Capítulos

Daniel
Autoria e Data de Composição
A posição tradicional sustenta que o livro foi escrito pelo próprio Daniel, um judeu levado ao exílio em Babilônia por Nabucodonosor no início do século VI a.C. (aproximadamente 605 a.C.). Nessa leitura, as profecias detalhadas dos capítulos 7–12 seriam predições genuínas de eventos futuros, incluindo os impérios grego e selêucida.
O consenso da crítica histórica moderna, porém, data a composição final do livro noséculo II a.C., provavelmente entre 167 e 164 a.C., durante a perseguição do rei selêucida Antíoco IV Epifânio. Os principais argumentos para essa datação tardia são:
- As "profecias" de Dn 11 descrevem com precisão cirúrgica eventos até Antíoco IV (profanação do templo em 167 a.C.), mas tornam-se vaga e incorretas a partir de Dn 11:40 em diante, exatamente onde um autor do século II a.C. estaria além do seu conhecimento histórico.
- O livro usa vocabulário persa e grego que seria anacrônico para o século VI a.C., e erros históricos identificáveis para o período babilônico (por exemplo, "Dario, o Medo" não é atestado nas fontes externas como rei da Babilônia).
- O gênero literário apocalíptico do livro (especialmente caps. 7–12) é característico da literatura judaica do Segundo Templo tardio, não do período pré-exílico ou exílico.
Os defensores da datação tradicional (século VI a.C.) respondem que a precisão profética até Antíoco IV é justamente evidência de profecia sobrenatural genuína; que o aramaico do livro difere do aramaico dos Manuscritos do Mar Morto do século II a.C., indicando composição anterior; e que a ausência de evidências externas para "Dario, o Medo" não comprova erro, apenas lacuna documental. O debate permanece aberto e as posições refletem, em parte, pressuposições metodológicas sobre a possibilidade ou não de profecia preditiva.
O livro está escrito em duas línguas: hebraico (caps. 1:1–2:4a e 8–12) e aramaico (caps. 2:4b–7:28). A razão para essa divisão linguística é discutida e não possui explicação consensual.
Manuscritos
Oito fragmentos do livro de Daniel foram encontrados nos Manuscritos do Mar Morto em Qumran, datados a partir do início do século II a.C. A existência de múltiplas cópias em Qumran sugere que o livro já era considerado autoritativo pela comunidade de Qumran poucas décadas após sua composição, o que é compatível com ambas as datações propostas.
A Septuaginta inclui adições ao livro de Daniel não presentes no texto hebraico-aramaico: a Oração de Azarias, o Cântico dos Três Jovens, Suzana, e Bel e o Dragão. Essas seções são consideradas deuterocanônicas (aceitas por católicos e ortodoxos) e apócrifas (rejeitadas por protestantes e judeus).
Eventos e Temas do Livro
Daniel e Seus Companheiros na Babilônia (caps. 1–6)

- Daniel e companheiros são levados a Babilônia e recusam a comida do rei — (Dn 1:1)
- Daniel interpreta o sonho da estátua de Nabucodonosor (os quatro reinos) — (Dn 2:1)
- Sadraque, Mesaque e Abednego na fornalha ardente — (Dn 3:1)
- Nabucodonosor sonha com a árvore grande; é humilhado e restaurado — (Dn 4:1)
- O festim de Baltazar e a escrita na parede ("Mene, Tequel, Parsim") — (Dn 5:1)
- Daniel na cova dos leões sob Dario, o Medo — (Dn 6:1)
Visões Apocalípticas (caps. 7–12)

- Visão das quatro bestas e do Ancião de Dias; o Filho do Homem recebe o reino — (Dn 7:1)
- Visão do carneiro e do bode: Pérsia e Grécia — (Dn 8:1)
- Confissão de Daniel e revelação das setenta semanas de anos — (Dn 9:1)
- Visão do mensageiro celeste e batalha entre anjos das nações — (Dn 10:1)
- Profecia detalhada sobre reis do Norte e do Sul (Selêucidas e Ptolemeus) — (Dn 11:1)
- Ressurreição dos mortos e promessa a Daniel de ressuscitar no fim dos dias — (Dn 12:1)
Paralelos e Recepção
A expressão "Filho do Homem" de Dn 7:13 é o título que Jesus mais utiliza para si mesmo nos evangelhos, tornando Daniel central para a cristologia do Novo Testamento. O Apocalipse de João reusa extensamente as imagens de Daniel: as bestas, o número simbólico dos dias, a ressurreição final. Na tradição judaica, Daniel é colocado nos Ketuvim (Escritos), não entre os Profetas, refletindo uma classificação canônica distinta da tradição cristã.