Uma pergunta que depende do critério
Esta é a pergunta mais buscada sobre o mormonismo, e ela não tem uma resposta única porque as partes envolvidas não usam a mesma definição de "cristão". Para uns, cristão é quem confessa Jesus Cristo como Salvador. Para outros, é quem professa a fé nos termos dos concílios antigos. Para os estudiosos de religião, a pergunta nem é normativa: é uma questão de classificação histórica. Abaixo estão os três critérios, cada um com o que ele de fato afirma.
O que a Igreja SUD diz de si mesma
A resposta dos próprios Santos dos Últimos Dias começa pelo nome: A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Em agosto de 2018, o presidente Russell M. Nelson lançou uma campanha para abandonar os apelidos "mórmon" e "Igreja Mórmon" em favor do nome completo, com o argumento de que omitir o nome de Cristo é uma vitória do adversário. Os materiais oficiais da Igreja passaram a evitar o termo "mórmon" desde então.
O primeiro dos Treze Artigos de Fé, escritos por Joseph Smith em 1842, abre pela fé no Pai, no Filho e no Espírito Santo, e o terceiro põe a salvação na expiação de Cristo.
1 Cremos em Deus, o Pai Eterno, e em Seu Filho, Jesus Cristo, e no Espírito Santo.
3 Cremos que, por meio da Expiação de Cristo, toda a humanidade pode ser salva, pela obediência às leis e ordenanças do Evangelho.
O Livro de Mórmon é explícito no mesmo sentido. A passagem mais citada pelos próprios membros quando lhes perguntam se são cristãos é a declaração de Néfi, e o livro fecha com um convite a Cristo.
26 E falamos de Cristo, regozijamo-nos em Cristo, pregamos a Cristo, profetizamos de Cristo e escrevemos de acordo com nossas profecias, para que nossos filhos saibam em que fonte procurar a remissão de seus pecados.
32 Sim, vinde a Cristo, sede aperfeiçoados nele e negai-vos a toda iniquidade; e se vos negardes a toda iniquidade e amardes a Deus com todo o vosso poder, mente e força, então sua graça vos será suficiente; e por sua graça podeis ser perfeitos em Cristo; e se pela graça de Deus fordes perfeitos em Cristo, não podereis, de modo algum, negar o poder de Deus.
O clímax narrativo do Livro de Mórmon é a aparição de Jesus ressuscitado no continente americano, onde ele se identifica pelo nome e mostra as marcas dos cravos.
10 Eis que eu sou Jesus Cristo, cuja vinda ao mundo foi testificada pelos profetas.
14 Levantai-vos e aproximai-vos de mim, para que possais meter as mãos no meu lado e também apalpar as marcas dos cravos em minhas mãos e em meus pés, a fim de que saibais que eu sou o Deus de Israel e o Deus de toda a Terra e fui morto pelos pecados do mundo.
Por que as denominações cristãs históricas dizem que não
Católicos, ortodoxos e a maioria das denominações protestantes respondem que não, e a recusa não se apoia na sinceridade dos membros nem na frequência com que o nome de Cristo aparece nos textos SUD. Ela se apoia em três pontos doutrinários concretos.
O primeiro é a doutrina de Deus. O cristianismo credal confessa um só Deus em três pessoas de uma mesma substância, incriado e imutável. A teologia SUD ensina que Pai, Filho e Espírito Santo são três seres distintos unidos em propósito, que o Pai tem corpo de carne e ossos, e que os seres humanos existiam como espíritos antes do nascimento e podem progredir rumo à exaltação. A ideia da preexistência dos espíritos aparece no Livro de Abraão.
22 Ora, o Senhor mostrara a mim, Abraão, as inteligências que foram organizadas antes de o mundo existir; e entre todas essas havia muitas das nobres e grandes;
23 E Deus viu que essas almas eram boas; e ele estava no meio delas e disse: A estes farei meus governantes; pois ele se encontrava entre aqueles que eram espíritos, e viu que eles eram bons; e disse-me: Abraão, tu és um deles; foste escolhido antes de nasceres.
O segundo é o cânone aberto. Para as igrejas históricas, a revelação pública se encerrou com os apóstolos e a Escritura é fechada. Os Artigos de Fé colocam o Livro de Mórmon ao lado da Bíblia e afirmam revelação contínua.
8 Cremos ser a Bíblia a palavra de Deus, desde que esteja traduzida corretamente; também cremos ser o Livro de Mórmon a palavra de Deus.
9 Cremos em tudo o que Deus revelou, em tudo o que Ele revela agora, e cremos que Ele ainda revelará muitas coisas grandiosas e importantes relativas ao Reino de Deus.
O terceiro é a rejeição dos credos. O relato da Primeira Visão publicado por Joseph Smith em 1838 traz a afirmação de que os credos das igrejas de seu tempo eram uma abominação. Um movimento que se define como restauração pressupõe que houve apostasia geral, ou seja, que o cristianismo existente perdeu a autoridade. As igrejas históricas leem isso como a negação da própria continuidade cristã.
19 Foi-me respondido que não me unisse a qualquer delas, pois estavam todas erradas; e o Personagem que se dirigia a mim disse que todos os seus credos eram uma abominação a sua vista; que aqueles religiosos eram todos corruptos; que “eles se aproximam de mim com os lábios, mas seu coração está longe de mim; ensinam como doutrina os mandamentos de homens, tendo aparência de religiosidade, mas negam o seu poder.”
A consequência prática é o batismo. Em 5 de junho de 2001, a Congregação para a Doutrina da Fé respondeu "negativo" à pergunta sobre a validade do batismo conferido pela Igreja SUD, o que significa que um convertido do mormonismo ao catolicismo é batizado, e não apenas recebido. Decisões equivalentes foram tomadas pela Igreja Metodista Unida em 2000 e pela Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos em 2001, e a Convenção Batista do Sul classifica o mormonismo como grupo não cristão em seus materiais de missão. O ponto técnico é que a fórmula trinitária pronunciada no batismo SUD não significaria, para essas igrejas, o mesmo que significa nos credos.
A leitura dos estudos religiosos
Historiadores da religião costumam recusar a pergunta na forma binária, porque "cristão" para eles é uma categoria descritiva, não um selo de aprovação. A formulação mais influente é a da historiadora Jan Shipps, que não é membro da Igreja SUD e publicou em 1985 o estudo "Mormonism: The Story of a New Religious Tradition". A tese de Shipps é que o mormonismo se relaciona com o cristianismo mais ou menos como o cristianismo primitivo se relacionou com o judaísmo: nasce dentro dele, herda suas escrituras, e depois se torna uma tradição religiosa nova, com escritura própria, sacerdócio próprio e narrativa fundadora própria.
Nessa leitura, chamar o mormonismo de "não cristão" apaga a raiz, e chamá-lo de apenas mais uma denominação protestante apaga a novidade. Outros estudiosos, como o sociólogo Rodney Stark, foram além e trataram o mormonismo como candidato a religião mundial nova. Vale notar que essa classificação acadêmica não é aceita como autodescrição pela Igreja SUD, que insiste em ser a restauração do cristianismo original, e não algo novo.
Os critérios, lado a lado
| Critério usado | Quem usa | Resposta que produz |
|---|---|---|
| Confessar Jesus Cristo como Salvador e Filho de Deus | Igreja SUD | Sim |
| Nome da instituição e centralidade de Cristo nos textos | Igreja SUD | Sim |
| Conformidade com os credos de Niceia e Calcedônia (um Deus em três pessoas, mesma substância) | Católicos, ortodoxos, maioria protestante | Não |
| Cânone bíblico fechado e fim da revelação pública | Católicos, ortodoxos, maioria protestante | Não |
| Validade do batismo trinitário conferido | CDF (2001), metodistas, presbiterianos | Não |
| Origem histórica e herança textual | Estudos religiosos | Raiz cristã |
| Grau de inovação (escritura, sacerdócio, cosmologia) | Estudos religiosos (Shipps) | Tradição nova |
Nenhum desses critérios é neutro, e nenhum deles é arbitrário. Quem responde "sim" normalmente está usando um critério de confissão pessoal. Quem responde "não" normalmente está usando um critério doutrinário e institucional. Quem responde "depende" está descrevendo, não julgando. A pergunta que resta ao leitor não é qual lado tem mais razão, e sim qual critério ele considera decisivo, porque a resposta segue direto dessa escolha.