O nono Artigo de Fé
A diferença estrutural entre o mormonismo e o cristianismo histórico não está apenas no conteúdo das doutrinas: está em quantas fontes de doutrina cada um reconhece como abertas. O nono Artigo de Fé formula a posição SUD em uma frase.
9 Cremos em tudo o que Deus revelou, em tudo o que Ele revela agora, e cremos que Ele ainda revelará muitas coisas grandiosas e importantes relativas ao Reino de Deus.
Os três tempos verbais são o ponto: revelou, revela agora e ainda revelará. A revelação não é um evento encerrado no primeiro século, e nem sequer nos anos de Joseph Smith. Ela continua.
30 Pois eis que assim diz o Senhor Deus: Darei aos filhos dos homens linha sobre linha, preceito sobre preceito, um pouco aqui e um pouco ali; e abençoados os que dão ouvidos aos meus preceitos e escutam os meus conselhos, porque obterão sabedoria; pois a quem recebe darei mais; e dos que disserem: Temos o suficiente, destes será tirado até mesmo o que tiverem.
7 Certamente o Senhor DEUS não fará coisa alguma, sem ter revelado o seu segredo aos seus servos, os profetas.
As quatro obras-padrão
A Igreja SUD reconhece quatro livros como Escritura, chamados coletivamente de obras-padrão. Três deles não existem em nenhuma outra tradição cristã.
| Obra | Origem | Conteúdo |
|---|---|---|
| Bíblia | Recebida da tradição cristã; em inglês, a versão King James | Antigo e Novo Testamento, aceitos "desde que traduzidos corretamente" |
| Livro de Mórmon | Publicado em 1830, apresentado como tradução de placas antigas | Registro religioso de povos que teriam habitado o continente americano, encerrado com a visita de Cristo ressurreto |
| Doutrina e Convênios | Compilação de revelações a partir de 1830, ainda aberta | Revelações administrativas e doutrinárias, além de duas Declarações Oficiais |
| Pérola de Grande Valor | Compilada em 1851 | Livros de Moisés e de Abraão, tradução de Mateus por Joseph Smith, sua história e os treze Artigos de Fé |
O oitavo Artigo de Fé traz a ressalva sobre a Bíblia que caracteriza a posição SUD: ela é a palavra de Deus "desde que esteja traduzida corretamente", enquanto o Livro de Mórmon é afirmado sem essa condicional.
8 Cremos ser a Bíblia a palavra de Deus, desde que esteja traduzida corretamente; também cremos ser o Livro de Mórmon a palavra de Deus.
A justificativa interna dessa ressalva está numa visão de 1 Néfi, em que o texto bíblico é descrito como tendo perdido, na transmissão, partes "claras e sumamente preciosas", que registros posteriores viriam restaurar.
26 E depois de transmitidas dos judeus aos gentios pela mão dos doze apóstolos do Cordeiro, vês a formação daquela grande e abominável igreja que é mais abominável que todas as outras igrejas; pois eis que tiraram do evangelho do Cordeiro muitas partes que são claras e sumamente preciosas; e também muitos convênios do Senhor foram tirados.
27 E fizeram tudo isso a fim de perverterem os caminhos retos do Senhor, a fim de cegarem os olhos e endurecerem o coração dos filhos dos homens.
28 Vês, portanto, que depois de haver o livro passado pelas mãos da grande e abominável igreja, foram suprimidas muitas coisas claras e preciosas do livro, que é o livro do Cordeiro de Deus.
40 E falou-me o anjo, dizendo: Estes últimos registros que viste entre os gentios confirmarão a verdade dos primeiros, que são dos doze apóstolos do Cordeiro, e divulgarão as coisas claras e preciosas que deles foram suprimidas; e mostrarão a todas as tribos, línguas e povos que o Cordeiro de Deus é o Filho do Pai Eterno e o Salvador do mundo; e que todos os homens devem vir a ele, pois do contrário não poderão ser salvos.
A objeção antecipada aparece em 2 Néfi 29, onde o texto responde a quem diz que uma Bíblia basta.
3 E porque minhas palavras hão de silvar — muitos dos gentios clamarão: Uma Bíblia, uma Bíblia! Temos uma Bíblia e não pode haver qualquer outra Bíblia.
10 Portanto, porque tendes uma Bíblia não deveis supor que ela contenha todas as palavras minhas; nem deveis supor que eu não fiz com que se escrevesse mais.
O presidente da Igreja como profeta vivo
A Igreja é presidida por um homem sustentado pelos membros como profeta, vidente e revelador. Ele é assistido por dois conselheiros na Primeira Presidência e pelo Quórum dos Doze Apóstolos. A sucessão não passa por eleição nem por conclave: quando o presidente morre, a Primeira Presidência é dissolvida e o apóstolo com mais tempo de ordenação no Quórum dos Doze torna-se presidente. A regra é de antiguidade no cargo, não de idade nem de votação, o que na prática torna a sucessão previsível.
Duas vezes por ano, em abril e outubro, a Igreja realiza a Conferência Geral, transmitida mundialmente, em que a Primeira Presidência e os Doze discursam. É nessas ocasiões que mudanças de política e ênfase doutrinária são anunciadas. Os membros sustentam os líderes por voto simbólico levantando a mão.
6 Cremos na mesma organização que existia na Igreja Primitiva, isto é, apóstolos, profetas, pastores, mestres, evangelistas, etc.
20 Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina;
11 E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores,
12 Querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo;
13 Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo,
Revelação contínua na prática: duas mudanças
Dois exemplos mostram como o cânone aberto opera. A Declaração Oficial 1, de 1890, conhecida como o Manifesto, encerrou a prática do casamento plural entre os membros da Igreja. A Declaração Oficial 2, de 1978, estendeu a ordenação ao sacerdócio e as ordenanças do templo a todos os membros dignos do sexo masculino, sem restrição racial, revertendo uma política em vigor desde o século 19. Ambas são publicadas dentro de Doutrina e Convênios, o que as coloca formalmente no nível da Escritura.
Documentos posteriores, como a Proclamação sobre a Família (1995), são amplamente citados como doutrina sem terem sido acrescentados às obras-padrão. Isso mostra que o cânone aberto não significa acréscimo constante de texto canônico: na prática, a última adição às obras-padrão é de 1978.
O cânone fechado do cristianismo histórico
A posição contrária não é a de que Deus deixou de falar, e sim a de que a revelação pública e normativa se encerrou com a era apostólica. Os concílios que fixaram a lista dos livros (Hipona, 393, e Cartago, 397, entre outros) não criaram o cânone: registraram os livros que as igrejas já liam. O Concílio de Trento (1546) e as confissões protestantes do século 17 formalizaram a posição para católicos e reformados. Aparições e revelações privadas, quando reconhecidas por alguma tradição, nunca acrescentam artigos de fé.
Os textos habitualmente citados nesse argumento são o aviso final do Apocalipse, a expressão de Judas sobre a fé entregue "uma vez por todas", e a advertência de Paulo aos gálatas.
18 Porque eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro que, se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus fará vir sobre ele as pragas que estão escritas neste livro;
19 E, se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte do livro da vida, e da cidade santa, e das coisas que estão escritas neste livro.
3 Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos, e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos.
8 Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema.
1 Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho,
2 A quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo.
A resposta SUD a Apocalipse 22:18-19 é textual: a advertência estaria dirigida ao livro do Apocalipse, escrito antes de o Novo Testamento existir como coleção, e uma fórmula semelhante já aparece em Deuteronômio, sem que isso tenha encerrado a Escritura naquele ponto.
2 Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do Senhor vosso Deus, que eu vos mando.
Comparação
| Ponto | Doutrina SUD | Cristianismo histórico |
|---|---|---|
| Cânone | Aberto: quatro obras-padrão, com possibilidade de acréscimo | Fechado desde a era apostólica; a lista foi reconhecida, não criada |
| Autoridade viva | Presidente da Igreja como profeta, vidente e revelador | Magistério, concílios ou confissões, sem revelação nova normativa |
| Sucessão | Apóstolo com mais tempo de ordenação no Quórum dos Doze | Eleição (conclave papal), sínodo, ou governo congregacional |
| Status da Bíblia | Palavra de Deus desde que traduzida corretamente | Palavra de Deus, regra de fé suprema ou normativa |
| Última adição canônica | Declaração Oficial 2, em 1978 | Nenhuma desde a fixação do cânone antigo |
| Revelação pessoal | Esperada de todo membro, mediante oração e o Espírito Santo | Reconhecida como direção pessoal, nunca como doutrina pública nova |
O convite prático que a Igreja faz a quem investiga fecha o círculo entre cânone aberto e experiência pessoal: o próprio Livro de Mórmon instrui o leitor a perguntar a Deus se aquilo é verdadeiro, com a promessa de resposta pelo Espírito Santo. A passagem é conhecida entre os membros como a promessa de Morôni, e é o teste de verdade que os missionários apresentam.
4 E quando receberdes estas coisas, eu vos exorto a perguntardes a Deus, o Pai Eterno, em nome de Cristo, se estas coisas não são verdadeiras; e se perguntardes com um coração sincero e com real intenção, tendo fé em Cristo, ele vos manifestará a verdade delas pelo poder do Espírito Santo.
5 E pelo poder do Espírito Santo podeis saber a verdade de todas as coisas.
17 Assim que apareceu, senti-me livre do inimigo que me sujeitava. Quando a luz pousou sobre mim, vi dois Personagens cujo esplendor e glória desafiam qualquer descrição, pairando no ar, acima de mim. Um deles falou-me, chamando-me pelo nome, e disse, apontando para o outro: Este é Meu Filho Amado. Ouve-O!