Joseph Smith, Candidato à Presidência em 1844

Por que ele se candidatou

A candidatura de Joseph Smith à presidência dos Estados Unidos em 1844 costuma ser tratada como curiosidade excêntrica. Ela não é. Foi uma resposta calculada a um problema concreto e sem solução pela via normal: os mórmons haviam sido expulsos do Missouri sob ordem estadual em 1838, haviam perdido propriedades avaliadas em centenas de milhares de dólares, e não conseguiam reparação nem do estado que os expulsou nem do governo federal.

Em novembro de 1843, Joseph Smith escreveu aos cinco principais pré-candidatos à presidência: John C. Calhoun, Lewis Cass, Henry Clay, Richard M. Johnson e Martin Van Buren. A pergunta era direta: o que cada um faria pelos mórmons se eleito. Três responderam, Calhoun, Cass e Clay, e nenhum se comprometeu. A resposta de Calhoun foi a mais citada, porque expôs o nó constitucional da época: o caso era de jurisdição do Missouri, e o governo federal não teria competência para intervir. Van Buren já dissera algo semelhante a Joseph Smith pessoalmente em 1839, na frase que ficou registrada como resumo da frustração mórmon com Washington, a de que a causa era justa mas nada podia ser feito por ela.

A candidatura nasceu dessa resposta. Se nenhum candidato se comprometia a proteger uma minoria religiosa contra um estado, a saída proposta foi disputar o cargo. Em 29 de janeiro de 1844, numa reunião com o Quórum dos Doze Apóstolos, a decisão de concorrer foi tomada por unanimidade.

A plataforma

O programa foi publicado em fevereiro de 1844 num panfleto intitulado "General Smith's Views of the Powers and Policy of the Government of the United States", redigido com auxílio de W. W. Phelps e distribuído em milhares de exemplares. O conteúdo é o elemento mais surpreendente de toda a história, porque não é um programa de interesse sectário: é um programa reformista amplo, e várias de suas propostas eram radicais para o padrão de 1844.

O ponto mais notável é a escravidão. O panfleto propõe a abolição até 1850, com indenização aos proprietários paga pela venda de terras públicas federais e por cortes nos salários do Congresso. Era uma proposta de emancipação compensada e gradual, o mesmo mecanismo que Abraham Lincoln tentaria sem sucesso em 1862. Em 1844 nenhum dos dois grandes partidos tinha plataforma antiescravista: os Whigs de Henry Clay evitavam o tema para não perder o Sul, e os Democratas o protegiam. Só o Partido da Liberdade, com James G. Birney, era abertamente abolicionista, e ele tirou menos de 3% dos votos.

O segundo ponto é a redução do Congresso. O panfleto propõe cortar o número de congressistas em cerca de dois terços, na proporção de dois representantes por milhão de habitantes, e reduzir o salário diário de oito para dois dólares, argumentando que um corpo menor faria mais trabalho. O terceiro é a reforma prisional: em vez do encarceramento punitivo, transformar prisões em locais de trabalho e instrução, com os edifícios convertidos em escolas, e uma política ampla de perdão para condenados não violentos. O quarto é um banco nacional com filiais nos estados e capital ligado à receita pública, posição que aproximava Joseph Smith dos Whigs, já que os Democratas de Andrew Jackson haviam destruído o segundo banco nacional.

O quinto ponto é o que mais interessa a este tema: ampliar o poder federal para proteger minorias quando os estados falhassem. O panfleto propõe dar ao presidente autoridade para enviar tropas e reprimir turbas mesmo sem requisição do governador do estado afetado. Era exatamente o mecanismo cuja ausência havia custado o Missouri aos mórmons. Constitucionalmente, era uma proposta de expansão do poder federal sobre os estados, na direção que só se consolidaria depois da Guerra Civil. O panfleto ainda defendia a anexação do Texas, do Oregon e da Califórnia, com consentimento dos habitantes, tema em que se alinhava aos expansionistas.

A plataforma de 1844 contra os dois partidos

Proposta de Joseph SmithWhigs (Henry Clay)Democratas (James K. Polk)
Abolir a escravidão até 1850, indenizando proprietários com venda de terras públicasSem plataforma antiescravista; tema evitado para preservar o SulEscravidão protegida; expansão tratada como direito dos estados
Reduzir o Congresso a dois representantes por milhão de habitantesSem proposta equivalenteSem proposta equivalente
Cortar o salário de congressistas de oito para dois dólares por diaSem propostaSem proposta
Substituir prisões por trabalho e instrução, com perdão amploReforma penal era pauta de reformadores privados, não do partidoSem proposta
Criar um banco nacional com filiais nos estadosA favor de um banco nacionalContra; herança da política de Andrew Jackson
Autorizar o presidente a reprimir turbas sem pedido do governadorSem proposta; ampliação do poder federal era sensívelContra; defesa dos direitos dos estados
Anexar Texas, Oregon e Califórnia com consentimento dos habitantesClay resistiu à anexação imediata do TexasA favor da anexação imediata do Texas e do Oregon

A campanha

A campanha foi montada com a estrutura missionária da Igreja. Na conferência geral de abril de 1844 centenas de élderes se ofereceram para sair em campanha política, entre eles apóstolos como Brigham Young, Heber C. Kimball e Wilford Woodruff. O historiador Derek Sainsbury, que estudou o grupo em detalhe, identificou mais de seiscentos desses missionários eleitorais, que percorreram os estados distribuindo o panfleto e organizando comícios. Sidney Rigdon, conselheiro na Primeira Presidência, foi escolhido candidato a vice-presidente, em parte por uma razão técnica: a Constituição impede que presidente e vice sejam do mesmo estado, e Rigdon podia declarar residência na Pensilvânia. Uma convenção realizada em Nauvoo em 17 de maio de 1844 formalizou a chapa.

O Conselho dos Cinquenta

Em 11 de março de 1844, Joseph Smith organizou um corpo separado da hierarquia eclesiástica, com cerca de cinquenta membros, que seus participantes chamavam de Reino de Deus e que a historiografia conhece como Conselho dos Cinquenta. Era um órgão político, e não eclesiástico, com finalidade dupla: apoiar a campanha e planejar assentamentos alternativos fora dos Estados Unidos, no Texas, no Oregon ou na região das Montanhas Rochosas, caso a situação em Illinois se tornasse insustentável. Incluía alguns membros que não pertenciam à Igreja, o que é indício de que se pensava nele como estrutura civil.

O fato mais discutido é este: em 11 de abril de 1844, o conselho votou receber Joseph Smith como profeta, sacerdote e rei, e sustentá-lo nessa condição. As atas do conselho foram guardadas pela Igreja por mais de um século e meio e só foram publicadas em 2016, no volume Administrative Records da série Joseph Smith Papers. A publicação encerrou décadas de especulação em que críticos afirmavam a coroação e defensores a negavam.

O que os registros mostram, e como os editores dos Joseph Smith Papers contextualizam, é que o título tinha sentido escatológico dentro da teologia do conselho, isto é, referia-se ao reino milenar de Cristo, do qual Joseph Smith seria administrador terreno, e não à instituição de uma monarquia sobre os Estados Unidos. Michael Quinn e Klaus Hansen, que escreveram sobre o assunto antes da publicação das atas, chegaram a leituras diferentes do peso político do órgão: Hansen viu nele o embrião de um governo teocrático destinado a substituir o americano, e Quinn documentou seu funcionamento e continuidade sob Brigham Young. A crítica mais sóbria não está em afirmar que se planejava um golpe, e sim em observar que a mesma pessoa era simultaneamente candidato à presidência, prefeito, general, juiz e rei ungido de um conselho secreto, e que essa combinação, se conhecida à época, seria explosiva. Foi justamente uma das denúncias do Nauvoo Expositor.

A campanha terminou de forma abrupta. Joseph Smith foi morto em Carthage em 27 de junho de 1844, cinco meses antes da eleição, que foi vencida por James K. Polk. Não há como estimar votação, porque a candidatura nunca foi testada nas urnas. O que restou como legado documentado foi a rede de missionários eleitorais, que voltou a Nauvoo depois das mortes e formou parte da base de apoio de Brigham Young, e o Conselho dos Cinquenta, que continuou a funcionar e teve papel no planejamento do êxodo para o oeste.

A leitura mais defensável do episódio é a que os historiadores de linhas opostas costumam aceitar em comum: a candidatura não foi delírio nem manobra cínica, foi a tentativa de resolver por via eleitoral um problema que a via judicial e a via diplomática já haviam recusado. O que se discute é se as instituições criadas para viabilizá-la, a Legião, o tribunal municipal e o Conselho dos Cinquenta, eram defesas legítimas de uma minoria perseguida ou a construção de um poder paralelo. Os fatos são os mesmos para os dois lados; a divergência está em qual deles é a causa e qual é a resposta.