Como se constrói uma cidade quase soberana
Os mórmons chegaram ao oeste de Illinois no inverno de 1838 e 1839 como refugiados. Haviam sido expulsos do Missouri depois da ordem executiva 44 do governador Lilburn Boggs, de outubro de 1838, que autorizava tratá-los como inimigos a serem exterminados ou expulsos do estado. Perderam propriedades, não obtiveram reparação, e chegaram a Illinois numa faixa pantanosa do rio Mississippi chamada Commerce, rebatizada Nauvoo. A cidade que construíram ali em cinco anos chegou a rivalizar com Chicago em população, e o instrumento legal que a tornou possível foi a Carta de Nauvoo.
A carta de 1840 e o cálculo político dos dois partidos
A carta foi aprovada pela legislatura de Illinois e sancionada pelo governador Thomas Carlin em 16 de dezembro de 1840, tendo sido certificada por Stephen A. Douglas, então secretário de Estado. A aprovação foi bipartidária. Democratas e Whigs votaram a favor, incluindo Abraham Lincoln, então deputado estadual Whig. A explicação não é generosidade religiosa, e sim aritmética eleitoral: os mórmons votavam em bloco, seguindo a orientação dos líderes da Igreja, e o eleitorado de Illinois estava tão dividido entre os dois partidos que aquele bloco podia decidir eleições estaduais inteiras.
A dinâmica do voto em bloco explica tanto o favorecimento inicial quanto a hostilidade posterior, e é a chave para entender todo o período. Um bloco disciplinado é valioso enquanto se pode conquistá-lo, e ameaçador quando muda de lado. Os mórmons apoiaram os Whigs em 1840 e os Democratas em 1843, e cada mudança produziu um partido furioso e um partido temporariamente satisfeito. O resultado acumulado, ao longo de quatro anos, foi que os dois partidos tinham motivos para desconfiar da comunidade, e nenhum tinha incentivo duradouro para defendê-la. Quando a carta foi revogada, em janeiro de 1845, o voto foi de 25 a 14 no Senado e de 75 a 31 na Câmara, ou seja, com margens amplas nos dois partidos.
O que a carta concedia
A carta criava um conselho municipal formado pelo prefeito, quatro vereadores e nove conselheiros, com mandatos de dois anos, e lhe dava poder de aprovar qualquer ordenança que julgasse necessária, desde que não contrariasse a Constituição dos Estados Unidos nem a de Illinois. Essa cláusula geral era mais larga que a de cartas comparáveis do período, que costumavam enumerar as matérias permitidas. Ela criava o tribunal municipal, composto pelo prefeito como juiz-presidente e pelos vereadores como juízes associados, com poder de conceder habeas corpus nos casos surgidos sob as ordenanças da cidade. Autorizava a formação de uma milícia própria, a Legião de Nauvoo, e a criação de uma universidade, a Universidade da Cidade de Nauvoo, fundada em 1841, com John C. Bennett como chanceler e William Law como registrador.
| Poder concedido pela carta | O que era normal em outras cidades | Efeito prático |
|---|---|---|
| Ordenar qualquer matéria não contrária às constituições federal e estadual | Lista fechada de competências enumeradas | O conselho legislava sobre praticamente tudo, inclusive imprensa |
| Tribunal municipal com poder de habeas corpus | Cortes municipais julgavam infrações locais, sem habeas corpus amplo | Prisões determinadas por autoridade estadual eram revistas na própria cidade |
| Prefeito e vereadores compõem o tribunal | Sobreposição existia, mas sem competência de habeas corpus | Quem escrevia a ordenança julgava sua aplicação |
| Milícia municipal permanente com comando próprio | Milícias organizadas por condado, sob comando estadual | Uma força armada de milhares de homens leal à cidade |
| Universidade municipal com corpo de regentes | Universidades eram fundações privadas ou estaduais | Educação superior sob controle do mesmo conselho |
| Isenção do serviço na milícia de condado e estado | Serviço obrigatório na milícia local | Os homens de Nauvoo serviam só na Legião |
A Legião de Nauvoo
A Legião era formalmente uma unidade da milícia estadual de Illinois, e o estado forneceu armas a ela. O que a tornava anômala era operar no nível da cidade, com comando próprio, e não no nível de condado como as demais. Em abril de 1841 já contava mais de seiscentos homens alistados, chegou a cerca de mil e quinhentos no fim daquele ano, e no auge, por estimativas conservadoras, reuniu pelo menos dois mil e quinhentos homens uniformizados. Era, por qualquer critério, uma das maiores concentrações de força armada organizada do estado, sob comando de um único homem que não respondia a nenhuma autoridade militar de condado.
Joseph Smith foi eleito tenente-general da Legião no início de 1841. A patente chamou atenção porque não havia posto equivalente no exército americano da época: o cargo mais alto em uso era o de major-general, e nenhum americano detinha o título de tenente-general desde George Washington. O historiador Harold Schindler sustenta que a patente foi concedida por Illinois no mesmo cálculo político da carta, ou seja, como cortesia ao bloco eleitoral. Os desfiles da Legião, com Joseph Smith uniformizado à frente de milhares de homens, foram um dos elementos que a imprensa dos condados vizinhos citava com mais frequência ao descrever Nauvoo como ameaça.
Prefeito a partir de 1842
O primeiro prefeito de Nauvoo foi John C. Bennett, médico e organizador político que chegara em 1840 e fora peça central na aprovação da carta em Springfield. Bennett acumulou os cargos de prefeito, chanceler da universidade e major-general da Legião. Em 1842 ele foi acusado de condutas sexuais ilícitas, apresentou carta de renúncia em 17 de maio, aceita pelo conselho em 19 de maio, e rompeu publicamente com a Igreja, tornando-se um dos críticos mais lidos do movimento. Na mesma sessão de 19 de maio de 1842, o conselho escolheu Joseph Smith como prefeito e Hyrum Smith como vice-prefeito. Foi nesse momento que a acumulação de cargos chegou ao ponto máximo, porque o cargo de prefeito trazia junto a presidência do tribunal municipal.
O fim
Depois das mortes em Carthage, em junho de 1844, a carta perdeu qualquer proteção política. A legislatura de Illinois a revogou em janeiro de 1845, o que dissolveu de uma vez o conselho municipal, o tribunal municipal, a polícia da cidade e o estatuto legal da Legião. Nauvoo continuou existindo como povoado, mas sem instituições próprias. A comunidade começou a sair de Illinois em fevereiro de 1846, no êxodo que levaria a maior parte dos mórmons ao vale do Lago Salgado.
A avaliação do episódio divide historiadores por motivos que não são apenas religiosos. Richard Bushman enfatiza que a carta foi resposta a uma experiência real de desamparo estatal, e que os mórmons pediram exatamente o tipo de autonomia que julgavam necessária para não repetir o Missouri. Klaus Hansen e Michael Quinn, cada um a seu modo, enfatizam o outro lado: que a autonomia produziu, na prática, uma unidade política com governo, tribunal, exército e universidade próprios, chefiada por um líder religioso, e que essa configuração era incompatível com o federalismo americano e seria percebida como ameaça por qualquer vizinhança. Os dois lados descrevem os mesmos fatos e discordam sobre qual é a causa e qual é a consequência.