Um conto curto, de uma página só
O Mujique Marei é um conto breve que Dostoiévski publicou em 1876, dentro de uma revista que ele mesmo escrevia, o Diário de um Escritor. Mujique é a palavra russa para o camponês, o servo simples da terra. O texto tem um único capítulo e cabe em poucas páginas. Nelas não há grande enredo: um homem preso, cercado de violência, recorda de repente um momento da sua infância e sai dessa lembrança com o coração mudado.
A cena de abertura é dura. Dostoiévski escreve no papel de si mesmo, lembrando dos anos em que cumpriu trabalhos forçados na Sibéria. É o segundo dia da semana da Páscoa, e na prisão os condenados estão bêbados, brigando, espancando uns aos outros. A alma do narrador está, como ele diz, muito sombria, e ele sente repulsa por aquela gente.
1 Era o segundo dia da semana da Páscoa. O ar estava morno, o céu azul, o sol alto, quente, claro, mas a minha alma estava muito sombria. Eu vagava atrás dos barracões da prisão. Fitava as estacas da forte cerca do presídio, contando as tábuas; não tinha vontade de contá-las, embora fosse o meu hábito fazê-lo. Era o segundo dia das "festas" na prisão; os condenados não eram levados ao trabalho, havia muitos homens bêbados, e a todo instante brotavam, em cada canto, xingamentos e brigas. Havia cantos horríveis, repugnantes, e rodas de baralho montadas ao lado das tarimbas. Vários dos detentos que os próprios companheiros tinham sentenciado, por violência especial, a apanhar até quase morrer, jaziam sobre as tarimbas, cobertos com peles de carneiro, à espera de se recuperar e voltar a si; facas já tinham sido sacadas várias vezes. Naqueles dois dias de festa, tudo isso me torturava a ponto de me adoecer. E, de fato, eu nunca conseguia suportar sem repulsa o barulho e a desordem dos bêbados, ainda mais ali.
A moldura da Páscoa
Dostoiévski não escolhe a Páscoa por acaso. É a festa da ressurreição, a passagem da morte para a vida, e o conto inteiro acontece dentro dela. O homem entra na história afundado no ódio aos prisioneiros e sai dela capaz de olhá-los de outro jeito. Entre uma coisa e outra não há sermão nem milagre visível: há só uma lembrança que sobe do fundo da memória, deitado na tarima da prisão, de olhos fechados.
4 Aos poucos mergulhei no esquecimento e, gradualmente, me perdi em lembranças. Durante todos os meus quatro anos de prisão, eu revisitava sem cessar o meu passado, e parecia viver de novo a vida inteira na recordação. Essas memórias surgiam por conta própria; raramente era por vontade minha que as convocava. Tudo começava de algum ponto, alguma coisinha, às vezes despercebida, e então, aos poucos, erguia-se um quadro completo, alguma impressão viva e inteira. Eu costumava analisar essas impressões, dar novos traços ao que acontecera tanto tempo atrás, e, melhor de tudo, costumava corrigi-las, corrigi-las sem parar; era a minha grande diversão. Naquela ocasião, por algum motivo, lembrei de repente de um momento despercebido da minha primeira infância, quando eu tinha apenas nove anos, um momento que eu juraria ter esquecido por completo; mas, naquela época, eu gostava especialmente das lembranças da minha infância.
Este tema é curto, como o conto. Esta página conta o que a obra é e a sua moldura. A próxima reconta a memória em si, o encontro do menino com o camponês Marei. Depois, duas páginas mostram o que essa lembrança ensina e como um cristão pode lê-la.