Capítulos

Jonas

Autoria e Data de Composição

O livro é anônimo: nenhum versículo identifica o autor. O protagonista Jonas (hebraico:Yonah, "pomba") é mencionado em 2 Reis 14:25 como profeta de Gat-Hefer que atuou no tempo de Jeroboão II (séc. 8 a.C.). O livro, porém, não foi necessariamente escrito por esse profeta nem nessa época.

A maioria dos estudiosos modernos argumenta que o livro foi composto após o exílio, possivelmente entre os séculos 5 e 4 a.C., com base em características linguísticas do hebraico tardio e na presença de empréstimos do aramaico pós-exílico. Alguns estudiosos conservadores defendem autoria do próprio Jonas no século 8 a.C. A questão da autoria é inseparável do debate sobre o gênero literário.

Debate sobre o Gênero Literário

O livro de Jonas é um dos mais debatidos quanto ao gênero na literatura bíblica. As propostas acadêmicas incluem:

  • História ou narrativa profética: posição tradicional, que lê o livro como relato factual de eventos sobrenaturais. Argumenta-se que Jesus se referiu a Jonas como figura histórica em Mateus 12:40.
  • Parábola ou conto didático: o livro teria intenção teológica e não historiográfica, usando elementos ficcionais para ensinar sobre a misericórdia universal de Deus. Esta posição é favorecida por muitos exegetas do período do Segundo Templo em diante.
  • Sátira:alguns pesquisadores identificam elementos de exagero deliberado (o peixe, a cidade de "três dias de caminhada", a conversão instantânea de toda Nínive incluindo animais) como recursos satíricos que expõem o etnocentrismo e a relutância profética. O profeta recalcitrante que foge de Deus seria um retrato cômico e provocador.
  • Midrash ou alegoria: uma expansão imaginativa de tradições antigas, com Jonas representando Israel chamado a testemunhar às nações.

Nenhum consenso foi alcançado. Estudiosos de todas as correntes reconhecem elementos de múltiplos gêneros. A posição mais comum entre exegetas críticos é a de um conto didático com elementos satíricos, cujo propósito é questionar o exclusivismo religioso de Israel no período pós-exílico.

Conteúdo do Livro

Fuga e Tempestade (Cap. 1)

A tempestade no mar: os marinheiros lançam Jonas às águas revoltas
  • Deus chama Jonas para ir a Nínive e denunciar sua maldade(Jn 1:1)
  • Jonas foge em direção a Társis, embarcando em Jope(Jn 1:3)
  • Tempestade no mar: os marinheiros lançam sortes e identificam Jonas como causa(Jn 1:4)
  • Jonas pede que o lancem ao mar para salvar a tripulação(Jn 1:12)
  • Um grande peixe engole Jonas, e ele fica três dias e três noites no seu ventre(Jn 1:17)

Oração no Ventre do Peixe (Cap. 2)

Jonas ora a Deus do interior do grande peixe, sob um raio de luz
  • Jonas ora a Deus do interior do peixe, com linguagem de Salmos(Jn 2:1)
  • O peixe vomita Jonas em terra firme(Jn 2:10)

Pregação em Nínive e Arrependimento (Cap. 3)

Jonas prega em Nínive e o povo se arrepende, vestido de saco
  • Segundo chamado: Jonas vai a Nínive, que é descrita como cidade de três dias de caminhada(Jn 3:1)
  • Jonas proclama: "Ainda quarenta dias e Nínive será destruída"(Jn 3:4)
  • O povo de Nínive crê em Deus, declara jejum e se veste de saco(Jn 3:5)
  • Deus vê o arrependimento de Nínive e revoga o juízo anunciado(Jn 3:10)

A Cólera de Jonas e a Lição da Planta (Cap. 4)

Jonas, irado, sob a planta que dá sombra e depois murcha sob o sol
  • Jonas fica irado com a misericórdia de Deus sobre Nínive(Jn 4:1)
  • Deus faz crescer uma planta para dar sombra a Jonas, depois a destrói(Jn 4:6)
  • Deus pergunta: "Não deveria eu ter compaixão de Nínive, com mais de 120.000 pessoas?"(Jn 4:11)

Manuscritos

Data: Séc. 1 a.C. a séc. 2 d.C.

Fragmentos de Jonas estão presentes nos rolos dos Doze Profetas Menores de Qumran, especialmente no 4Q82 (4QXIIg). A Septuaginta (LXX) apresenta variações textuais em relação ao Texto Massorético, particularmente no cântico do capítulo 2, indicando flutuação na tradição textual antes da fixação rabínica.

Uso no Novo Testamento

Jesus cita Jonas em Mateus 12:39-41 e Lucas 11:29-32. O "sinal de Jonas" é interpretado como prefiguração da morte e ressurreição de Jesus (três dias e três noites). Jesus também menciona o arrependimento de Nínive como contraste com a geração que não o recebeu. Esses usos não resolvem a questão do gênero, pois figuras literárias e históricas eram igualmente evocadas nos argumentos rabínicos e apocalípticos da época.