É o texto que deu nomes a personagens que os evangelhos canônicos deixam anônimos (os dois ladrões, o soldado da lança, a mulher do fluxo de sangue) e uma das obras apócrifas mais lidas na Idade Média latina.

Autoria e Data de Composição

O Evangelho de Nicodemos, também conhecido como Atos de Pilatos, é atribuído no próprio texto a Nicodemos, o fariseu do Evangelho de João, que o teria redigido em hebraico. A atribuição não é sustentada por nenhuma evidência externa e é tratada como pseudoepigráfica pelo consenso acadêmico.

A datação depende de qual camada se está discutindo, e por isso as respostas variam. A forma grega que sobreviveu (a chamada recensão A, sem a Descida ao Inferno) é situada em geral entre os séculos IV e V, com material narrativo que pode ser mais antigo. A Descida de Cristo ao Inferno, anexada em outras recensões, é datada dos séculos V ou VI. O prólogo do tradutor, presente nesta edição, é ainda posterior. Não há consenso sobre quanto do núcleo remonta ao século II.

O prólogo e a data que ele declara

A obra abre com uma nota assinada por Ananias, que se apresenta como oficial pretoriano convertido, diz ter encontrado o registro em hebraico e tê-lo traduzido para o grego. Ele data o próprio trabalho pelo ano 17 de Flávio Teodósio (Teodósio II), o sexto de Flávio Valentino (Valentiniano III) e a nona indicação. Os três dados não fecham entre si: o ano 17 de Teodósio II é 425, o sexto de Valentiniano III cai por volta de 430, e a nona indicação serve tanto a 425 quanto a 440. O prefácio é, portanto, do segundo quarto do século V, sem precisão maior. Em seguida o texto data a paixão pelo ano 15 de Tibério, o consulado de Rufo e Rubelião e o quarto ano da 202ª olimpíada.

A moldura documental

Essa precisão cronológica é um recurso literário conhecido nos apócrifos: quanto mais o texto parece um documento de arquivo, mais autoridade reivindica. Ela não confirma nada sobre a origem do relato, e a própria data que o prólogo declara mostra que a redação final é muito tardia.

Houve mesmo Atos de Pilatos antes deste texto?

A pergunta é legítima porque autores do século II e III mencionam registros de Pilatos. Justino Mártir, por volta de 150, remete o imperador aos atos de Pôncio Pilatos como se pudessem ser consultados:

Que tudo isso aconteceu assim, podeis comprová-lo pelas Atas redigidas no tempo de Pôncio Pilatos.

Justino Mártir, 1 Apologia de Justino Mártir 35:9

Tertuliano, por volta de 197, afirma que Pilatos comunicou o caso a Tibério, e chega a descrevê-lo como cristão de convicção:

Todas essas coisas Pilatos fez a Cristo; e agora, de fato, um cristão em suas próprias convicções, ele enviou notícias dEle ao César reinante, que na época era Tibério.

Tertuliano, Apologia (Tertuliano) 21:14

Duas ressalvas honestas. Primeira: nem Justino nem Tertuliano citam uma linha sequer do texto, e é possível que estejam apenas supondo a existência de arquivos provinciais, não descrevendo um livro que tivessem lido. Segunda: Eusébio de Cesareia registra que, por volta de 311, sob o imperador Maximino Daia, circularam uns Atos de Pilatos pagãos e hostis ao cristianismo, impostos às escolas como leitura obrigatória. Esses atos anticristãos se perderam e não têm relação de conteúdo com a obra aqui hospedada, mas provam que o nome circulava associado a mais de um texto. Não há registro histórico de qualquer conversão de Pôncio Pilatos.

Do nome antigo ao nome medieval

O título original é Atos de Pilatos. O nome Evangelho de Nicodemos aparece no Ocidente latino na Idade Média, período em que a obra se tornou muito popular, e vem da alegação interna de que Nicodemos redigiu o relato. Vale registrar um dado que costuma ser invertido: o Decreto Gelasiano, catálogo latino do século VI que rejeita dezenas de apócrifos pelo nome, não menciona os Atos de Pilatos. A obra nunca foi canônica, mas também não foi condenada nominalmente ali, e circulou sem obstáculo em latim e nas línguas vernáculas.

Manuscritos e recensões

A transmissão é complexa e tardia. Os manuscritos gregos preservam duas formas distintas, identificadas e editadas por Constantin von Tischendorf nos Evangelia Apocrypha (1853): a recensão A, que traz apenas os Atos de Pilatos, e a recensão B, que acrescenta episódios ausentes de A, entre eles o lamento de Maria junto à cruz e a Descida ao Inferno. Os códices gregos de A começam no século XII; os de B, no XIV. Existem ainda versões em latim, copta, siríaco, armênio e eslavo antigo, e a tradição latina foi a que mais circulou no Ocidente.

Distância importante: entre a composição proposta e o manuscrito mais antigo conservado há vários séculos, o que abre espaço para acréscimos e reordenações ao longo da cópia. Comparações entre as versões mostram exatamente isso.

A edição disponibilizada aqui tem dezesseis capítulos e corresponde apenas aos Atos de Pilatos. A Descida de Cristo ao Inferno, em que Jesus desce ao Hades e liberta os justos do Antigo Testamento, é a segunda parte das recensões mais longas e não faz parte deste texto. Foi essa segunda parte que alimentou o motivo do Harrowing of Hell na arte, na pregação e no teatro medieval.

Conteúdo

A narrativa segue de perto a sequência dos evangelhos canônicos, mas amplia as cenas de tribunal, multiplica testemunhas de defesa e prolonga o inquérito por vários dias depois da ressurreição. O interesse do autor é forense: ele quer que o leitor acompanhe um processo.

O julgamento diante de Pilatos

Estás vendo que os que dizem a verdade são julgados pelos que exercem o poder sobre a terra.

Evangelho de Nicodemos 3:2

As testemunhas de defesa

Sentença, cruz e sepultura

José de Arimateia e o inquérito depois da ressurreição

Eu sou Jesus, aquele cujo corpo tu pediste a Pilatos e envolveste com um lençol limpo, e puseste um sudário sobre a cabeça, e colocaste em tua gruta nova.

Evangelho de Nicodemos 15:6

O que o texto acrescenta aos evangelhos canônicos

Do ponto de vista dos fatos narrados, quase nada: a espinha dorsal é a paixão dos quatro evangelhos, com diálogos alongados. O acréscimo está nos detalhes de nomeação e de cenário, e é justamente isso que fez a fortuna do livro. Vários nomes que a tradição posterior repete sem saber de onde vêm aparecem aqui: Dimas e Gestas para os dois crucificados com Jesus, Longinos para o soldado da lança, Berenice ou Verônica para a mulher curada do fluxo de sangue. A sentença de Pilatos manda crucificar no horto onde Jesus foi preso, e não no lugar indicado pelos evangelhos; o capítulo final, porém, fala do Calvário. A incoerência sugere camadas de redação diferentes.

Há um traço que o leitor moderno precisa reconhecer: a obra é polêmica antijudaica. Os adversários de Jesus são apresentados em bloco, condenam-se pela própria boca e são refutados repetidamente por Pilatos, cuja responsabilidade a narrativa alivia ao máximo. Esse deslocamento de culpa é uma tendência documentada na literatura cristã dos séculos II a V, e cresce quanto mais tarde é o texto.

Os episódios canônicos por trás das cenas

  • Nicodemos procura Jesus de noite(Jo 3:1)
  • Nicodemos defende o direito de Jesus ser ouvido(Jo 7:50)
  • Nicodemos e José de Arimateia sepultam o corpo(Jo 19:39)
  • O recado da mulher de Pilatos(Mt 27:19)
  • Pilatos lava as mãos e o povo responde(Mt 27:24)
  • O paralítico de trinta e oito anos curado no sábado(Jo 5:5)
  • A mulher com fluxo de sangue havia doze anos(Mc 5:25)
  • Lázaro no sepulcro havia quatro dias(Jo 11:39)
  • A promessa ao ladrão arrependido(Lc 23:43)
  • O soldado abre o lado de Jesus com a lança(Jo 19:34)
  • Os guardas subornados para dizer que dormiam(Mt 28:12)
  • O cântico de Simeão no templo(Lc 2:29)
  • Jamnes e Jambres, que resistiram a Moisés(2Tm 3:8)

Nicodemos no Novo Testamento

Nicodemos aparece três vezes, sempre em João: no diálogo noturno sobre o novo nascimento, na defesa processual diante dos fariseus e no sepultamento, quando leva mirra e aloés junto com José de Arimateia. Nenhum texto canônico o apresenta como autor de coisa alguma.

(Jo 7:51)

Recepção e valor histórico

A obra nunca foi canônica em nenhuma tradição. Ainda assim, poucas obras apócrifas tiveram influência comparável no Ocidente: traduções latinas, francesas, inglesas médias, alemãs e irlandesas circularam em grande número, a Descida ao Inferno virou tema fixo do teatro religioso e a iconografia da paixão absorveu seus nomes próprios.

Como fonte histórica sobre o processo de Jesus, o texto não tem valor documental: é tardio, depende dos evangelhos canônicos, apresenta anacronismos evidentes (o templo atribuído a Salomão, o vocabulário de tribunal cristão tardio) e nada nele pode ser verificado em fontes romanas. O valor é outro: ele documenta como cristãos dos séculos IV e V imaginavam o julgamento, que perguntas queriam ver respondidas e como a figura de Pilatos foi sendo reabilitada. A tradição etíope chegou a venerá-lo como santo; a mulher dele, chamada Prócula, é venerada em várias igrejas orientais.

Edições de referência

A edição crítica que fundou o estudo moderno é a de Constantin von Tischendorf, Evangelia Apocrypha (Leipzig, 1853, segunda edição 1876), com as recensões gregas A e B e o material latino. A tradução inglesa mais citada é a de M. R. James, The Apocryphal New Testament (Oxford, 1924). Trabalhos posteriores, ligados à associação suíça de estudos da literatura apócrifa cristã (AELAC), revisaram a datação e a classificação dos manuscritos gregos e latinos.