Capítulos
Mito de Adapa
Autoria e Data de Composição
O Mito de Adapa é uma narrativa acádia anônima, produto da literatura escribal mesopotâmica. O protagonista, Adapa, é o primeiro dos sete apkallu, os sábios pré-diluvianos, e serve como sacerdote e sábio do deus Ea (Enki) na cidade de Eridu. A tradição mais antiga é suméria, conhecida por fragmentos paleobabilônicos dos séculos XIX a XVI a.C. achados em Tell Haddad (Me-Turan).
A versão acádia clássica circulava no século XIV a.C. Uma de suas cópias foi encontrada em El-Amarna, no Egito, onde servia de exercício para o treino de escribas, sinal de quão difundido era o texto. Versões posteriores foram recopiadas em Nínive no século VII a.C. O mito chega a nós, portanto, em camadas de transmissão separadas por séculos.
Manuscritos
O fragmento principal é o de Amarna (Egito, século XIV a.C.). A ele somam-se fragmentos de Nínive, vindos da biblioteca de Assurbanípal (século VII a.C.), e a versão suméria de Tell Haddad, editada por Antoine Cavigneaux em 2014. A edição crítica moderna de referência é a de Shlomo Izre'el, Adapa and the South Wind (Eisenbrauns, 2001). A tradução-base deste site parte da versão de Robert Rogers, publicada em 1912 e hoje em domínio público.
Conteúdo
- Ea dá sabedoria a Adapa, mas não lhe concede a vida eterna — (Mito de Adapa 1:4)
- Adapa, o sábio de Eridu, cuida da comida e da água da cidade — (Mito de Adapa 1:5)
- Adapa pilota o barco e provê a pesca para Eridu — (Mito de Adapa 1:15)
- Ao pescar, Adapa quebra a asa do Vento Sul — (Mito de Adapa 2:5)
- Por sete dias o Vento Sul não sopra sobre a terra — (Mito de Adapa 2:7)
- Anu manda chamar Adapa ao céu para responder pelo ato — (Mito de Adapa 2:13)
- Ea avisa que os porteiros Tammuz e Gishzida estarão de guarda — (Mito de Adapa 2:20)
- Ea ordena que Adapa recuse a comida e a água da morte — (Mito de Adapa 2:29)
- Anu oferece a comida e a água da vida — (Mito de Adapa 2:59)
- Seguindo Ea, Adapa recusa o alimento e a bebida — (Mito de Adapa 2:61)
- Anu declara que Adapa não viverá; a imortalidade se perde — (Mito de Adapa 2:67)
Criação e Vocação de Adapa
A Asa do Vento Sul
O Conselho de Ea
Diante de Anu e a Imortalidade Perdida
O terceiro tablete chegou em estado fragmentário e repete, em parte, o conselho que Ea dá a Adapa antes da subida ao céu. Por isso a leitura desse trecho é incerta.
Paralelos bíblicos
O paralelo central liga Adapa a Adão. Em ambos os casos há uma criatura dotada de sabedoria que perde a chance da imortalidade, e em ambos essa chance está ligada a um alimento. Gênesis 2 e 3 falam da árvore da vida, da árvore do conhecimento e do contraste entre "certamente morrerás" (Gn 2:17) e "certamente não morrereis" (Gn 3:4). No mito de Adapa, é a comida e a água oferecidas no céu que decidem o destino do homem.
Há, porém, uma diferença crucial. Em Gênesis a mortalidade resulta de uma desobediência: o homem come do que foi proibido. No mito de Adapa o desfecho se inverte. Adapa perde a vida eterna justamente por obedecer a Ea e recusar o que lhe foi oferecido. Não há transgressão, não há queda nem pecado, apenas uma oportunidade perdida por seguir um conselho.
A relação entre os dois textos é debatida. Alexander Heidel rejeitou a aproximação e considerou as duas narrativas tão distantes quanto os antípodas. Ephraim Speiser e outros defenderam a semelhança temática. O consenso atual reconhece uma semelhança de motivo, a do alimento que decide vida e morte, sem afirmar dependência literária direta de um texto sobre o outro.
Comparativo com a Bíblia
A tabela abaixo alinha momentos do mito de Adapa com passagens de Gênesis, para que o leitor compare diretamente os motivos compartilhados e perceba também onde eles divergem.
| Descrição | Mito de Adapa | Bíblia |
|---|---|---|
Sabedoria concedida, vida eterna negada | ||
A advertência divina sobre o alimento que decide vida e morte | ||
O alimento da vida oferecido e recusado | ||
O veredito da mortalidade humana |