O que foi a Kirtland Safety Society
Entre janeiro e novembro de 1837, a comunidade mórmon de Kirtland, em Ohio, operou uma instituição financeira própria que emitiu notas de papel e quebrou no mesmo ano. O episódio é o mais grave da vida financeira de Joseph Smith e provocou a maior crise interna da igreja em seu tempo de vida: metade da liderança se voltou contra ele e ele fugiu do estado.
A carta negada e a reorganização
Em 2 de novembro de 1836, Joseph Smith, Sidney Rigdon e outros ratificaram a constituição de um banco comunitário, a Kirtland Safety Society. Para operar legalmente era preciso uma carta da legislatura de Ohio, e o pedido foi recusado, em janeiro e novamente em fevereiro de 1837. Os motivos são disputados: os organizadores atribuíram a recusa a hostilidade anti-mórmon e à influência do adversário local Grandison Newell sobre legisladores; críticos observam que a legislatura de Ohio, de maioria whig e antibanco naquele período, recusava a maioria dos pedidos de carta e que a recusa não teve nada de excepcional.
Negada a carta, os organizadores optaram, segundo o relato deles próprios com aconselhamento jurídico, por reorganizar a instituição em 2 de janeiro de 1837 como sociedade por ações, sob o nome Kirtland Safety Society Anti-Banking Company. A mudança foi feita literalmente sobre as chapas de impressão já gravadas: as sílabas "ANTI" e "ING" foram acrescentadas em torno da palavra "BANK" nas notas. Sidney Rigdon assumiu como presidente, Joseph Smith como caixa e Warren Parrish como secretário e escriturário.
Os defensores argumentam que a reorganização foi tentativa honesta de operar dentro de uma brecha real, já que sociedades por ações não incorporadas existiam. Os críticos observam que uma nota carimbada "anti-bank" que circula como dinheiro é um banco para todos os efeitos práticos, e que a lei de Ohio de 1816 punia exatamente isso.
Os números
O capital declarado nos artigos de acordo era de quatro milhões de dólares, divididos em oitenta mil ações de cinquenta dólares. A cifra é a peça mais citada do caso e merece contexto dos dois lados. Bancos comunitários da época costumavam declarar capital entre cem e trezentos mil dólares; quatro milhões era quase metade da capitalização bancária total do estado de Ohio, estimada em cerca de nove milhões e trezentos mil dólares. Do outro lado, capital declarado em estatuto não era capital integralizado em nenhum banco da época, e o valor tinha função de teto autorizado.
O que existia de fato em espécie é muito menor e mal documentado. As estimativas variam conforme a fonte: em janeiro de 1837, mais de cem acionistas haviam pago perto de doze mil dólares em espécie ou notas de outros bancos como primeira parcela; Warren Parrish, que depois rompeu com Smith, declarou que havia cerca de seis mil dólares em espécie contra aproximadamente cento e cinquenta mil dólares em notas em circulação, enquanto Joseph Smith afirmou que a circulação era de cerca de dez mil. Nenhum dos dois números é neutro, e a contabilidade completa não sobreviveu. O que não é contestado é a ordem de grandeza da desproporção: reserva pequena, papel emitido muito maior.
O colapso
As notas começaram a circular com desconto pesado já no primeiro mês. Grandison Newell e outros adversários compravam notas e as apresentavam para resgate em espécie, prática legal e comum na época e que drenava a reserva. Em maio de 1837 os bancos de Nova York suspenderam pagamento em espécie e a crise virou nacional: o Pânico de 1837 derrubou perto de quarenta por cento das instituições bancárias americanas, e cento e noventa e quatro dos setecentos e vinte e nove bancos com carta em 1837 fecharam as portas. A Kirtland Safety Society encerrou as operações em novembro de 1837, com um passivo estimado em torno de cem mil dólares.
A ação judicial foi movida em 9 de fevereiro de 1837 por Samuel Rounds, agindo por conta de Newell, com base numa lei de Ohio de 1816 que previa pena de mil dólares contra dirigentes de banco não incorporado. O julgamento saiu em 24 de outubro de 1837, com multa de mil dólares contra Joseph Smith e Sidney Rigdon, mais custas. Eles recorreram, mas deixaram Ohio antes que o recurso fosse decidido.
A apostasia e a fuga
O efeito interno foi devastador. Membros que haviam trocado economias por notas perderam tudo, e a queda atingiu a liderança. Apóstolos como Lyman E. Johnson, Luke S. Johnson, John F. Boynton e William E. McLellin romperam ou foram afastados; os três Testemunhas do Livro de Mórmon, Oliver Cowdery, David Whitmer e Martin Harris, saíram todos da igreja no ciclo de 1837 e 1838. Cowdery foi excomungado em 12 de abril de 1838. Heber C. Kimball registrou que, no auge da crise, não havia vinte pessoas na terra que afirmariam que Joseph Smith era profeta.
Em 12 de janeiro de 1838, com mandados de prisão pendentes, Joseph Smith e Sidney Rigdon fugiram de Kirtland a cavalo, à noite, rumo ao Missouri. A sede da igreja mudou para Far West. Em agosto de 1838, já no Missouri, Smith acusou Warren Parrish de ter desviado vinte e cinco mil dólares da instituição, acusação que Parrish negou e que nunca foi provada em juízo.
Fraude, imprudência ou as duas
Este é o ponto onde a honestidade exige separar o que os registros mostram do que eles não mostram.
| A acusação | A defesa | O que os registros mostram |
|---|---|---|
| O capital de quatro milhões era falso e servia para atrair depósito | Capital declarado era teto autorizado, não integralizado; nenhum banco da época tinha o valor em cofre | A cifra está no estatuto de 2 de janeiro de 1837 e era desproporcional ao padrão local (cem a trezentos mil dólares) |
| Operar como "anti-bank" foi manobra para burlar a recusa da carta | Foi tentativa de operar como sociedade por ações não incorporada, com aconselhamento jurídico | As chapas foram alteradas com "ANTI" e "ING" em torno de "BANK"; o tribunal de Ohio condenou em outubro de 1837 |
| Smith se locupletou às custas dos membros | Ele foi o maior perdedor individual do episódio | Ele acumulou dívida pessoal alta e figurou em dezessete ações somando 30.206,44 dólares; nenhum registro mostra transferência de valor para ele |
| Um profeta deveria ter previsto a quebra | O Pânico de 1837 foi choque nacional; cento e noventa e quatro de setecentos e vinte e nove bancos fecharam | A quebra é simultânea à crise nacional, mas a instituição já operava com desconto pesado antes de maio de 1837 |
| A contabilidade foi manipulada | Parrish, o escriturário, é quem foi acusado de desvio por Smith em 1838 | A contabilidade completa não sobreviveu; as duas acusações se anulam no registro e nenhuma foi provada |
A avaliação acadêmica mais influente é o estudo de Marvin S. Hill, C. Keith Rooker e Larry T. Wimmer, "The Kirtland Economy Revisited", publicado em BYU Studies em 1977. Os três, trabalhando com registros de terra e de crédito, argumentaram que Joseph Smith deu ativos reais a seus credores, comprou e vendeu terra a preço de mercado, e que a reversão econômica de Kirtland envolveu uma mudança de condições que agentes razoavelmente prudentes provavelmente não anteciparam. É uma defesa contra a acusação de fraude, não contra a de imprudência.
A conclusão sóbria é que as duas coisas são compatíveis. Uma instituição pode ser imprudente, mal capitalizada e ilegal sem que seus dirigentes tenham planejado roubar ninguém, e o fato de o dirigente ter perdido junto com os depositantes é evidência real contra a hipótese de fraude, ainda que não seja prova. O que resta indefensável no registro é o descompasso entre a autoridade profética invocada em favor da instituição e o resultado, e foi isso, mais que o dinheiro, que quebrou a confiança em Kirtland.