Capítulos

Ciclo de Baal

Autoria e Data de Composição

O Ciclo de Baal é um conjunto de mitos ugaríticos achados em Ras Shamra, a antiga Ugarit, na costa da Síria, a partir das escavações de 1928 e 1929. O texto está em escrita alfabética cuneiforme ugarítica, distribuído nos tabletes catalogados como KTU 1.1 a 1.6. As cópias que temos são do século XIII a.C., mas o material mítico que elas registram é mais antigo.

A obra é anônima. As tabuinhas foram escritas pelo escriba Ilimilku de Shuban, discípulo de Attanu, sob o rei Niqmaddu de Ugarit, conforme o cólofon final. Ilimilku é o copista, não o autor do mito. A identificação do rei é debatida: a leitura mais comum é Niqmaddu II, do século XIV; alguns propõem Niqmaddu III ou IV, no século XIII.

Conteúdo

Manuscritos e edições

A numeração padrão moderna dos tabletes segue o sistema KTU (também citado como CAT). A edição crítica de referência de Mark S. Smith e Wayne Pitard, The Ugaritic Baal Cycle, cobre apenas KTU 1.1 a 1.4. Para KTU 1.5 e 1.6, as referências modernas mais usadas são as edições de Nicolas Wyatt e de Dennis Pardee.

A tradução em português deste site parte da versão clássica de H. L. Ginsberg, publicada na coletânea Ancient Near Eastern Texts (ANET) organizada por James Pritchard, modernizada para o leitor brasileiro. Por ser um texto fragmentário, várias colunas estão danificadas, e as lacunas aparecem marcadas no corpo da leitura.

Paralelos bíblicos

O paralelo melhor estabelecido é o epíteto de Baal como "Cavaleiro das Nuvens" (rkb ʿrpt), uma fórmula que reaparece aplicada a YHWH em vários salmos e textos proféticos (Sl 68:4; Sl 104:3; Dt 33:26; Is 19:1). O mesmo título do deus da tempestade aparece atribuído ao Deus de Israel, num repertório do Levante que ambos compartilham.

Outro ponto de contato é o combate divino contra o Mar e o caos, o chamado Chaoskampf. Baal derrota Yamm, o Mar, e o tema ecoa nas passagens em que YHWH domina o mar e os monstros marinhos (Sl 74:13-14; Sl 89:9-10; Sl 93). No Ciclo aparece Lotan, a serpente fugidia e tortuosa de sete cabeças, correlato do Leviatã bíblico. Isaías 27:1 usa as mesmas raízes da descrição ugarítica, um paralelo lexical e não só temático, e o Salmo 74:14 fala das cabeças do monstro. A voz de Baal, que é o trovão, tem paralelo na "voz do SENHOR" do Salmo 29. Mot, a Morte que engole, dialoga com o Sheol de boca insaciável (Is 5:14), e a derrota da Morte tem eco em Isaías 25:8, retomado em 1 Coríntios 15:54. O conselho dos deuses, os filhos de El, aproxima-se do conselho divino do Salmo 82 e de Deuteronômio 32:8.

Esses paralelos devem ser lidos como repertório cultural compartilhado do Levante e como polêmica anti-Baal dentro do próprio AT, não como prova de que a Bíblia copiou Ugarit nem como refutação da Bíblia. A direção da dependência é debatida, e em vários casos o texto bíblico parece usar imagens conhecidas para afirmar que quem realmente cavalga as nuvens, domina o mar e vence a Morte é YHWH, e não Baal.

Comparativo com a Bíblia

A tabela abaixo alinha imagens do Ciclo de Baal com passagens bíblicas que usam motivos semelhantes, para o leitor comparar diretamente. O alinhamento é temático, não uma afirmação de empréstimo.

DescriçãoCiclo de BaalBíblia

O deus da tempestade cavalga as nuvens

O combate divino contra o Mar

A voz do deus é o trovão

A serpente de sete cabeças

A Morte que tudo engole e a sua derrota

O conselho dos deuses, os filhos de El