O que é poliandria neste contexto
Cerca de um terço das uniões plurais de Joseph Smith foram com mulheres que tinham marido vivo, não divorciado e, em vários casos, morando com elas na mesma cidade. Os historiadores chamam isso de poliandria, e é o ponto do assunto que menos se resolve por analogia com o Antigo Testamento: Abraão, Jacó e Davi tiveram várias esposas, mas nenhuma delas era casada com outro homem ao mesmo tempo. Aqui não há precedente bíblico ao qual apelar.
O texto do Livro de Mórmon, que já restringia o número de esposas, também não abre exceção nesse sentido.
27 Portanto, meus irmãos, ouvi-me e atentai para a palavra do Senhor: Pois nenhum homem dentre vós terá mais que uma esposa; e não terá concubina alguma.
O que a Igreja reconhece
O ensaio Tópicos do Evangelho de 2014, "O casamento plural em Kirtland e Nauvoo", trata o fato diretamente. Ele registra que, depois do casamento com Louisa Beaman e antes de casar-se com outras mulheres solteiras, Joseph Smith foi selado a várias mulheres que já eram casadas, e estima esses selamentos entre 12 e 14. O ensaio não nega nem minimiza: ele reconhece e depois oferece explicações possíveis, sem escolher uma.
As explicações que o próprio ensaio apresenta são três. Que esses selamentos criavam laços familiares eternos entre casas, ligando outras famílias à do profeta. Que podiam cumprir o mandamento divino sem envolver relação conjugal nesta vida. E que mulheres casadas com homens que não eram membros da Igreja podiam buscar, pelo selamento, bênçãos eternas que o casamento existente não lhes daria. O ensaio também afirma que não há evidência conclusiva sobre relações conjugais nessas uniões.
Os casos documentados
| Mulher | Marido vivo | Ano | Onde estava o marido | O que a fonte sustenta |
|---|---|---|---|---|
| Zina Diantha Huntington Jacobs | Henry Bailey Jacobs | 1841 | Em Nauvoo, casado com ela havia sete meses | Selamento pelo irmão dela, Dimick Huntington. Ela estava grávida e continuou vivendo com Jacobs, de quem teve dois filhos. Afidávit de 1869. Depois da morte de Joseph, casou-se com Brigham Young e Jacobs afastou-se. |
| Presendia Lathrop Huntington Buell | Norman Buell | 1841 | Em Nauvoo, afastado da Igreja desde o Missouri | Afidávit de 1869 e esboço autobiográfico de 1881. Hales lê o caso como o de uma mulher que não podia ser selada a um marido descrente. |
| Sylvia Porter Sessions Lyon | Windsor Palmer Lyon | 1842, ou entre fins de 1842 e maio de 1843 segundo Hales | Em Nauvoo, desassociado da Igreja em novembro de 1842 | O caso central da discussão. Declaração de leito de morte de Sylvia à filha Josephine, em 1882, registrada por escrito em afidávit de 1915. |
| Mary Elizabeth Rollins Lightner | Adam Lightner | 1842 | Em Nauvoo, nunca se filiou à Igreja e viveu até 1885 | Selada por Brigham Young. Ela permaneceu com Lightner a vida inteira e descreveu o selamento como sendo por eternidade. Afidávit de 1902 e discurso de 1905. |
| Patty Bartlett Sessions | David Sessions | 1842 | Em Nauvoo, membro da Igreja | A data está no diário da própria Patty, documento contemporâneo raro no conjunto. Tida como selamento por eternidade. Mãe de Sylvia. |
| Marinda Nancy Johnson Hyde | Orson Hyde, apóstolo | 1842 ou 1843 | Na data de 1842, em missão a Jerusalém | John D. Lee relatou que o selamento se deu com o consentimento de Hyde. A data é disputada entre o diário de Joseph Smith e o afidávit dela. |
| Sarah Maryetta Kingsley Cleveland | John Cleveland | 1842 | Em Nauvoo, simpático aos santos, nunca membro | Ela continuou vivendo com Cleveland. Relato contemporâneo a descreve como selada ao profeta enquanto vivia com o marido. Era primeira conselheira de Emma na Sociedade de Socorro. |
| Elizabeth Davis Brackenbury Durfee | Jabez Durfee | 1842 | Em Nauvoo, membro ativo | Caso contestado. As afirmações diretas vêm de fontes hostis, John C. Bennett e Sarah Pratt. Anderson e Faulring consideram a evidência insuficiente. |
| Ruth Daggett Vose Sayers | Edward Sayers | 1843 | Em Nauvoo, não membro | Os papéis de Andrew Jenson registram que o próprio Sayers pediu que a esposa fosse selada por eternidade, reservando para si apenas esta vida. Afidávit de 1869. |
| Elvira Annie Cowles Holmes | Jonathan Harriman Holmes | 1843 | Em Nauvoo, casado com ela havia seis meses | O afidávit de 1869 não declara a natureza do selamento. A filha dela afirmou em 1938 que a mãe viveu como esposa plural de Joseph em vida dele. |
| Lucinda Pendleton Morgan Harris | George Washington Harris | c. 1838 | Em Far West, Missouri | Sem registro de selamento em vida. A alegação vem de Sarah Pratt, hostil, publicada por Wilhelm Wyl em 1886, mais o selamento por procuração de 1846. |
| Mary Ann Frost Pratt | Parley P. Pratt, apóstolo | atribuído a 1843 | Em Nauvoo | Compton não a inclui. O único documento firme é o registro do templo de Nauvoo de 1846, que é selamento póstumo, não uma cerimônia em vida. |
As três leituras concorrentes
A primeira é a de Brian Hales. Ele sustenta que esses selamentos eram apenas por eternidade e não envolviam relação conjugal, e distingue explicitamente poliandria sexual de poliandria não sexual, atribuindo a Joseph Smith apenas a segunda. Ele argumenta ainda que várias dessas mulheres estavam separadas, distanciadas ou casadas com homens fora da Igreja, o que muda o sentido prático do selamento. Hales documenta relação conjugal em cerca de doze casamentos por tempo e eternidade, e nenhum deles é poliândrico.
A segunda é a de Todd Compton. Ele conta doze uniões poliândricas certas entre as 33 mulheres, e sustenta que não há evidência convincente de casamento não sexual, exceto talvez no caso das esposas mais idosas. Seu argumento mais forte era o caso de Sylvia Sessions Lyon: em 1882, no leito de morte, Sylvia disse à filha Josephine que ela era filha de Joseph Smith, e Josephine registrou a declaração em afidávit em 1915. Compton também desmonta a versão de que essas mulheres estavam distanciadas dos maridos: das doze uniões, só três tinham marido não membro, e apenas um marido, Norman Buell, estava afastado da Igreja na data. Os demais eram membros ativos e em plena comunhão.
A terceira não é sobre sexo, e sim sobre parentesco. Richard Bushman, que conta dez mulheres já casadas, escreve que Joseph Smith não se casava para formar companheirismo humano, e sim para criar uma rede de esposas, filhos e parentes que durasse na eternidade; a frase dele é que Joseph não cobiçava mulheres tanto quanto cobiçava parentesco. Samuel Brown desenvolve a mesma leitura como uma cadeia genealógica sacerdotal, em que o casamento funciona como adoção. É importante não confundir as duas coisas: dinástico não quer dizer sem relação conjugal. D. Michael Quinn, que é o autor original da tese de parentesco de elite, sustenta ao mesmo tempo que a evidência de poliandria sexual é ampla e convincente, e observa que os registros de selamento do século 19 usam apenas as fórmulas "por tempo e eternidade" e "só por tempo", e que ele não encontrou "só por eternidade" em milhares de registros manuscritos que examinou.
O teste de DNA de 2016
O caso de Josephine Lyon foi por muito tempo a evidência mais concreta da leitura de Compton, e desde 2016 deixou de ser. Uma análise genética conduzida por Ugo Perego e colaboradores, sobre descendentes das linhagens envolvidas, concluiu que Josephine era filha biológica de Windsor Lyon, o marido legal de Sylvia, e não de Joseph Smith. É o mesmo grupo de pesquisa que já havia testado outras alegações de paternidade atribuídas a Joseph Smith, todas com resultado negativo até aqui.
O que o resultado muda é preciso e limitado. Ele remove a única prova biológica que se apresentava para uma relação conjugal em uma união poliândrica, e portanto enfraquece o argumento de Compton no ponto em que ele era mais forte. O que ele não muda é o resto. Continua sendo fato que Sylvia disse à filha que Joseph era o pai, o que indica que ela mesma entendia sua relação com ele como conjugal, mesmo que estivesse enganada quanto à paternidade. E continua sendo fato, reconhecido pela própria Igreja, que entre 12 e 14 selamentos foram feitos com mulheres que tinham marido vivo. Um teste de paternidade responde a uma pergunta sobre um bebê nascido em 1844; ele não responde à pergunta sobre a natureza dos outros selamentos, para os quais não existe nem gravidez nem descendente a testar.
A situação probatória, portanto, é assimétrica e vai continuar assim. A ausência de relação conjugal não deixa rastro documental por definição, e a presença dela, nesses casos específicos, também não deixou. Bushman formula isso na negativa mais estreita possível: não há evidência certa de que Joseph Smith tenha tido relações com alguma das esposas que eram casadas com outros homens. Note que isso não é o mesmo que dizer que não houve. O que temos são afidávits tardios, um punhado de documentos contemporâneos e um teste genético que fecha um caso e não os outros. Quem afirma categoricamente qualquer um dos lados está indo além do que a documentação sustenta.