A pergunta e a resposta curta
A pergunta popular pressupõe um enriquecimento pessoal. A documentação mostra algo diferente e mais interessante: Joseph Smith passou de filho de arrendatários sem terra a administrador de um patrimônio de milhares de acres, sem que esse patrimônio fosse legalmente dele; viveu num padrão material modesto para o volume que movimentava; misturava contas pessoais e eclesiásticas de um modo que hoje seria ilegal; e entrou com pedido de falência em abril de 1842. Quando morreu, em junho de 1844, o inventário de seus bens pessoais foi avaliado em pouco mais de mil dólares, enquanto as dívidas em seu nome passavam de cem mil.
Nada disso resolve a questão moral que muita gente quer ver resolvida. Resolve, sim, a questão factual: controle de patrimônio e fortuna pessoal são coisas distintas, e no caso dele as duas foram deliberadamente difíceis de separar.
O ponto de partida
A família Smith era de fazendeiros arrendatários. Em Manchester, no estado de Nova York, os Smith trabalharam uma propriedade de cerca de cem acres que compraram por contrato e perderam por volta de 1825 e 1826, quando não conseguiram cobrir uma parcela anual de cem dólares. Voltaram à condição de arrendatários. Joseph Smith Jr. cresceu, portanto, na faixa da população rural americana que trabalhava terra que não era sua, e essa origem aparece com frequência nas biografias como chave para entender sua relação posterior com propriedade e dívida.
1831: a Lei de Consagração
A primeira arquitetura financeira do movimento vem de revelações de fevereiro de 1831, que estabeleceram a chamada lei de consagração e mordomia. Os membros transferiam sua propriedade ao bispo da igreja e recebiam de volta uma mordomia, ou seja, o uso de uma porção que deveria sustentar a família, com o excedente entrando num fundo comum. Edward Partridge foi o primeiro bispo encarregado de receber e redistribuir esses bens. Na prática o sistema não se sustentou: os conversos chegavam pobres ao Missouri e a Ohio, a necessidade sempre excedia o recurso, e havia disputa sobre quem tinha direito de reclamar de volta o que consagrara.
Vale registrar que a ideia não era exótica no ambiente religioso americano da época, e que o próprio Livro de Mórmon já apresentava a comunhão de bens como estado ideal.
3 E tinham todas as coisas em comum; portanto, não havia ricos nem pobres nem escravos nem livres, mas eram todos livres e participantes do dom celestial.
32 E era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns.
33 E os apóstolos davam, com grande poder, testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça.
34 Não havia, pois, entre eles necessitado algum; porque todos os que possuíam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora vendido, e o depositavam aos pés dos apóstolos.
35 E repartia-se a cada um, segundo a necessidade que cada um tinha.
1841: trustee-in-trust
O momento decisivo é 30 de janeiro de 1841. Numa conferência especial em Nauvoo, Joseph Smith foi eleito único trustee-in-trust da igreja, com o registro protocolado no cartório do condado de Hancock três dias depois. O título "trustee-in-trust" não existia na lei: juridicamente ele era apenas um trustee, um administrador fiduciário. A lei de Illinois exigia esse arranjo porque uma igreja só podia deter propriedade por meio de um representante que detivesse os títulos em seu nome.
A consequência é a raiz de tudo que vem depois. A partir dali, os títulos das terras da igreja em Nauvoo passaram a estar sob a assinatura de um homem só. Foram milhares de acres, muito acima do que a lei permitia: o estatuto de Illinois de 1835, com a emenda de 1839, autorizava a um trustee religioso algo como cinco acres para casa de reunião e quarenta para acampamento. Não há registro claro de que Joseph Smith soubesse desse limite, mas a extensão do que ele acumulou o excedia amplamente.
A dívida que veio junto
A terra de Nauvoo não foi doada, foi comprada a prazo, e essa é a metade da história que a pergunta popular costuma ignorar. Em 1839, refugiados da expulsão do Missouri, os santos compraram terra do especulador Isaac Galland, que havia adquirido lotes no chamado Half-Breed Tract e vendeu cerca de dezenove mil acres a compradores mórmons. Em agosto do mesmo ano, Joseph Smith, seu irmão Hyrum e Sidney Rigdon assinaram a compra de várias centenas de acres da firma de Horace Hotchkiss e sócios, de Nova York, por cento e dez mil dólares. Entre 1839 e 1841, dezenas de lotes e cerca de quinhentos acres foram adquiridos em Illinois.
Somando o passivo herdado de Ohio, incluindo obrigações das firmas mercantis de Kirtland, o resultado é que a assinatura que controlava as terras era também a assinatura que devia por elas.
A Red Brick Store e a Nauvoo House
A loja de tijolos vermelhos, a Red Brick Store, abriu em 5 de janeiro de 1842, com Joseph Smith como proprietário. Ela nunca funcionou como negócio comum. O andar de cima era escritório e sede administrativa da igreja: ali o bispo Newel K. Whitney recebia dízimos e pagamentos, ali foi organizada a Sociedade de Socorro em 17 de março de 1842, e ali Joseph Smith conduzia a maior parte dos assuntos da igreja. A loja vendia muito a crédito para membros pobres, e o crédito não voltava.
A Nauvoo House era um hotel de tijolo previsto numa revelação de 19 de janeiro de 1841, com pedra angular assentada em 2 de outubro de 1841. Nunca foi concluída em vida de Joseph Smith. O templo, iniciado em março de 1841, consumia o grosso do dízimo e do trabalho. Ou seja, o patrimônio que ele administrava era em enorme medida obra em construção financiada por doação e por dívida, não capital líquido.
Abril de 1842: o pedido de falência
O Congresso dos Estados Unidos aprovou em agosto de 1841 a primeira lei federal que permitia a falência voluntária. Ela entrou em vigor em fevereiro de 1842 e teve adesão enorme: mais de quarenta e um mil pedidos no país e mil quinhentos e noventa e dois em Illinois antes de ser revogada, em março de 1843. Joseph Smith se reuniu com o advogado Calvin A. Warren em 14 de abril de 1842, passou os dois dias seguintes montando os documentos e foi a Carthage protocolar as petições em 18 de abril. O aviso formal saiu em 6 de maio.
Duas coisas deram errado. A primeira é técnica e decisiva: ao listar bens e dívidas, ele ou seu advogado misturou obrigações pessoais com obrigações assumidas na qualidade de trustee da igreja. A lei de 1841 tratava de dívida pessoal e não tratava de dívida fiduciária, distinção que talvez não estivesse clara para nenhum dos dois. A dívida de cento e dez mil dólares com Hotchkiss, por exemplo, entrou no processo embora as parcelas ainda estivessem sendo pagas. A segunda é que o procurador federal Justin Butterfield investigou alegações de transferências fraudulentas de propriedade, feitas para blindar bens de credores, e apresentou objeções ao perdão da dívida.
O resultado é claro no registro: a falência de Joseph Smith nunca foi homologada. Butterfield relatou, em 1844, ter impedido que ele obtivesse o benefício da lei. Parte dos autos se perdeu, de modo que os fundamentos exatos da recusa não são recuperáveis. O acusador mais barulhento das transferências fraudulentas foi John C. Bennett, ex-aliado que rompera com Smith de forma ruidosa, o que é motivo para tratar suas alegações com cautela sem descartá-las.
O que o espólio mostrou
Joseph Smith foi morto em 27 de junho de 1844. Emma Smith foi nomeada administradora do espólio em julho e conduziu o inventário dos bens pessoais, certificado por ela em 10 de agosto de 1844. O documento é curto e vale pelo que lista: dois cavalos avaliados em vinte e cinco e quinze dólares, uma sela, arreios, sete camisas, cinco calças, seis casacos de verão, quatro casacos de tecido, um sobretudo, sete coletes, uma capa, chapéu, botas, meias, luvas, lenços, uma bengala e espada a sete dólares, dragonas e faixa a sete dólares, seis mapas a setenta e cinco centavos, uma valise e um chicote. Total avaliado: 1.022,25 dólares.
Do outro lado, as reivindicações contra o espólio passavam de cem mil dólares, e cerca de quarenta credores se habilitaram durante a administração de Joseph W. Coolidge, que substituiu Emma em setembro de 1844 depois que ela não conseguiu apresentar caução suficiente. A frase que os editores dos Joseph Smith Papers usam para resumir o problema é a mais precisa disponível: a maior parte dos ativos era detida por ele como trustee da igreja, e a maior parte das dívidas estava em seu nome pessoal. Emma abriu mão de sua reivindicação de usufruto de viúva em troca de um sexto do produto da venda das terras; a liquidação se arrastou por leilões em Illinois entre 1851 e 1852 e por processos em Ohio e Iowa até os anos 1860.
Sobre o padrão de vida, o registro também é modesto para o volume administrado. A família morou primeiro numa casa de troncos, depois na Homestead. A Mansion House, concluída em 1843, foi a residência mais confortável que ele teve, e mesmo ela virou negócio: a partir de setembro de 1843 ele passou a cobrar dos hóspedes porque não conseguia bancar a hospedagem gratuita, e em janeiro de 1844 arrendou a ala de hotel a Ebenezer Robinson, ficando a família com três quartos.
Controle, propriedade e documentação
| O que ele controlava | O que era dele | O que a documentação mostra |
|---|---|---|
| Milhares de acres em Nauvoo e arredores, com título em seu nome como trustee-in-trust desde janeiro de 1841 | Nada disso, juridicamente: a titularidade era fiduciária, em nome da igreja | A extensão excedia em muito o limite legal de Illinois (cinco acres para casa de reunião, quarenta para acampamento) |
| O dízimo recolhido em espécie, gêneros e trabalho, registrado nos diários e no Livro da Lei do Senhor | Parte real: ele recebia doações como pagamento pessoal, lançadas nos mesmos registros de dízimo | Contas pessoais e eclesiásticas eram intercaladas nos mesmos livros, prática hoje ilegal e à época sem prestação de contas pública |
| A Red Brick Store, aberta em 5 de janeiro de 1842, sede administrativa da igreja | A loja era sua, mas vendia largamente a crédito a membros pobres | Ela nunca gerou o lucro de um negócio comum; funcionava como escritório e canal de assistência |
| As obras do templo (março de 1841) e da Nauvoo House (outubro de 1841) | Nenhuma parcela pessoal | Nenhuma das duas foi concluída em vida dele; consumiam doação e trabalho, não geravam receita |
| A Mansion House, residência e hotel a partir de 1843 | Residência da família, arrendada a terceiro em janeiro de 1844 | Ele passou a cobrar dos hóspedes em setembro de 1843 por não conseguir custear a hospedagem |
| Nada, depois de 27 de junho de 1844 | Bens pessoais inventariados em 1.022,25 dólares (roupas, dois cavalos, sela, bengala, mapas) | Reivindicações contra o espólio superavam cem mil dólares; a maior parte dos ativos era da igreja e a maior parte das dívidas era pessoal |
A distinção que importa
Quem diz que Joseph Smith enriqueceu tem de explicar o inventário de mil dólares, a falência protocolada e negada, e o hotel arrendado. Quem diz que ele nada tinha tem de explicar os milhares de acres sob sua assinatura, as doações lançadas como pagamento pessoal nos livros de dízimo, e a ausência total de qualquer auditoria ou prestação de contas aos doadores. As duas afirmações simples estão erradas, e pelo mesmo motivo: o arranjo não separava as duas coisas.
A questão que sobra não é "quanto ele tinha", e sim se a confusão entre patrimônio pessoal e eclesiástico foi um traço da época e da improvisação de uma igreja jovem, ou uma escolha conveniente para quem tinha a assinatura. O registro documental sustenta os dois lados dessa leitura e não decide entre eles.