Quem Controlava o Dinheiro da Igreja no Tempo de Joseph Smith

Quatro sistemas em treze anos

Entre 1831 e 1844 a igreja mórmon trocou de arquitetura financeira quatro vezes. Cada troca respondeu ao fracasso da anterior, e a última, o dízimo de dez por cento, sobreviveu até hoje. Entender essa sequência é o que separa a discussão factual do panfleto: o dinheiro não foi para o mesmo lugar o tempo todo, e nem sempre foi um só homem quem decidia, embora no fim tenha sido.

1831: consagração e mordomia

Revelações de fevereiro de 1831 estabeleceram a lei de consagração e mordomia. O membro transferia sua propriedade ao bispo, e o bispo devolvia uma mordomia suficiente ao sustento da família; o excedente ia para um armazém destinado aos pobres e à compra de terra em Sião. Edward Partridge, ordenado bispo em fevereiro de 1831, foi o primeiro encarregado, no Missouri; Newell K. Whitney foi ordenado bispo em Ohio em dezembro de 1831 e cuidou da operação em Kirtland.

O sistema não durou. As necessidades excediam sistematicamente os recursos, conversos chegavam sem nada, havia disputa jurídica sobre a devolução do que fora consagrado quando o membro saía, e a expulsão do condado de Jackson em 1833 destruiu a base física do arranjo no Missouri. Historiadores da própria igreja descrevem a implementação como difícil e incompleta, e não como bem sucedida.

1832: a Firma Unida

Em 1832 foi criada a Firma Unida, um conselho encarregado de administrar as operações mercantis e de publicação da igreja, incluindo a gráfica, as lojas e a compra de terra. A Firma reunia um grupo restrito de líderes, entre eles Joseph Smith, Sidney Rigdon, Edward Partridge e Newell K. Whitney. Foi a fase de decisão mais colegiada do período, e também a mais conflituosa: os membros discordavam sobre prioridades de gasto, e o arranjo foi dissolvido e reorganizado em 1834, no rastro dos problemas de dívida que desembocariam na crise de Kirtland.

1838: o dízimo

Em 8 de julho de 1838, em Far West, no Missouri, foi registrada a revelação que fixou o sistema atual, hoje seção 119 de Doutrina e Convênios. Ela pede primeiro a entrega de toda a propriedade excedente, como contribuição única, e depois estabelece que quem assim foi dizimado pague "um décimo de todos os seus rendimentos anualmente". Antes disso, a palavra dízimo era usada de modo solto para qualquer oferta voluntária, sem percentual.

O pagamento raramente era em dinheiro. Recebia-se gado, grãos, legumes, produtos e trabalho: um dia de trabalho em cada dez nas obras do templo contava como dízimo. Os bens iam para os pátios e armazéns do bispo. A mesma revelação instituiu um conselho para decidir o destino dos dízimos, embrião do atual Conselho sobre a Disposição dos Dízimos, formado pela Primeira Presidência, o Quórum dos Doze e o Bispado Presidente.

1841: o trustee-in-trust

Em 30 de janeiro de 1841, em conferência especial em Nauvoo, Joseph Smith foi eleito único trustee-in-trust da igreja, com registro no cartório de Hancock três dias depois. A lei de Illinois só permitia que uma sociedade religiosa detivesse propriedade por meio de um trustee, então o arranjo tinha base legal. O que a lei não previa era a concentração: um único administrador, sem colegiado, respondendo pelas finanças, pelas compras de terra, pela arrecadação do dízimo e pelo financiamento do templo.

As doações seguiam um caminho documentado: lançamento cronológico nos diários de dízimo, depois registro no Livro da Lei do Senhor, depois controle de distribuição nos livros-caixa, entre eles o Trustee-in-Trust Ledger A. O problema não é a falta de escrituração, que existia, mas o que essa escrituração mostra. As contas pessoais e eclesiásticas eram lançadas de forma entrelaçada: funcionários do escritório recebiam parte da remuneração em bens doados em vez de dinheiro, e o próprio Joseph Smith recebia doações como pagamento pessoal, registradas nos mesmos livros de dízimo.

A ausência de prestação de contas

Não havia auditoria, relatório público nem qualquer canal pelo qual um doador pudesse verificar o destino do que entregou. A primeira comissão de auditoria da igreja só foi criada em 1877, sob John Taylor, mais de trinta anos depois da morte de Joseph Smith, e justamente para dar consistência à contabilidade feita sob o trustee-in-trust. Isso não é anacronismo aplicado retroativamente: é o próprio registro institucional reconhecendo que o controle veio depois.

Vale dizer que ausência de auditoria era comum em corpos religiosos americanos do século 19, e que a acusação de desvio não decorre logicamente da ausência de controle. O que decorre é que ninguém, nem então nem hoje, tem como verificar por documento independente o que entrou e o que saiu.

Clero leigo e sustento

Um argumento SUD frequente é o do clero leigo: a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias não paga seus bispos e líderes locais, que servem sem remuneração enquanto mantêm profissão civil. O argumento é verdadeiro no nível local, e é uma diferença real em relação a denominações com clero profissional.

Ele não descreve, porém, a situação de Joseph Smith. Ele não tinha profissão civil paralela e dedicava integralmente o tempo à igreja; recebia sustento em bens, terra e doações lançadas como pagamento pessoal, e morava em imóveis ligados ao patrimônio que administrava. Os líderes mórmons do período usaram e ainda usam a palavra "stipend", ou seja, um sustento, e não um salário. A distinção é real, mas fina: quem vive integralmente do que a comunidade entrega está sendo sustentado por ela, com ou sem contracheque.

O contraste com os textos

A tensão mais interessante do tema não vem de fora, vem do próprio cânone SUD. O Livro de Mórmon condena pregar por dinheiro com uma dureza que poucos textos religiosos alcançam, e nomeia a prática: artimanhas sacerdotais.

29 Ele ordena que não haja artimanhas sacerdotais; pois eis que artimanha sacerdotal é o homem pregar e estabelecer-se como uma luz para o mundo, a fim de obter lucros e louvor do mundo; não procura, porém, o bem-estar de Sião.

31 Mas o trabalhador de Sião trabalhará por Sião; porque, se trabalhar por dinheiro, perecerá.

O modelo positivo aparece no rei Benjamim, que declara nunca ter tomado ouro nem prata do povo, nunca ter cobrado impostos, e ter trabalhado com as próprias mãos.

12 E digo-vos que como me foi permitido empregar meus dias a vosso serviço até este momento e não tentei obter de vós nem ouro nem prata nem qualquer tipo de riqueza;

14 E eu mesmo tenho trabalhado com minhas próprias mãos, a fim de vos servir; e para que não sejais sobrecarregados com impostos e não recaiam sobre vós coisas difíceis de suportar e vós mesmos sois testemunhas, neste dia, de todas estas coisas que falei.

A mesma regra vale para os sacerdotes ordenados por Alma, que não deviam depender do povo para o próprio sustento.

24 E também mandou que os sacerdotes que ele ordenara trabalhassem com as próprias mãos para o seu sustento.

26 E os sacerdotes não deveriam depender do povo para o seu sustento; mas, pelo seu trabalho, receberiam a graça de Deus, a fim de fortalecer-se no Espírito, tendo conhecimento de Deus para ensinar com poder e autoridade de Deus.

E o contraexemplo é Neor, o primeiro pregador pago da narrativa, que ensinava que os sacerdotes deviam ser sustentados pelo povo em vez de trabalhar, ganhou dinheiro com isso, e passou a usar vestes caras.

3 E ele saíra pregando ao povo o que chamava de palavra de Deus, opondo-se à igreja; declarando ao povo que todos os sacerdotes e mestres deveriam tornar-se populares; e que não deveriam trabalhar com as próprias mãos, mas deveriam ser sustentados pelo povo.

5 E aconteceu que tanto pregou estas coisas que muitos acreditaram em suas palavras; e foram tantos, que começaram a sustentá-lo e a dar-lhe dinheiro.

6 E ele começou a exaltar-se no orgulho de seu coração e a usar vestimentas custosas, sim, e até começou a organizar uma igreja de acordo com a sua pregação.

O paralelo bíblico da comunhão de bens vem com uma advertência igualmente dura sobre o que se retém do que foi declarado consagrado.

1 Mas um certo homem chamado Ananias, com Safira, sua mulher, vendeu uma propriedade,

2 E reteve parte do preço, sabendo-o também sua mulher; e, levando uma parte, a depositou aos pés dos apóstolos.

3 Disse então Pedro: Ananias, por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, e retivesses parte do preço da herdade?

4 Guardando-a não ficava para ti? E, vendida, não estava em teu poder? Por que formaste este desígnio em teu coração? Não mentiste aos homens, mas a Deus.

Como isso se resolve depende de quem lê. Os críticos veem contradição direta entre a condenação textual e a prática de um líder sustentado pela comunidade, sem prestação de contas, com as contas misturadas. Os defensores respondem que a condenação em 2 Néfi mira quem prega para obter lucro e louvor do mundo, não quem recebe sustento para trabalhar em tempo integral, e que o próprio Livro de Mórmon distingue as duas coisas. Os dois lados estão lendo o mesmo verso e discordando sobre o alcance dele. O que não está em disputa é que os textos existem e que a prática de Nauvoo não era a do rei Benjamim.

Linha do tempo dos sistemas

AnoSistemaComo funcionavaPor que mudou
1831Consagração e mordomiaO membro transferia a propriedade ao bispo (Edward Partridge, depois Newell K. Whitney) e recebia de volta uma mordomia; o excedente ia ao armazémNecessidade superava recurso, disputas jurídicas sobre devolução, e a expulsão do condado de Jackson em 1833 destruiu a base no Missouri
1832Firma UnidaConselho restrito de líderes administrava lojas, gráfica e compra de terraDivergência interna sobre prioridade de gasto e o endividamento que levaria à crise de Kirtland; dissolvida e reorganizada em 1834
1838DízimoEntrega inicial do excedente, depois um décimo dos rendimentos ao ano, pago em gado, grãos, produtos ou trabalho; conselho decide a aplicaçãoNão mudou: é o sistema em vigor até hoje na Igreja SUD
1841Trustee-in-trustJoseph Smith, eleito único trustee em 30 de janeiro, detinha todos os títulos e respondia por finanças, terra, dízimo e temploEncerrado por sua morte em junho de 1844; o Quórum dos Doze assumiu as finanças até a reorganização da Primeira Presidência
1877Comissão de auditoriaJohn Taylor cria a primeira comissão para conferir as transações feitas sob o trustee-in-trustMarca o fim do período sem qualquer verificação contábil independente