Templos, Batismo pelos Mortos e Casamento Eterno

Capela e templo não são a mesma coisa

A distinção é a primeira coisa a entender, e a que mais gera mal-entendido. A capela (ou centro de reuniões) é o prédio onde acontece o culto semanal: aula, sacramento, atividades. É aberta a qualquer pessoa, sem convite e sem credencial. Existem dezenas de milhares delas no mundo.

O templo é outra construção, muito menos numerosa, dedicada exclusivamente às ordenanças que a doutrina SUD considera necessárias para a exaltação: a investidura, o selamento e as ordenanças realizadas por procuração em favor dos mortos. Não há cultos dominicais ali. Depois da dedicação, o acesso é restrito a membros que possuem uma recomendação do templo, documento emitido após entrevistas com líderes locais que verificam dignidade e observância. Antes da dedicação, cada templo novo passa por um período de portas abertas em que qualquer pessoa pode visitar.

AspectoCapela (centro de reuniões)Templo
FunçãoCulto semanal, aulas, sacramento, atividadesOrdenanças de investidura, selamento e por procuração
AcessoAberta a todos, sem restriçãoMembros com recomendação do templo, após a dedicação
Frequência de usoSemanal, sobretudo aos domingosSessões durante a semana, fechado aos domingos
QuantidadeDezenas de milhares no mundoCentenas, com muitas em construção ou anunciadas
VestimentaRoupa comum de cultoRoupa branca fornecida ou levada pelo participante

O selamento e o casamento eterno

A ordenança mais conhecida do templo é o selamento: o casamento realizado não "até que a morte os separe", mas "por tempo e por toda a eternidade". Na doutrina SUD, um casal selado permanece casado depois da morte, e os filhos nascidos dessa união pertencem à família selada. Casais que se casaram civilmente podem ser selados depois.

A base declarada é a autoridade de ligar e desligar entregue a Pedro, entendida como poder de selar relações válidas no céu, restaurado nos últimos dias.

19 E eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.

18 Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu.

A objeção clássica é a resposta de Jesus aos saduceus sobre a mulher com sete maridos: na ressurreição não se casam nem se dão em casamento. A leitura SUD responde que a passagem trata de casamentos contraídos apenas para esta vida, sem a autoridade seladora, e não de uniões seladas no templo. A leitura tradicional a toma como afirmação geral de que o matrimônio pertence a esta ordem do mundo.

30 Porque na ressurreição nem casam nem são dados em casamento; mas serão como os anjos de Deus no céu.

25 Porquanto, quando ressuscitarem dentre os mortos, nem casarão, nem se darão em casamento, mas serão como os anjos que estão nos céus.

O batismo pelos mortos

A prática do batismo vicário começou em Nauvoo, Illinois, em 1840, e desde então é realizada em todos os templos SUD. Um membro vivo, normalmente jovem, entra na pia batismal e é batizado por procuração em nome de uma pessoa já falecida, cujo nome foi previamente identificado e submetido.

A lógica da prática segue de duas premissas da doutrina SUD já vistas nas páginas anteriores: o batismo pela autoridade correta é necessário para a exaltação, e o Evangelho continua a ser pregado no mundo dos espíritos. Se milhões morreram sem a oportunidade, a justiça de Deus exige um mecanismo. O batismo por procuração fornece a ordenança; a doutrina SUD afirma que o falecido permanece livre para aceitá-la ou recusá-la.

19 No qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão;

6 Porque por isto foi pregado o evangelho também aos mortos, para que, na verdade, fossem julgados segundo os homens na carne, mas vivessem segundo Deus em espírito;

11 Ora, com relação ao estado da alma entre a morte e a ressurreição eis que me foi dado saber por um anjo que o espírito de todos os homens, logo que deixa este corpo mortal, sim, o espírito de todos os homens, sejam eles bons ou maus, é levado de volta para aquele Deus que lhes deu vida.

12 E então acontecerá que o espírito daqueles que são justos será recebido num estado de felicidade, que é chamado paraíso, um estado de descanso, um estado de paz, onde descansará de todas as suas aflições e de todos os seus cuidados e tristezas.

A leitura de 1 Coríntios 15:29

O único versículo bíblico que menciona a prática de forma direta é o argumento de Paulo em favor da ressurreição, em que ele pergunta o que farão os que se batizam pelos mortos, se os mortos não ressuscitam.

29 Doutra maneira, que farão os que se batizam pelos mortos, se absolutamente os mortos não ressuscitam? Por que se batizam eles então pelos mortos?

A leitura SUD é direta: Paulo menciona a prática sem condená-la, o que atesta que ela existia na igreja primitiva e que foi perdida depois. A exegese cristã majoritária observa que o versículo é notoriamente difícil (a literatura acadêmica registra dezenas de interpretações propostas), que Paulo usa a terceira pessoa ("os que se batizam") em vez de incluir a si mesmo e à comunidade, e que o argumento funciona mesmo se ele estiver apenas citando uma prática de terceiros para provar um ponto sobre a ressurreição. Há também registro histórico de grupos marcionitas praticando algo semelhante no século 2, o que os críticos citam como evidência de que a prática era marginal.

As duas leituras concordam num ponto factual: a passagem é o único texto do Novo Testamento que menciona batismo em favor de mortos, e o Novo Testamento não a explica.

Elias, Malaquias e a genealogia como prática religiosa

A ligação entre templo e genealogia vem da profecia final de Malaquias sobre a vinda de Elias, que voltaria o coração dos pais aos filhos e o dos filhos aos pais. O Livro de Mórmon reproduz a profecia na boca do Cristo ressurreto em 3 Néfi.

5 Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor;

6 E ele converterá o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais; para que eu não venha, e fira a terra com maldição.

5 Eis que eu vos enviarei Elias, o profeta, antes que venha o dia grande e terrível do Senhor;

6 E ele voltará o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais, para que eu não venha e fira a Terra com maldição.

A doutrina SUD interpreta o "coração dos filhos voltado aos pais" como o interesse pelos antepassados que motiva a pesquisa genealógica, e a aparição de Elias em Kirtland, em 1836, como o cumprimento da profecia e a entrega das chaves do selamento. Daí a genealogia deixa de ser passatempo e vira dever religioso: identificar antepassados é o que torna possível realizar as ordenanças por eles.

A consequência prática é grande fora do universo SUD. A Igreja mantém a maior operação de genealogia do mundo, com um acervo digitalizado de registros civis e eclesiásticos de dezenas de países, disponibilizado gratuitamente pelo site FamilySearch e usado por pesquisadores sem qualquer vínculo religioso. A prática de submeter nomes de pessoas falecidas para ordenanças por procuração já gerou atrito público, sobretudo com organizações judaicas por causa de vítimas do Holocausto, o que levou a Igreja a firmar acordos restringindo esse tipo de submissão.

Resumo

PráticaDoutrina SUDCristianismo histórico
TemploEdifício de ordenanças, acesso restrito por recomendaçãoNão há templo ritual; o culto ocorre em igrejas abertas
CasamentoPode ser selado por tempo e eternidadeVínculo para esta vida; a maioria lê Mt 22:30 nesse sentido
Batismo por procuraçãoPraticado em favor dos mortos, que podem aceitar ou recusarNão praticado; a maioria considera 1 Co 15:29 obscuro
GenealogiaDever religioso ligado ao cumprimento de Malaquias 4:5-6Interesse histórico ou familiar, sem função sacramental