A Morte de Joseph Smith em Carthage

O jornal que durou uma edição

Em 7 de junho de 1844 saiu em Nauvoo a primeira e única edição do Nauvoo Expositor. Os donos eram dissidentes recém-excomungados, entre eles William Law, que havia sido primeiro conselheiro na Primeira Presidência. O jornal denunciava o casamento plural praticado em segredo, a doutrina da pluralidade de deuses e a concentração de poder religioso, civil e militar nas mãos de Joseph Smith.

O conselho municipal reuniu-se em 8 e 10 de junho e, no fim da tarde do dia 10, declarou o jornal um incômodo público e mandou destruir o prelo, o que foi feito naquela noite. O ponto jurídico foi analisado por Dallin Oaks num artigo de 1965 na Utah Law Review, antes de ele se tornar autoridade da Igreja: pela common law da época o conselho podia plausivelmente mandar destruir os exemplares difamatórios, mas não havia base legal em 1844 para destruir a máquina, que era propriedade recuperável por ação de danos. Vale notar que o argumento moderno de liberdade de imprensa é anacrônico, porque a Primeira Emenda ainda não se aplicava aos estados. O problema real era excesso de poder municipal.

Traição, e por que isso importava

Em 11 de junho foi expedido mandado por incitação a motim. Em 18 de junho, convencido de ataque iminente, Joseph Smith convocou a Legião de Nauvoo e declarou lei marcial na cidade. Foi esse ato, mobilizar milícia contra a força sob comando do governador, que fundamentou a acusação seguinte, apresentada em 24 de junho: traição contra o estado de Illinois.

A diferença é técnica e decisiva. Traição era crime capital em Illinois, e um juiz de paz não tinha competência para arbitrar fiança em crime capital. Por isso, enquanto os demais acusados de motim saíram sob fiança de quinhentos dólares cada, os irmãos Smith tiveram de permanecer presos até a audiência. Sem essa peça processual eles não estariam na cadeia em 27 de junho.

A rendição

Na madrugada de 23 de junho, Joseph, Hyrum, Willard Richards e Porter Rockwell atravessaram o Mississippi para o território de Iowa. Naquela manhã ele escreveu a Emma de um lugar que datou apenas como Safety. Ainda no mesmo dia voltou a Nauvoo, depois que emissários avisaram que tropas invadiriam a cidade e que ele estava sendo chamado de covarde. A frase tradicional atribuída a ele nesse momento, de que se a vida dele não tem valor para os amigos não tem valor para ele, vem de relatos posteriores.

O governador Thomas Ford exigiu submissão a julgamento em Carthage e prometeu por escrito proteção do estado. O grupo partiu de Nauvoo em 24 de junho e chegou perto da meia-noite. Em 25 de junho houve a rendição formal, a fiança pela acusação de motim, a prisão imediata pela acusação de traição e, por volta das nove da noite, o recolhimento à cadeia do condado. Em 26 de junho a audiência preliminar foi remarcada para o dia 29, e os presos foram transferidos para o quarto do carcereiro, no andar de cima. Estavam ali, e não na masmorra, quando foram atacados.

27 de junho

Naquela manhã, Ford dissolveu a milícia reunida em Carthage e partiu para Nauvoo, deixando a cadeia sob guarda dos Carthage Greys, unidade local hostil aos mórmons, comandada pelo capitão Robert F. Smith, que era também o juiz de paz que ordenara a prisão. As tropas de Warsaw, dispensadas a caminho, foram reconvocadas como voluntários pelo coronel Levi Williams e marcharam sobre a cadeia.

O ataque começou pouco depois das cinco da tarde. Os atacantes tinham o rosto pintado, na versão mais repetida com pólvora molhada, para impedir reconhecimento. Estavam na sala Joseph Smith, Hyrum Smith, John Taylor e Willard Richards. Richards intitulou seu relato Dois Minutos na Cadeia; a reconstrução forense publicada pela BYU Studies estima até nove minutos e entre quarenta e cinco e cinquenta e cinco projéteis entrados no quarto, disparados provavelmente por não mais de três homens de cada vez, porque o patamar da escada era estreito demais para mais gente.

Uma bala atravessou o painel da porta e atingiu Hyrum do lado esquerdo do nariz. Ele caiu para trás dizendo que era um homem morto e morreu quase de imediato. O estudo forense documenta seis ferimentos nele e conclui que o tiro nas costas veio de fora, pela janela, destruindo o relógio de bolso que ele levava, enquanto o tiro fatal veio pela porta.

A pistola

Na manhã daquele mesmo dia, Cyrus Wheelock entrou na cadeia de sobretudo, porque chovia, passou pela guarda e deixou com Joseph uma pistola pepperbox de seis canos, fabricada pela Allen. Um dia antes, John Fullmer havia trazido uma pistola de cano único, que Joseph entregou a Hyrum, e que provavelmente não chegou a ser disparada.

Joseph abriu parcialmente a porta e acionou a pepperbox seis vezes no vão da escada. Três dos seis canos dispararam e três falharam. O número vem do relato de Willard Richards, testemunha ocular. Três homens foram feridos: John Wills no braço, William Voras no ombro e William Gallaher no rosto. Os três foram indiciados junto com os réus principais, justamente porque os ferimentos eram prova de participação, e fugiram do condado sem nunca serem julgados. John Taylor afirmou depois que dois deles morreram, e publicações SUD antigas repetiram isso, mas Dallin Oaks e Marvin Hill, no estudo Carthage Conspiracy, de 1975, concluem que sobreviveram, e o próprio Ford registra feridos, não mortos. Não há registro de óbito nem inquérito.

A queda pela janela

Ferido, Joseph correu para a janela leste do segundo andar. Foi atingido por tiros vindos da porta e ao menos um vindo de fora, e caiu no pátio, perto do poço. As palavras registradas por Richards e Taylor são as mesmas: Ó Senhor meu Deus.

A leitura maçônica dessas palavras é discutida. O sinal de socorro do grau de Mestre Maçom no século 19 se dava erguendo os braços e dizendo algo que começa exatamente assim, e obrigava qualquer maçom presente a acudir; Joseph fora iniciado em Nauvoo em março de 1842 e boa parte dos homens do condado era maçom. Richard Bushman e Reed Durham sustentam a leitura, e John Taylor e Heber Kimball acreditavam nela. Contra ela pesa que a segunda metade da fórmula nunca aparece em relato algum, que um homem baleado caindo de uma janela tem motivo óbvio e não maçônico para dizer aquilo, e que a leitura foi construída depois, por mórmons, e não relatada por testemunhas hostis. As palavras são documentadas; o gesto e a intenção são interpretação.

O que a documentação sustenta e o que não sustenta

AfirmaçãoO que a documentação sustenta
Joseph Smith atirou e matou atacantesEle atirou e feriu três homens, nomeados e indiciados. Nenhum registro de óbito, inquérito ou prova em julgamento; Oaks e Hill concluem que sobreviveram
A turba tinha 150 a 200 homensÉ a estimativa das testemunhas SUD. O Nauvoo Neighbor fala em até 250; John Hay, em 1869, fala em cerca de 75 no ataque efetivo. A forense indica que poucos homens de fato atiraram no quarto
Os Carthage Greys atiraram com festim e deixaram a turba passarRelatado por múltiplas fontes, insinuado pelo promotor no julgamento e sustentado pelo próprio Ford, mas a defesa impediu a resposta direta em juízo. John Hay dá versão de mero atraso
O relógio de John Taylor parou às 17h16 por causa de uma balaContestado três vezes. Taylor diz bala direta; um exame de 1998 propôs que ele quebrou contra o peitoril; um reexame do Departamento de História da Igreja, apresentado em 2023, dá o resultado como inconclusivo e sugere projétil já desacelerado
O corpo foi encostado no poço e fuzilado, e alguém tentou decapitá-lo até ser detido por uma coluna de luzVem de William Daniels, testemunha principal da acusação em 1845, que publicou um panfleto sensacionalista antes de depor e admitiu no banco não tê-lo escrito. O núcleo do pelotão junto ao poço tem corroboração independente em Hay; a decapitação e a luz celestial são rejeitadas pelos historiadores
Ford foi cúmpliceA posição acadêmica majoritária é negligência grave, não conluio. Ele prometeu proteção, dissolveu a milícia, deixou os presos sob a guarda mais hostil e admitiu em suas memórias de 1854 ter ouvido ameaças explícitas. Nenhum documento o coloca na conspiração, e nenhum historiador de peso o acusa disso

O julgamento de 1845

Nove pessoas foram indiciadas, mas quatro fugiram do condado. Cinco foram a julgamento em Carthage, perante o juiz Richard M. Young: Levi Williams, Thomas C. Sharp, Mark Aldrich, Jacob C. Davis e William N. Grover. A acusação coube a Josiah Lamborn, ex-procurador-geral de Illinois; a defesa incluía Orville Hickman Browning, futuro senador.

A defesa conseguiu que o painel de jurados escolhido pelos comissários do condado, onde havia maioria mórmon, fosse dispensado e substituído por outro montado por auxiliares nomeados pela corte. Dos noventa e seis convocados, quatro eram mórmons, e no júri final de doze não havia nenhum. Testemunhas mórmons importantes, entre elas John Taylor, recusaram-se a depor. Em 30 de maio de 1845 os cinco foram absolvidos, depois de cerca de duas horas de deliberação. Ninguém jamais foi condenado pelas mortes de Joseph e Hyrum Smith, e os absolvidos seguiram carreiras públicas respeitáveis. A conclusão de Oaks e Hill, citada inclusive pelo Museu de História da Igreja, é que houve um assassinato político deliberado cometido ou tolerado por cidadãos proeminentes do condado, e que o veredicto se explica por anulação pelo júri, não por falta de provas.

A sucessão disputada

A igreja ficou sem regra clara de sucessão. Sidney Rigdon chegou a Nauvoo em 3 de agosto de 1844 reivindicando ser guardião da igreja. Brigham Young voltou do leste em 6 de agosto. Em 8 de agosto houve duas reuniões, e não uma: pela manhã Rigdon falou de cima de uma carroça a milhares de pessoas, e Young interrompeu antes que se votasse; à tarde, Young pôs primeiro a questão de escolher um guardião, que não recebeu nenhuma mão levantada, e depois a de sustentar o Quórum dos Doze como presidência, declarada aprovada. O Times and Seasons registrou aprovação sem voz dissidente, mas o diário de William Staines e a autobiografia de William Adams registram dissidência.

A tradição de que Brigham Young foi transfigurado com a aparência e a voz de Joseph Smith nessa assembleia foi examinada por Richard Van Wagoner num artigo de 1995 na revista Dialogue. Os achados: nenhum registro contemporâneo descreve isso; as várias atas da reunião da tarde nada trazem; os relatos posteriores situam o episódio no momento em que Young falou logo depois de Rigdon, o que é impossível, porque Rigdon falou só de manhã e Young só à tarde; a primeira referência pública identificada é de 1857; e vários dos relatos mais vívidos vêm de homens que comprovadamente não estavam em Nauvoo naquele dia, como Orson Hyde, que chegou em 13 de agosto, e John D. Lee, que voltou em 20 de agosto. Em sentido contrário, D. Michael Quinn aponta três documentos de novembro de 1844 a maio de 1845 falando do manto de Joseph sobre Young, aos quais Van Wagoner responde que nenhum descreve metamorfose física. A própria página de tópicos da Igreja sobre a sucessão não afirma transfiguração.

A maioria seguiu Brigham Young e foi para o oeste. Outros pretendentes reuniram grupos menores: James Strang, com uma carta de nomeação cuja autenticidade é disputada até hoje, que se fez coroar rei numa ilha do Lago Michigan e foi assassinado em 1856; Lyman Wight, que levou uma colônia para o Texas; Alpheus Cutler; e Granville Hedrick, cujo grupo voltou ao Condado de Jackson, no Missouri, e comprou o terreno dedicado em 1831 como sítio do templo.

A outra linha organizou-se em torno da família. Emma Smith nunca foi para o oeste; permaneceu em Nauvoo e casou-se com Lewis Bidamon em 1847. Na conferência de Amboy, Illinois, em 6 de abril de 1860, Joseph Smith III, então com 27 anos, aceitou a presidência do que veio a se chamar Igreja Reorganizada de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, rejeitando explicitamente o casamento plural como contrário ao Livro de Mórmon. Emma estava presente e foi recebida na igreja sem rebatismo. Ele presidiu até morrer, em 1914. Em 2001 a Reorganizada passou a se chamar Comunidade de Cristo. Hoje ela declara cerca de duzentos e cinquenta mil membros, contra quase dezoito milhões da Igreja SUD sediada em Salt Lake City.

A autobiografia de 1838 contém uma frase que os dois lados citam com sentidos opostos, atribuída ao anjo na primeira visita de 1823: a de que o nome dele seria tido por bom e por mau entre todas as nações. Cento e oitenta anos depois, é uma descrição factualmente exata da recepção que ele teve.

33 Chamou-me pelo nome e disse-me que era um mensageiro enviado a mim da presença de Deus e que seu nome era Morôni; que Deus tinha uma obra a ser executada por mim; e que meu nome seria considerado bom e mau entre todas as nações, tribos e línguas, ou que entre todos os povos se falaria bem e mal de meu nome.