Quantas Esposas Joseph Smith Teve?

O texto que a própria Igreja publicou em 1830

Antes de qualquer lista, convém registrar o que o Livro de Mórmon diz sobre o assunto, porque ele foi publicado em 1830, treze anos antes da revelação sobre o casamento plural, e é escritura para a Igreja SUD até hoje. O profeta Jacó repreende os nefitas que invocavam o exemplo de Davi e Salomão para justificar ter mais de uma esposa.

23 Mas a palavra de Deus me oprime por causa de vossos crimes maiores. Pois eis que assim diz o Senhor: Este povo começa a tornar-se iníquo; eles não entendem as escrituras, pois procuram desculpar-se por cometer libertinagens, por causa das coisas que foram escritas com referência a Davi e seu filho Salomão.

24 Eis que Davi e Salomão realmente tiveram muitas esposas e concubinas, o que foi abominável diante de mim, diz o Senhor.

27 Portanto, meus irmãos, ouvi-me e atentai para a palavra do Senhor: Pois nenhum homem dentre vós terá mais que uma esposa; e não terá concubina alguma.

O mesmo livro inverte o retrato usual e apresenta os lamanitas, o povo tido como amaldiçoado, como mais justos que os nefitas justamente por guardarem esse mandamento.

5 Eis que os lamanitas, vossos irmãos, a quem odiais por causa de sua imundície e da maldição que lhes caiu sobre a pele, são mais justos que vós; porque eles não se esqueceram do mandamento do Senhor, dado a nosso pai de que não deveriam ter mais que uma esposa nem concubina alguma; e que não deveriam cometer libertinagem.

A regra não fica sozinha. O Livro de Mórmon usa a multiplicação de esposas como marca de dois de seus vilões: o rei Noé, que oprime o povo de Zenife, e Riplaquis, rei jaredita deposto pelo povo.

2 Pois eis que não guardou os mandamentos de Deus, mas seguiu os desejos de seu próprio coração. E teve muitas esposas e concubinas. E levou o seu povo a cometer pecados e a fazer o que era abominável aos olhos do Senhor. Sim, e cometeram libertinagens e todo tipo de iniquidade.

5 E aconteceu que Riplaquis não fez o que era correto aos olhos do Senhor, porque teve muitas esposas e concubinas e pôs sobre os ombros dos homens o que era difícil de suportar; sim, taxou-os com pesados impostos e, com os impostos, construiu muitos edifícios espaçosos.

O padrão vem da Bíblia hebraica. A lei do rei em Deuteronômio proíbe ao monarca acumular mulheres, e o livro de 1 Reis apresenta o descumprimento por Salomão como a causa de sua queda. No Novo Testamento, a exigência para o bispo é a monogamia explícita.

17 Tampouco para si multiplicará mulheres, para que o seu coração não se desvie; nem prata nem ouro multiplicará muito para si.

1 E o rei Salomão amou muitas mulheres estrangeiras, além da filha de Faraó: moabitas, amonitas, edomitas, sidônias e hetéias,

2 Das nações de que o Senhor tinha falado aos filhos de Israel: Não chegareis a elas, e elas não chegarão a vós; de outra maneira perverterão o vosso coração para seguirdes os seus deuses. A estas se uniu Salomão com amor.

3 E tinha setecentas mulheres, princesas, e trezentas concubinas; e suas mulheres lhe perverteram o coração.

4 Porque sucedeu que, no tempo da velhice de Salomão, suas mulheres lhe perverteram o coração para seguir outros deuses; e o seu coração não era perfeito para com o Senhor seu Deus, como o coração de Davi, seu pai,

2 Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar;

Há uma cláusula de exceção no mesmo capítulo de Jacó, e ela é o eixo da defesa SUD desde o século 19: se o Senhor quiser suscitar posteridade, ele ordenará a prática. Fora dessa ordem, vale a monogamia.

30 Porque se eu quiser suscitar posteridade para mim, diz o Senhor dos Exércitos, ordenarei isso a meu povo; em outras circunstâncias meu povo dará ouvidos a estas coisas.

O que a Igreja SUD reconhece oficialmente

Em 2014 a Igreja publicou dois ensaios na série Tópicos do Evangelho: "O casamento plural em Kirtland e Nauvoo" e "O casamento plural e as famílias no início de Utah". Eles não são texto de crítico externo, são material institucional, e reconhecem os três pontos mais difíceis do assunto. O número de esposas de Joseph Smith fica, nas palavras do ensaio, entre 30 e 40. A mais jovem foi Helen Mar Kimball, selada a Joseph vários meses antes de completar 15 anos. E parte dessas mulheres já era casada com outros homens, num total que o ensaio estima entre 12 e 14 selamentos.

Esse reconhecimento muda o terreno da discussão. O que antes era alegação de dissidentes passou a ser dado publicado pela própria instituição, com notas de rodapé. A tabela abaixo, portanto, não contradiz a Igreja em nenhum ponto de fato: ela detalha o que o ensaio resume.

A lista, nome a nome

A base é Todd Compton, "In Sacred Loneliness" (1997), que documentou 33 mulheres, complementada por Brian Hales, "Joseph Smith Polygamy", que trabalha com cerca de 34 a 35 e discorda de Compton em datas e na natureza de várias uniões. Onde os dois divergem, a divergência está registrada na própria linha. Idades são a idade dela na data do selamento.

NomeAno do selamentoIdadeEstado civil delaObservação
Emma Hale18 de janeiro de 182722SolteiraCasamento civil, a única esposa legal. Selada a Joseph em 28 de maio de 1843. Não é esposa plural e entra aqui só como marco inicial.
Fanny Algerc. 1833 (Compton) ou 1835 a 1836 (Hales)16 ou 19, conforme a dataSolteira, trabalhava na casa dos Smith em KirtlandO ensaio de 2014 diz apenas "meados da década de 1830". Mosiah Hancock atribui a cerimônia a seu pai, Levi Hancock. Disputado se foi casamento ou relação sem cerimônia.
Lucinda Pendleton Morgan Harrisc. 1838, Far West, Missouri36 a 37Casada, marido vivo George Washington HarrisUm dos casos mais fracos. Aceita por Compton, George D. Smith e Brodie. Não há registro de selamento em vida; o registro existente é o selamento por procuração de janeiro de 1846.
Louisa Beaman5 de abril de 184126SolteiraPrimeira esposa plural de Nauvoo, nomeada pelo ensaio de 2014. Cerimônia por Joseph Bates Noble, que deixou afidávits e depoimentos.
Zina Diantha Huntington Jacobs27 de outubro de 184120Casada, marido vivo Henry Bailey JacobsGrávida de cerca de seis meses na data. Cerimônia pelo irmão dela, Dimick Huntington. Afidávit de 1869.
Presendia Lathrop Huntington Buell11 de dezembro de 184131Casada, marido vivo Norman Buell, afastado da Igreja desde o MissouriCerimônia pelo mesmo irmão, Dimick Huntington. Afidávit de 1869 e esboço autobiográfico de 1881.
Agnes Moulton Coolbrith Smith6 de janeiro de 184230 ou 33, conforme a data de nascimento adotadaViúva de Don Carlos Smith, irmão caçula de Joseph, morto em agosto de 1841Aceita por Compton, Hales, George D. Smith e Brodie. Mãe de Ina Coolbrith, depois poeta laureada da Califórnia.
Sylvia Porter Sessions Lyon8 de fevereiro de 1842 (Compton) ou entre novembro de 1842 e maio de 1843 (Hales)23 a 24Casada, marido vivo Windsor Palmer LyonDeclaração de leito de morte à filha Josephine, registrada em afidávit de 1915. Análise de DNA de 2016 aponta Windsor Lyon como pai biológico de Josephine.
Mary Elizabeth Rollins Lightnerfevereiro de 184223Casada, marido vivo Adam Lightner, que nunca se filiou à IgrejaSelada por Brigham Young. Afidávit de 1902 e discurso na Universidade Brigham Young em 1905. Descreveu o selamento como por eternidade.
Patty Bartlett Sessions9 de março de 184247Casada, marido vivo David Sessions, membro da IgrejaDocumentação incomum: o próprio diário dela registra a data. Parteira de Nauvoo. Mãe de Sylvia Sessions.
Marinda Nancy Johnson Hydeabril de 1842 (diário de Joseph Smith) ou maio de 1843 (afidávit dela)26 ou 27Casada, marido vivo o apóstolo Orson HydeNa data de 1842, Hyde estava em missão a Jerusalém. Hales prefere a data do afidávit; Compton, a do diário.
Elizabeth Davis Brackenbury Durfeeantes de junho de 1842c. 51Casada, marido vivo Jabez Durfee, membro ativoContestado. O nome não estava na lista original de Andrew Jenson e foi acrescentado por Eliza R. Snow. Richard L. Anderson e Scott Faulring consideram a evidência insuficiente.
Sarah Maryetta Kingsley Clevelandantes de 29 de junho de 184253Casada, marido vivo John Cleveland, nunca membroPrimeira conselheira de Emma Smith na Sociedade de Socorro. Continuou vivendo com o marido. Relato contemporâneo descreve selamento apenas por eternidade.
Delcena Diadamia Johnson Shermanantes de julho de 184235Viúva de Lyman Royal Sherman, morto em 1839Sustentada por uma única fonte, o irmão dela, Benjamin F. Johnson, que escreveu que o casamento ocorreu antes de seu retorno a Nauvoo, em 1º de julho de 1842.
Eliza Roxcy Snow29 de junho de 184238SolteiraSelada por Brigham Young na casa de Sarah Cleveland. Diário próprio e afidávit de 1869. Secretária da Sociedade de Socorro; assinou em 1842 declarações negando que Joseph praticasse poligamia.
Sarah Ann Whitney27 de julho de 184217SolteiraO caso mais bem documentado de Nauvoo: a revelação de selamento de 27 de julho de 1842 está manuscrita pelo próprio Joseph Smith. Cerimônia pelo pai dela, o bispo Newel K. Whitney.
Martha McBride Knightagosto de 184237Viúva de Vinson Knight, bispo de Nauvoo, morto em 31 de julho de 1842Afidávit de 1869. Optou depois por ser selada a Joseph pela eternidade, em vez de a Vinson Knight por procuração.
Ruth Daggett Vose Sayersfevereiro de 184334 a 35Casada, marido vivo Edward Sayers, não membroAfidávit de 1º de maio de 1869. Hales classifica como selamento só por eternidade, com anuência do marido. O afidávit nomeia Hyrum Smith como oficiante, o que gera um problema de data.
Flora Ann Woodworthprimavera de 184316SolteiraSem data firme em documento algum. Casou-se civilmente com Carlos Gove em agosto de 1843, ainda em vida de Joseph Smith, logo após um desentendimento entre Emma e Joseph.
Emily Dow Partridge4 de março de 1843, com segunda cerimônia em 11 de maio de 184319Solteira, morava na casa dos SmithFilha do bispo Edward Partridge. A segunda cerimônia foi feita na presença e com o consentimento de Emma. Depoimento sob juramento em 1892 confirmando relação conjugal.
Eliza Maria Partridge4 ou 8 de março de 1843, com segunda cerimônia em 11 de maio de 184322Solteira, morava na casa dos SmithIrmã de Emily. Afidávit de 1º de julho de 1869 e autobiografia de 1877. Relato de Benjamin F. Johnson sobre maio de 1843.
Almera Woodward Johnsonabril de 1843 (Hales) ou agosto de 184330SolteiraAfidávit de 1883: escreveu que passou a viver com Joseph Smith como esposa. Irmã de Delcena e de Benjamin F. Johnson. A disputa é sobre o mês, não sobre o fato.
Lucy Walker1º de maio de 184317Solteira, tutelada na casa dos Smith após a morte da mãeData consistente em todas as fontes. Relato publicado em 1888 e afidávit de 1902. Descreveu o selamento como por tempo e eternidade.
Helen Mar Kimballmaio de 184314SolteiraA mais jovem, nomeada pelo próprio ensaio de 2014 da Igreja. Arranjado pelo pai, o apóstolo Heber C. Kimball. Ela descreveu o selamento como "só por eternidade", o que o ensaio usa para sugerir ausência de relação conjugal.
Sarah Lawrencemaio de 184316 ou 17, conforme a data de nascimento adotadaSolteira, órfã sob tutela legal de Joseph SmithA única de toda a lista que negou publicamente o casamento. Certificado de Lovina Smith Walker, de 1869, e registro de selamento por procuração em 1846.
Maria Lawrencemaio de 184319Solteira, órfã sob a mesma tutelaIrmã de Sarah. Morreu em 1847 sem deixar declaração própria. É o nome citado na acusação de adultério apresentada por William Law em 1844.
Elvira Annie Cowles Holmes1º de junho de 184329Casada, marido vivo Jonathan Harriman Holmes, com quem casara seis meses antesTesoureira da Sociedade de Socorro. O afidávit dela, de 1869, não declara se o selamento foi só por eternidade. A filha afirmou em 1938 que a mãe viveu como esposa plural.
Rhoda Richards12 de junho de 184358Solteira, nunca casadaA mais velha na data do selamento. Irmã do apóstolo Willard Richards. Hales a classifica como selamento só por eternidade, sem intimidade física.
Desdemona Catlin Wadsworth Fullmerjulho de 184333SolteiraAfidávit de 17 de junho de 1869 e afidávit de William Clayton de 1874. Parte da bibliografia mais antiga data o selamento em julho de 1842.
Hannah Ellsmeados de 1843c. 30SolteiraSem data precisa. Carta de Eliza R. Snow a John Taylor em 1886 e afidávit de John Benbow de 1869. Nascida na Inglaterra; morreu em Nauvoo em 1844.
Olive Grey Frostverão de 184327SolteiraEvidência tênue, sem documento contemporâneo. Compton dá apenas "verão de 1843"; Hales sugere 17 de setembro. Irmã de Mary Ann Frost Pratt.
Malissa Lott20 de setembro de 184319SolteiraFilha de Cornelius P. Lott, administrador da fazenda de Joseph. Depoimento sob juramento em 1892 confirmando relação conjugal, reafirmado a Joseph Smith III em 1893.
Nancy Maria Winchesterdata desconhecida, situada entre 1842 e 1843c. 14 a 15, dependendo da dataSolteiraO caso mais disputado da lista de Compton. Aparece apenas em duas listas tardias, de Eliza R. Snow e de Orson F. Whitney. Faulring e Anderson sustentam que não atende ao padrão histórico.
Fanny Young Carr Murray2 de novembro de 184355Viúva de Roswell MurrayO último casamento plural documentado. Irmã mais velha de Brigham Young. Repousa essencialmente sobre uma recordação de Brigham Young feita em 1873.
Mary Ann Frost Prattatribuído ao verão de 184334Casada, marido vivo o apóstolo Parley P. PrattCompton NÃO a inclui. George D. Smith e Brodie incluem. O único documento firme é o registro do templo de Nauvoo de fevereiro de 1846, que é um selamento póstumo.
Mary Houston, Sarah Scott, Olive Andrews, Jane Tippets, Sophia Sanburn, Phebe Watrous, Vienna Jaquesapenas "antes de 1844", sem datanão documentadanão documentadaSete nomes que aparecem em George D. Smith e em Brodie e que Compton não aceita. Documentação insuficiente para qualquer afirmação de fato.

Por que o número varia

Não existe um número único porque não existe um critério único. Cada historiador conta o que seu método reconhece como casamento documentado, e os métodos diferem em quatro pontos concretos.

O primeiro é a natureza do selamento. Alguns eram por tempo e eternidade, isto é, casamento também nesta vida; outros eram declaradamente apenas por eternidade, sem qualquer relação nesta vida. Quem só conta o primeiro tipo chega a um número bem menor. O segundo é a documentação. Boa parte da lista repousa em afidávits recolhidos entre 1869 e 1874, e em depoimentos sob juramento no processo do Temple Lot, em 1892, portanto de 26 a 49 anos depois dos fatos. Alguns casos têm documento contemporâneo, como a revelação de selamento de Sarah Ann Whitney, escrita de próprio punho por Joseph Smith em julho de 1842, e o diário de Patty Sessions. Outros têm apenas uma lista tardia.

O terceiro é o selamento por procuração. Depois da morte de Joseph, dezenas de mulheres foram seladas a ele no templo de Nauvoo, em 1846, por procuração. Esse ato é registro documental de que ela se considerava esposa dele, mas não é prova de que houve cerimônia em vida. É exatamente aí que casos como o de Lucinda Harris e o de Mary Ann Frost Pratt ficam suspensos. O quarto é a hostilidade da fonte. Parte das afirmações mais antigas vem de John C. Bennett e de Sarah Pratt, adversários declarados, cujo testemunho os historiadores tratam com cautela, sem por isso descartá-lo.

O resultado é uma faixa. Danel Bachman conta 31; Compton, 33; Hales, cerca de 34 a 35; Richard Bushman trabalha dentro do mesmo intervalo consensual; George D. Smith chega a 43; D. Michael Quinn, a 46; Fawn Brodie, a 48. O ensaio da própria Igreja diz de 30 a 40, o que cobre a metade central dessa faixa. Nenhum desses números é arbitrário: cada um é o resultado de um critério declarado.

O que a lista mostra em números

Tomando as 33 mulheres de Compton como base, três padrões saltam. Cerca de um terço tinha entre 14 e 20 anos na data do selamento. Cerca de um terço, onze mulheres, tinha marido vivo e não divorciado. E a faixa etária é extremamente larga: a mais jovem documentada é Helen Mar Kimball, com 14 anos, e a mais velha na data do selamento é Rhoda Richards, com 58. Fanny Young, nascida em 1787, é a de nascimento mais antigo.

A concentração temporal também é forte. Fora Fanny Alger, em meados da década de 1830, e Lucinda Harris, em 1838, praticamente tudo acontece em pouco mais de dois anos e meio, entre abril de 1841 e novembro de 1843. Só em maio de 1843 há pelo menos cinco selamentos. Nenhum casamento plural de Joseph Smith está documentado em 1844; o último é o de 2 de novembro de 1843. Brodie relata ainda uma proposta a Cordelia Calista Morley na primavera de 1844, recusada por ela, que é proposta e não casamento.

Um último dado de método vale ficar explícito. Praticamente nenhum desses casamentos era público na época. A prática só foi admitida abertamente em 29 de agosto de 1852, em Salt Lake City, oito anos depois da morte de Joseph Smith. Enquanto ele viveu, o que existia em público era negação, e é por isso que a documentação é majoritariamente tardia: ela foi produzida depois, em Utah, precisamente para constituir registro do que não se podia registrar antes.